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O Vício do Controle

Rios de Sangue e Ouro voltou da Leitora Crítica antes do início das férias escolares. Minha primeira leitura do parecer me inquietou. Não havia nada ali que eu pudesse simplesmente cortar sem ferir o sentido da obra; e o corte era, justamente, o que eu buscava.

Viajei, voltei à rotina, deixei o texto repousar. No último fim de semana, enfim, sentei para revisar o livro à luz daquela análise.

A verdade é que Liz foi generosa. Com o livro, mas sobretudo comigo. Porque, nas entrelinhas de seu parecer, não estava um pedido de supressão de cenas ou personagens, e sim a exposição de um vício de escrita que eu já carregava sem nomeá-lo.

Receber crítica dói. Sempre. Dói mesmo quando vem embalada em cuidado. Mas essa dor teve uma virtude rara: mostrou-me, com clareza, onde cortar.

Meu vício é simples de descrever e difícil de abandonar. Crio imagens e metáforas, explico essas imagens e, por fim, faço um juízo moral sobre elas. Não deixo espaço. Não confio. Conduzo o leitor pela mão até a conclusão que eu mesmo escolhi.

Nesse processo, esvazio aquilo que deveria ser mais forte: a imagem.

Talvez isso diga menos sobre literatura e mais sobre mim. Sempre alimentei a ilusão de controle; sobre o texto, sobre o mundo, sobre o resultado. O perfeccionismo costuma ser apenas outro nome para esse engano, e quem me conhece sabe o quanto isso me custa.

Por alguma razão, imaginei que na literatura seria diferente. Que no território que criei, as coisas obedeceriam exatamente à forma como as concebi.

Hoje percebo que escrever assim revela um desejo silencioso: que o leitor veja o que eu vejo, chegue às mesmas conclusões morais, políticas e históricas que alcancei. Não apenas acompanhe a história; concorde com ela.

Talvez esse seja o ponto em que minha personalidade atravessa a escrita.

Se quero escrever algo que permaneça, preciso aprender a parar antes da explicação, antes do juízo, antes da sentença. Preciso aceitar que o leitor enxergará outras coisas, amará e odiará personagens por razões que não controlo e que é justamente aí que a literatura começa.

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