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Capítulo 17 – O Homem Esquecido

Rio de Janeiro, Palácio Tiradentes, 9 de abril de 1941 – 10h00

Em 30 de janeiro de 1941, Getúlio Vargas havia assinado o Decreto-Lei nº 3.002, autorizando a criação da Companhia Siderúrgica Nacional e a construção da usina siderúrgica em Volta Redonda. Agora, dois meses e meio depois, realizava-se a assembleia geral que fundaria oficialmente a CSN como empresa de capital misto, com 500 milhões de cruzeiros de capital social subscrito.

O salão nobre do Palácio Tiradentes estava repleto. Ministros de Estado em ternos escuros. Banqueiros de gravata impecável. Militares em uniformes de gala. Engenheiros com pastas de couro. Jornalistas em cadeiras do fundo, tomando notas.

Getúlio Vargas presidia a mesa principal, ladeado por Osvaldo Aranha e pelo general Góis Monteiro. À sua direita, os homens que comandariam a CSN: Guilherme Guinle, nomeado presidente diretamente por Vargas; Ari Torres, vice-presidente; Edmundo de Macedo Soares, diretor-técnico; e Oscar Weinschenck, diretor-comercial.

A leitura dos estatutos durou quarenta minutos. Voz monótona de escrivão, palavras técnicas, números astronômicos. Mas todos entendiam o que aquilo significava: o Brasil deixaria de importar aço. O Brasil produziria aço. O Brasil seria potência.

Quando a votação foi chamada, todos os presentes ergueram a mão. Unanimidade. Não poderia ser diferente. A CSN não era apenas empresa. Era projeto de nação.

Getúlio levantou-se. O silêncio desceu sobre o salão.

– Senhores – disse ele, voz calma, mas carregada de significado. – Hoje, o Brasil dá o passo mais importante de sua história industrial. A Companhia Siderúrgica Nacional não é apenas fábrica. É símbolo. Símbolo de que podemos, sim, construir nosso próprio destino. De que não precisamos depender de estrangeiros para nos tornarmos grandes. De que o aço brasileiro forjará o Brasil do futuro.

Aplausos. Longos. Entusiastas.

 

– A usina será construída em Barra Mansa, no distrito de Volta Redonda – continuou Getúlio. – Às margens do Rio Paraíba do Sul. E quando os primeiros fornos acenderem, quando o primeiro aço correr incandescente, o mundo saberá: o Brasil chegou.

Mais aplausos.

Mas em nenhum momento, durante todo o discurso, Getúlio mencionou o nome de Sávio Gama.

Rio de Janeiro, Botafogo, 9 de abril de 1941 – 11h30

Sávio Gama estava sentado na varanda de sua casa em Botafogo, fumando charuto cubano, observando a Baía de Guanabara sob o sol da manhã.  Naquele momento, estava completamente sozinho.

Na mesa de centro ao seu lado, o Jornal do Brasil aberto na página de economia. Manchete em destaque: “CRIADA HOJE A COMPANHIA SIDERÚRGICA NACIONAL”. Subtítulo: “Presidente Vargas anuncia construção da maior usina da América Latina em Barra Mansa”.

Sávio leu o artigo duas vezes. Procurou seu nome. Não encontrou. Guilherme Guinle, mencionado três vezes. Góis Monteiro, duas. Macedo Soares, Osvaldo Aranha, Amaral Peixoto – todos citados. Mas Sávio Gama, o homem que levara Getúlio às margens do Paraíba, que manipulara a escolha de Volta Redonda, que mobilizara apoio político, que tornara tudo possível?

Nada.

Ele apagou o charuto com mais força que o necessário. O telefone tocou às 11h45. Era Henrique Costa, seu advogado e conselheiro.

– Viu os jornais? – perguntou Henrique, voz carregada de indignação contida.

– Vi.

– Nem uma menção. Nem uma palavra. Como se você não existisse.

– Existo – respondeu Sávio, calmamente. – Apenas não sou conveniente. A história oficial prefere generais e políticos. Empresários não vendem bem como heróis nacionais.

