Durante muito tempo, minhas orações foram respondidas apenas pelo silêncio. Não o silêncio de quem ainda não encontrou as palavras, mas o silêncio de quem começa a suspeitar que do outro lado não há ninguém ouvindo. Ou pior: que havia, mas que agora havia partido. Essa é uma das experiências mais desorientadoras que conheço. E é o ponto de onde esta história começa.
Cresci interessado em religião e ciência com a intuição, nunca abandonada, de que as duas não se contradizem. Mas foi na adolescência que minha fé ganhou carne. Nos meios católicos em que vivia, chamávamos de “experiência pessoal com Jesus” o momento em que a relação com o Divino deixava de ser doutrina e se tornava presença. A emoção ditava tudo: rezar, cantar, louvar eram experiências de sensação plena. Era como um casamento em seus primeiros anos; cada gesto carregado, cada silêncio fértil, a presença do outro tão evidente que mal precisava ser nomeada.
Mas tudo começou a mudar porque eu comecei a mudar. Lembro de missas que antes me arrebatavam e que, a certa altura, passaram a me deixar apenas cansado. Lembro de orações longas que terminavam sem que eu sentisse coisa alguma, apenas o eco das minhas próprias palavras. Meu intelecto amadurecia e já não aceitava que a emoção fosse a medida de tudo. Percebi, então, com um misto de assombro e culpa, que Deus havia se calado no meu coração. Como se aquela Voz que eu conhecia tivesse simplesmente deixado de falar.
Busquei na razão o que havia perdido nas sensações. Foram anos tentando compreender com a cabeça o que antes era simplesmente sentido: teologia, filosofia, qualquer coisa que prometesse alguma chave. Havia satisfação intelectual nessa busca, mas não era o que eu procurava. Os livros explicavam Deus; não O faziam presente. E as provações continuavam a chegar, e Ele permanecia calado. Eu as atravessava (havia pessoas que me davam forças), mas Deus, como eu O entendia, parecia distante.
Foi então que uma suspeita começou a surgir, lenta e desconfortável: talvez o problema nunca tivesse sido o silêncio de Deus. Talvez o problema fosse a minha forma de escutar. Eu ainda esperava que Ele falasse como havia falado na adolescência: aos sentidos, às emoções, com uma clareza quase física. Mas e se aquele modo fosse apenas o primeiro idioma, e não o único? E se a maturidade espiritual exigisse aprender uma língua nova; mais austera, mais sutil, menos imediata?
A resposta chegou de onde eu menos esperava. Não em um tratado, nem em um argumento teológico, mas numa noite comum de leitura, diante de um poema de Santa Teresa d’Ávila. E nele, quase de passagem, surgiu a percepção que reorganizou tudo.
Ele não estava calado.
Falava pela boca das pessoas que me sustentavam nas provações. Estava nos livros que eu teimava em estudar. Consolava e guiava sem que eu percebesse; porque eu procurava uma voz que viesse de fora, quando Ele há muito havia escolhido falar por dentro, pelos outros, pelo ordinário. Seu silêncio não era silêncio. Era apenas uma linguagem que eu ainda não havia aprendido a ler.
Essa experiência tem nome na tradição cristã. São João da Cruz chamou de “noite escura da alma” o período em que a consolação desaparece e resta apenas a fé nua: sem sensação, sem confirmação emocional, sem o conforto de sentir que se está certo. Os grandes místicos não tratavam isso como falha espiritual. Tratavam como passagem. A ausência da consolação não é sinal de abandono; é convite à fé adulta. Uma fé que não depende de sentir, mas de escolher. Essa, talvez, seja a forma mais honesta de crer.
Hoje, Ele continua a não falar tão obviamente. As sensações da adolescência não voltaram e já não as espero. O silêncio que antes me desorientava tornou-se familiar. Não ausência, mas companhia.
Aprendi que a presença de Deus raramente chega com estrondo. Ela aparece nas pessoas certas que surgem na hora certa, numa frase lida no momento exato, numa calma que não tem explicação razoável em meio ao caos. É uma presença discreta, quase humilde, que não precisa anunciar-se para existir.
O silêncio não mudou. Mudou apenas o que eu aprendi a ouvir dentro dele.

2 Comentários
Patrícia
Que bonito!
Wallison Moura
Obrigado