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O perigo do partido e a escolha da justiça

Um dos grandes riscos de se escrever ficção histórica reside na tentação de tomar partido, não apenas de um grupo ou personagem, mas de uma interpretação específica da História, quase sempre filtrada por nossas próprias convicções políticas, morais e afetivas. O passado, quando narrado, raramente se apresenta de forma neutra: ele nos provoca, nos desafia e, muitas vezes, nos convida a julgar. Resistir a esse impulso talvez seja um dos exercícios mais difíceis (e mais necessários) do escritor que se aventura nesse gênero.

Em Rios de Sangue e Ouro, esse risco se apresentou de maneira particularmente evidente. A narrativa se constrói em torno de um conflito histórico marcado por antagonismos claros: de um lado, os paulistas; de outro, os emboabas. Ambos os grupos carregam motivações legítimas, reivindicações compreensíveis e, sobretudo, sofrimentos reais. A História não lhes concedeu o conforto de papéis simples, e eu tampouco quis fazê-lo.

Ao escolher acompanhar Joaquim (um emboaba) como eixo da narrativa, seria natural que o romance enveredasse pelo caminho mais fácil: transformar os paulistas em vilões inequívocos e elevar Joaquim e seus companheiros à condição de heróis imaculados, portadores exclusivos da razão e da justiça. Mas esse tipo de construção sempre me pareceu pobre, previsível e, acima de tudo, desonesta com a experiência humana. A realidade histórica, assim como a vida, raramente se organiza em tons de branco e preto. Ela habita uma extensa zona de cinzas.

Não me interessa escrever histórias em que o leitor saiba, desde as primeiras páginas, quem merece aplauso e quem deve ser condenado. Prefiro narrativas em que os personagens sejam humanos antes de serem símbolos: capazes de gestos de coragem e de atos vis, de lealdade e de traição, de compaixão e de crueldade. Em Rios de Sangue e Ouro, não há heróis incontestáveis nem vilões absolutos. Há homens empurrados por circunstâncias extremas, tomando decisões imperfeitas em um mundo que já nasceu injusto.

Diante disso, surge uma pergunta inevitável: onde reside, afinal, a crítica central do romance, uma vez que se trata de uma ficção histórica? A resposta não está em escolher uma facção contra a outra, mas em apontar forças mais profundas e universais. A primeira delas é a ganância humana, simbolizada pelo ouro; esse metal que, ao mesmo tempo em que promete prosperidade, corrompe relações, dilui valores e transforma vizinhos em inimigos. O ouro, na narrativa, não pertence a paulistas ou emboabas; ele seduz e degrada a todos por igual.

A segunda força é o poder político legítimo, representado pela Coroa Portuguesa. Longe de surgir como instância mediadora ou pacificadora, esse poder é retratado como distante, corrupto e essencialmente utilitário. Interessa-se menos pela vida humana do que pela arrecadação de impostos; menos pela justiça do que pela manutenção de seus privilégios. Sua atuação é marcada por uma inafiançável inércia: observa, calcula, lucra, enquanto o sangue corre e as comunidades se destroem.

Essa combinação de ganância privada e omissão institucional confere à narrativa um caráter tridimensional. Embora a estrutura do romance favoreça naturalmente o ponto de vista de Joaquim, a descrição visceral das vítimas paulistas, assim como a condenação moral de determinadas ações do próprio protagonista, tensionam constantemente a empatia do leitor. O objetivo nunca foi oferecer conforto moral, mas inquietação. Ao fim, o que se revela é a percepção de que, naquela guerra, não houve vencedores, apenas perdas irreparáveis de ambos os lados.

Se há, portanto, um “partido” tomado ao final do livro, ele não pertence a nenhuma das facções em disputa. É um alinhamento com algo mais antigo e mais essencial: uma ideia de justiça humana, quase ancestral, que precede projetos políticos, fronteiras improvisadas e discursos oficiais. Uma justiça que reconhece o sofrimento, denuncia a violência e recusa a celebração da barbárie, ainda que travestida de causa legítima.

Talvez essa escolha revele, mais do que qualquer discurso explícito, minhas próprias disposições internas diante da política e da História. Não escrevo para absolver nem para condenar coletivamente, mas para compreender e, ao compreender, expor as fraturas, os erros e as tragédias que se repetem sempre que o poder e a cobiça se sobrepõem à dignidade humana.

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