O ar não se movia sobre Vila Rica naquela manhã de 15 de agosto de 1762. No Solar dos Toledo, o cheiro de cera queimada se misturava ao odor de ervas cozidas que vinha do quarto de Ana Maria. Isabel apertava o terço entre os dedos, sentindo a madeira gasta das contas. Cada grito da cunhada ecoava pelo corredor de tábuas largas como as batidas de um sino de agonia.
Dentro do quarto, a penumbra era cortada apenas pela chama vacilante de uma lamparina. A parteira Benedita, de mangas arregaçadas e mãos úmidas, mantinha o olhar fixo no ventre de Ana Maria. Luiza movia-se em silêncio, trocando as bacias de água morna e limpando o suor que escorria pelo rosto da senhora.
— Falta pouco, Dona Ana — murmurou Benedita. A voz era seca, sem o peso da dúvida.
Isabel segurou a mão da cunhada. A força daquele aperto a fez lembrar de Gaspar. O luto ainda estava impregnado na casa. Enquanto Ana Maria arqueava o corpo em uma nova contração, Isabel encarava o oratório no canto do quarto. A vida ali parecia teimar em brotar de um solo ainda marcado pelo enterro.
Lá fora, o silêncio dos irmãos Martinho e Sebastião era interrompido apenas pelo ranger do assoalho. Eles não falavam. Martinho segurava o chapéu com tanta força que as abas já estavam deformadas.
De repente, um som agudo cortou a abafada manhã de Vila Rica. Não era um grito de dor, mas um protesto de vida.
Benedita ergueu o menino para a luz da lamparina. O sangue ainda brilhava em sua pele rosada. A parteira observou o rosto do menino, ainda enrugado e vermelho, antes de envolver o recém-nascido em um pano de linho limpo.
— Forte — disse Benedita, entregando o embrulho a Ana Maria. — Vai precisar ser.
Ana Maria acomodou o filho contra o peito. O choro do bebê cessou, substituído pelo ritmo da respiração curta. Isabel aproximou-se, observando os traços do irmão refletidos naquela pequena face.
— Joaquim — disse Ana Maria, quase num sopro.
Isabel sentiu um nó na garganta, mas não chorou. Apenas buscou o olhar de Luiza, que assentiu com a cabeça. Isabel entendeu.
A notícia do nascimento correu a casa sem alardes ou festejos. Martinho e Sebastião entraram no quarto, os chapéus agora sobre o peito, os olhos fixos no sobrinho que trazia o nome do bisavô. Não houve música ou risos no Solar naquela noite. A mesa do jantar continuava com o lugar de Gaspar vazio, e o cheiro de luto não havia se dissipado por completo.
Mas, pela primeira vez desde que o caixão cruzara aquele portal, uma criança chorava dentro do Solar.
