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O Tempo da Decisão

Por muitos anos, antes mesmo de Bal se tornar caçador, um grupo de lobos passou a rondar o acampamento. Onde a tribo ia, eles vinham atrás.

Não se aproximavam do fogo. Não mostravam os dentes. Permaneciam à distância, sentados, deitados, às vezes quase invisíveis entre as sombras. Esperavam apenas o que sobrava das carcaças trazidas pelos caçadores.

Com o tempo, algo começou a mudar. Desde que aquelas feras passaram a dormir ao redor do acampamento, nenhuma outra se aproximava. Nem os grandes felinos, nem os ursos famintos, nem mesmo os bandos rivais que às vezes atravessavam a região durante as migrações.

As noites ficaram mais longas. E, pela primeira vez em muitas luas, as crianças passaram a dormir sem sobressalto. Os homens também.

Ainda havia medo. Sempre havia. Mas já não era o mesmo.

Foi numa caçada que Bal percebeu o que, até então, ninguém havia nomeado.

Bal era um dos melhores caçadores da tribo. Seu filho, Kesh, já o acompanhava havia algumas estações. Saíam cedo, quando o sol ainda não aquecia o chão, levando apenas as lanças, um pouco de gordura endurecida e o silêncio que se aprende com o tempo.

Naquela manhã, viram o caribu no descampado. Um macho forte, atento, parado por um instante antes de seguir para a borda da mata.

Rastejaram. O vento estava favorável. Quando se ergueram para lançar, o animal percebeu o movimento e partiu em disparada.

Bal sentiu o impulso antigo; o de aceitar a fuga como derrota e procurar outro rastro. Mas, antes que pudesse baixar a lança, algo se moveu à frente da presa.

Os lobos saíram da mata. Não vieram correndo. Abriram-se. Fecharam o espaço.

O caribu tentou mudarar de direção. Um lobo avançava o suficiente para impedir a passagem e recuava. Outro surgia adiante. Nenhum atacava. Nenhum se lançava sobre o pescoço. Apenas empurravam o animal, com o corpo e com a presença, para fora da rota de fuga.

Para perto deles.

— Pai… — murmurou Kesh.

Bal seguiu a direção do olhar do filho. Os lobos não olhavam para os homens. Olhavam apenas para a presa. Mas o caribu já não corria para a floresta. Corria para o descampado. Corria para onde eles estavam.

— Eles estão trazendo o bicho… — disse Kesh, quase sem voz.

Bal não pensou. Ergueu a lança. O corpo do animal surgiu entre os arbustos baixos, os flancos abertos, o fôlego curto, os olhos em pânico. A ponta atravessou-lhe o pescoço. O caribu guinchou e tombou de lado, sacudindo as pernas por alguns instantes.

Os lobos pararam. Ficaram imóveis. À distância.

Bal aproximou-se com cautela. Abriu-lhe a jugular. O sangue correu sobre a relva curta.

Nenhuma das feras avançou. Esperaram. Não como quem entende um gesto humano — mas como quem sabe medir o risco. Como quem aprendeu, em silêncio, a distância exata entre o corpo e a morte.

Naquela noite, a tribo comeu melhor do que em muitas luas.

A gordura estalava nas pedras quentes. As crianças sujavam o rosto e as mãos. Os mais velhos mastigavam devagar, como se prolongassem aquele instante.

E os lobos também comeram. Bal caminhou até a borda da luz do fogo e atirou, para além do círculo de gente, um pedaço grosso do pernil do caribu. A carne caiu no chão. As feras se aproximaram. Uma delas apanhou o pedaço e se afastou alguns metros. As outras a seguiram. Ninguém correu. Ninguém gritou.

Naquela noite, o acampamento adormeceu com o estalo da lenha, o ruído baixo das mandíbulas e um silêncio diferente, mais espesso, espalhado entre as tendas e os corpos deitados.

Depois desse dia, Bal e Kesh nunca mais saíram para caçar sozinhos. Não chamavam os lobos. Mas eles vinham.