– Mas você vendeu a ideia a Getúlio! Você comprou políticos! Você…

– Fiz o que precisava ser feito – interrompeu Sávio. – E agora a CSN faz o que precisa fazer: esquecer quem a ajudou a nascer. Silêncio do outro lado da linha.

– Recebeu convite para o banquete de hoje à noite? – perguntou Henrique, finalmente.

Sávio olhou para a mesa. Pilha de correspondências. Convites para jantares, eventos, recepções. Nada da CSN.

– Não – disse ele, voz neutra. – Não recebi.

Rio de Janeiro, Hotel Glória, 9 de abril de 1941 – 19h00

O banquete comemorativo foi organizado pela diretoria da CSN no salão nobre do Hotel Glória. Trezentos convidados. Champanhe francês. Caviar russo. Orquestra tocando valsas. A nata política, econômica e social do país estava presente. Menos um homem.

Getúlio Vargas chegou às 19h30, cumprimentou ministros, banqueiros, industriais. Acomodou-se à mesa principal. E então, virando-se para seu ajudante de ordens, o tenente Ernesto Guedes, perguntou:

– O Sávio ainda não chegou?

O tenente piscou, confuso.

– Sávio, excelência?

– Sávio Gama – disse Getúlio, impaciente. – Ele não costuma se atrasar. É um cavalheiro. Algo aconteceu. Procure saber se ele está no Rio. Deve estar em sua casa em Botafogo.

Alerta vermelho. Rebuliço. Quem era o Sávio? Um empresário conhecido, descobriram. Os organizadores do cerimonial entreolharam-se, pálidos. Ninguém havia convidado Sávio Gama. Os “caipiras de Barra Mansa” – como chamavam desdenhosamente os moradores locais – não estavam na lista. Mas não Sávio. Ele pertencia à fina flor da elite carioca. Como poderiam ter esquecido do homem?

O diretor de cerimonial, Augusto Severo, suava frio.

– Senhor presidente… houve um… mal-entendido. O convite do senhor Gama foi… extraviado.

Getúlio virou-se lentamente. Seus olhos pequenos e astutos fixaram-se no diretor com intensidade que fazia generais tremerem.

– Extraviado – repetiu ele, voz perigosamente baixa. – O convite do homem que me levou a Volta Redonda. Que me apresentou as terras. Que mobilizou apoio político. Que tornou tudo isso possível. Foi extraviado.

– Senhor presidente, eu…

– Telefone para ele – ordenou Getúlio. – Agora. Pessoalmente. Apresente desculpas. Traga-o aqui. Mande um carro oficial buscá-lo. Imediatamente.

Augusto Severo praticamente correu para o telefone.

Rio de Janeiro, Botafogo, 9 de abril de 1941 – 19h45

Sávio Gama estava jantando sozinho no apartamento – filé mignon preparado por sua cozinheira, vinho tinto português, silêncio. Quando o telefone tocou, ele quase não atendeu. Mas atendeu.

– Senhor Gama – começou Augusto Severo, voz trêmula, nervosa. – Em nome do presidente Vargas e da direção da CSN, venho apresentar nossas mais sinceras desculpas. Houve um lamentável erro. Seu convite foi… extraviado. O presidente solicita sua presença imediata no banquete. Já está enviando um carro oficial para buscá-lo.

Sávio segurou o telefone em silêncio por longos segundos. Podia ouvir, ao fundo, o som da orquestra, conversas, risos. A festa continuava. Sem ele.

– Extraviado – disse ele, voz carregada de ironia. – Que interessante. Meu convite foi extraviado. O convite do homem que vendeu a ideia de Volta Redonda a Getúlio. Que injetou dinheiro no movimento. Que conseguiu apoio político. Mas meu convite… se perdeu.

Severo engoliu seco do outro lado da linha.

– Foi um erro terrível, senhor Gama. Um mal-entendido imperdoável. O presidente está pessoalmente constrangido. Por favor, permita-nos buscá-lo. Ele espera por você.

