Carlinho Fagundes aprendeu a nadar antes de aprender a andar de bicicleta, e aprendeu as duas coisas com o avô.
A casa da família na Rua Eduardo Junqueira tinha o trem na frente e o Rio Paraíba nos fundos. Duas presenças constantes, dois barulhos distintos que Carlinho aprendeu a separar no escuro antes de abrir…
Era domingo na casa de minha mãe. Mesa posta, conversa de família, aquele ritmo lento que as tardes de domingo têm quando não há pressa para ir a lugar nenhum. Minha esposa ao lado. Do outro lado da mesa, um casal de tios. Mais de quarenta anos de casados, filhos criados, netos, a vida onde…
Perdi as contas de quantas vezes parei em Congonhas. Sempre foi assim: ponto de passagem, descanso de estrada, pausa entre o que ficou e o que ainda está por vir. Desta última vez, ia em direção a Diamantina. O carro cheio, o cansaço, e os doze profetas de Aleijadinho no alto do adro (como sempre…
A memória mais antiga que tenho com a religião não é de uma ideia. É de um cheiro. O perfume pesado de velas numa tarde de domingo, e a mão da avó do meu pai segurando a minha com uma firmeza tranquila, como quem não precisa explicar onde está nem para onde vai. Eu devia…
Fui eu que recebi o pólipo em minhas mãos para levá-lo ao laboratório. Era grande demais para ser algo trivial. Senti um calafrio. Não o tipo que a temperatura provoca, mas aquele que surge quando a mente percebe algo antes de conseguir formular o que percebeu.
Os dias seguintes não trouxeram respostas imediatas. Trouxeram silêncio.…
Durante muito tempo, minhas orações foram respondidas apenas pelo silêncio. Não o silêncio de quem ainda não encontrou as palavras, mas o silêncio de quem começa a suspeitar que do outro lado não há ninguém ouvindo. Ou pior: que havia, mas que agora havia partido. Essa é uma das experiências mais desorientadoras que conheço. E…
Escrevi dias atrás sobre o perdão (O Perdão e o Talvez). No texto disse que ele é o ato mais humano que existe porque está intimamente ligado à esperança. Acrescentei algo que pode ter soado estranho: Deus não tem esperança.
Não desenvolvi.
Talvez porque, naquele momento, meu foco fossem as relações humanas. Mas a frase…
