Às vezes me pego pensando se Deus não é, antes de tudo, um escritor.
As pistas estão espalhadas como notas de rodapé da criação. O Gênesis afirma que o mundo foi feito pela Palavra. O Evangelho de João vai além: no princípio era o Verbo e o Verbo não apenas estava com Deus, como era Deus. Palavra que cria, Palavra que ordena, Palavra que permanece. Não um gesto bruto, mas um ato narrativo, quase literário.
Sempre me pareceu curioso que essa Palavra tenha sido reunida num livro. Como se a criação precisasse ser lida para continuar existindo. Talvez por isso eu nunca tenha conseguido ver Deus apenas como um autor distante, mas como alguém que escreve através de mãos imperfeitas, homens como penas tortas, riscadas de falhas, deixando no pergaminho marcas que não são só d’Ele.
Essa reflexão não nasceu agora. Veio anos atrás, quando li Tolkien com mais atenção do que encantamento. Ali ficou claro que o criador verdadeiro raramente se coloca no centro da própria criação literária. Tolkien se dilui em hobbits, elfos, homens falhos e reis cansados. Ainda assim, sua voz, seus valores e sua visão de mundo atravessam cada página. Ele cria e depois se afasta. Como se soubesse que toda boa história exige esse gesto de renúncia.
Mas escrever ensina algo ainda mais desconfortável: personagens, quando bem criados, ganham vontade própria. Não obedecem ao plano inicial do autor, não respeitam esquemas morais simples. Escolhem. Erram. Insistem. É como se uma parte de nós se desprendesse e passasse a caminhar sozinha, assumindo consequências que não planejamos.
Em Rios de Sangue e Ouro, Joaquim faz exatamente isso. Escolhe e cada escolha fecha uma porta. Quando percebi, já não havia saída possível para o personagem que mais amei criar. Não posso nomeá-lo sem trair o leitor, mas sua morte me acompanhou por semanas enquanto escrevia, como se fosse minha e não apenas dele. Eu sabia onde aquilo terminaria. Sofri. Mas voltar atrás seria mentir para a história.
Há momentos em que o escritor percebe que só lhe restam duas opções: respeitar o caminho trilhado pelo personagem ou reescrever toda a sua vida. E, estranhamente, a segunda alternativa quase sempre soa como covardia narrativa.
Foi então que a pergunta voltou, mais incômoda do que antes: e se for assim que Deus se sente? Não como um juiz impassível, mas como um autor que vê seus personagens escolherem atalhos perigosos, ignorarem avisos, caminharem para destinos que poderiam ter sido outros e ainda assim respeita sua liberdade, mesmo quando isso lhe custa.
Talvez criar histórias seja aceitar, desde o início, que toda narrativa verdadeira envolve perda. E que amar personagens (ou criaturas) é, em alguma medida, aceitar sofrer com eles.