Sávio olhou para o prato de comida pela metade. Para o vinho. Para a Baía de Guanabara através da janela. Podia recusar. Podia desligar o telefone. Podia humilhar a CSN da mesma forma que fora humilhado.

Mas Getúlio esperava. E Getúlio era amigo. Vizinho de casa em Petrópolis. Companheiro de jantares, de conversas, de conspirações.

– Vinte minutos – disse ele, finalmente. – Estarei pronto em vinte minutos.

E desligou.

Rio de Janeiro, Hotel Glória, 9 de abril de 1941 – 20h30

Quando Sávio Gama entrou no salão, o jantar já havia começado. Conversas animadas. Champanhe circulando. A orquestra tocando. Getúlio levantou-se imediatamente.

– Sávio! – chamou ele, voz alta o suficiente para silenciar o salão. – Finalmente!

Todos se viraram. Trezentos pares de olhos observando o homem de terno escuro, gravata impecável, postura de quem nascera para a alta sociedade.

Diante da nata política, econômica e social do país, Getúlio chamou Sávio para se sentar à mesa ao seu lado.

– Venha – disse Getúlio, fazendo um gesto para a cadeira vazia ao seu lado direito, entre ele e Oswaldo Aranha. – Esta cadeira é sua. Sempre foi.

Sávio caminhou pelo salão sob os olhares atônitos de ministros, generais, banqueiros. Guilherme Guinle, presidente da CSN, empalideceu. Augusto Severo, diretor de cerimonial, baixou os olhos.

Quando Sávio sentou-se, Getúlio serviu-lhe champanhe pessoalmente. Depois, ainda de pé, ergueu a taça:

– Um brinde – disse ele, voz projetada para todo o salão. – Ao homem que tornou a CSN possível. Ao homem que teve a visão antes de todos nós. Ao meu amigo Sávio Gama.

O salão inteiro ficou de pé, constrangido, e repetiu:

– A Sávio Gama.

Sávio não sorriu. Apenas acenou com a cabeça, bebeu o champanhe, e sentou-se. A mensagem estava clara. Getúlio não esquecia seus amigos. E não perdoava quem os desrespeitava.

Quando o jantar terminou, já passava de meia-noite. Os convidados se despediam, embriagados de champanhe e euforia. Mas Getúlio pediu a Sávio que ficasse. Os dois homens caminharam até o terraço do hotel, fumando charutos, observando a Baía de Guanabara sob a lua cheia.

– Desculpe-me – disse Getúlio, finalmente. – A burocracia às vezes esquece quem realmente importa.

– Não foi esquecimento – respondeu Sávio, calmamente. – Foi arrogância. A turma da CSN acha que Volta Redonda é presente deles para o Brasil. Esqueceram que antes da CSN, havia fazendeiros. Havia terras. Havia gente.

– Não esquecerei – prometeu Getúlio. – E farei com que não esqueçam.

Sávio deu uma longa tragada no charuto.

– Getúlio, você e eu somos velhos demais para mentiras educadas. Sei como funciona. A usina será construída. Volta Redonda crescerá. Virará cidade. E quando isso acontecer, ninguém lembrará de mim. Lembrará de você. Lembrará da CSN. Lembrará dos polítcos, dos operários, dos generais. Mas, e quem vendeu a ideia? Esse será esquecido.

– Não por mim – disse Getúlio.

– Talvez não – concordou Sávio. – Mas você não é eterno. Ninguém é. E quando você partir, a história será reescrita. E eu serei nota de rodapé.

Os dois homens ficaram em silêncio, fumando, observando o mar.

– Vale a pena? – perguntou Getúlio, finalmente.

– O quê?

– Ser esquecido. Vale a pena construir algo sabendo que não levará o crédito?

Sávio sorriu, pela primeira vez naquela noite.

– Vale. Porque eu verei a usina funcionar. Verei Volta Redonda crescer. E isso, Getúlio, é mais que suficiente.

Getúlio apertou o ombro do amigo.

– Você é melhor homem do que eu.

– Não – disse Sávio. – Apenas diferente. Você constrói nações. Eu construo futuros. É quase a mesma coisa. Mas não exatamente.

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