Mantinham sempre a mesma distância. Surgiam na borda da mata, atrás das pedras, no alto dos barrancos. Às vezes sumiam por horas. Depois reapareciam, como se jamais tivessem ido embora.

A caça tornou-se menos incerta. Não porque os lobos matassem. Mas porque viam antes. Percebiam o que os homens ainda não tinham aprendido a ouvir. Um estalo errado no capim. Um movimento fora do ritmo da paisagem. Um cheiro novo trazido pelo vento.

Bal começou a confiar no corpo das feras antes mesmo de compreender o motivo. Quando um deles se imobilizava de repente, a mão do caçador já se fechava na haste da lança. Quando outro se afastava lentamente da trilha, Bal mudava o rumo sem perguntar por quê. Era como se parte do mundo tivesse passado a ser percebida fora dele.

Nem todos na tribo gostavam daquela proximidade. Keru era um deles.

— Esses animais fazem os homens esquecerem o próprio corpo — dizia. — Esperam que outra coisa perceba o mundo por eles.

Aru, seu filho, escutava. Kesh caçava melhor. Voltava com presas maiores. Aru queria ser visto. Queria escolher. Queria ser escolhido.

Contra a vontade do pai e convencido de que fazia o melhor pela tribo, Aru passou a sair com os caçadores que seguiam os lobos. Com eles, seu corpo parecia responder mais rápido. Chegava antes. Errava menos. Voltava quase sempre com carne.

Keru observava de longe. Já não caçava. Ocupava o lugar dos que aconselham, não dos que decidem. Ainda assim, não conseguia se convencer de que aquilo era apenas progresso.

Os homens passaram a andar atrás das feras. Esperavam seus movimentos. Mudavam o rumo quando elas mudavam. Quando os lobos paravam, eles paravam também. A caça feita só por homens foi ficando rara. Depois, apenas lembrada.

Então veio o inverno. As presas sumiram. Durante semanas, quinze homens vasculharam a terra endurecida sem encontrar nada além de rastros antigos.

Até que, numa ravina funda, viram algo que nenhum deles havia caçado antes. Animais gigantescos. Cobertos de pelo. Lentos. Muitos.

Escolheram o mais jovem. Menor. Menos forte.

Cinco dos mais novos ficaram no alto da ravina. Os outros se espalharam na saída, entre a mata rala e as pedras.

Aru ficou à frente.

Os lobos se moveram primeiro, descendo pela lateral, quase invisíveis.

Quando os gritos ecoaram do alto, a manada se agitou. O chão tremeu. Os animais eram maiores do que Aru lembrava. Mais próximos. Mais rápidos.

Ninguém avançou. Esperavam o sinal. Aru olhou para os lobos. Eles hesitaram.

Cinquenta metros.
Quarenta.

Ainda não.

Trinta.

Os lobos recuaram um passo.

Vinte.

O corpo de Aru endureceu.

Dez.

— Agora!

Foi tarde.

Os lobos avançaram, mas a manada já não tinha espaço para se assustar. O peso venceu o medo. Os animais passaram por cima dos homens como se atravessassem capim alto.

Quatro caçadores não se levantaram.

Os lobos pararam mais adiante, imóveis, olhando para trás. Eles tinham visto o perigo. Só não sabiam quando agir por eles.

No final daquela tarde, os caçadores chegaram ao acampamento trazendo não a carne que sustentava os corpos, mas um peso que ninguém sabia onde colocar.

As esposas choravam. As mais velhas lavavam os corpos e sussurravam seus nomes, como quem os prende à terra por mais um instante.

Aru permaneceu diante da fogueira. O rosto imóvel. A lança apoiada no chão.

Keru o observava. Não havia satisfação em seu olhar. Apenas um cansaço antigo.

Os lobos não foram expulsos. Permaneceram do outro lado do fogo, imóveis, alheios a um sofrimento que não lhes dizia respeito.

Keru se aproximou do filho.

— No fim — disse, baixo —, a decisão ainda é sua.

Aru não respondeu. A fogueira diminuiu. Os lobos se deitaram. E, pela primeira vez, Aru não soube dizer se estava seguro ou apenas atento ao sinal errado.

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