Skip to content Skip to footer

O Padrão Secreto da Minha Escrita

Voltei das férias de janeiro com uma lista. Não o tipo que se escreve e se esquece; o tipo que assombra. Três itens. E cada um deles, à sua maneira, acabou revelando algo que eu não esperava encontrar.

O primeiro item era concluir O Último Trem e enviá-lo às editoras. Concluí em janeiro. Em fevereiro, o manuscrito foi submetido a várias casas ao mesmo tempo, porque é assim que o mercado editorial funciona: todas abrem chamadas na mesma época, e não há elegância possível no timing. Recebi três propostas. Nenhuma ainda me convenceu.

O segundo item era revisar Rios de Sangue e Ouro. Comecei timidamente em fevereiro; e digo “timidamente” porque o romance me intimida. Não é apenas um romance histórico. É um romance de fundação: diz o que penso sobre história, civilização e o preço que seres humanos pagam para construir o que constroem.

Minha Leitora Crítica praticamente está me fazendo reescrevê-lo inteiro. Cada capítulo que ela devolve com anotações é um capítulo que eu achava pronto e que, na verdade, apenas estava terminado. Há uma diferença enorme entre as duas coisas. Penso que está ficando melhor. Muito melhor. Mas não me peça para confirmar isso sem dor.

O terceiro item era reorganizar o blog. Parecia o mais simples dos três. Foi o mais revelador.

Com mais de 150 textos acumulados desde agosto, os assuntos pareciam dispersos: educação, espiritualidade, política, literatura, memória, civilização. Ao organizá-los, porém, algo aconteceu. O que parecia aleatório começou a revelar um fio. Os textos não eram dispersos; eram diferentes aproximações da mesma pergunta que eu vinha fazendo desde o começo. E essa pergunta era a mesma que atravessava os meus romances.

Foi aí que percebi.

Tenho uma inclinação natural à tragédia.

Não no sentido de um temperamento sombrio, mas no sentido literário e estrutural. Um padrão narrativo que percorre tudo o que escrevo, independentemente do gênero ou do tom.

O primeiro padrão é simples: em meus textos, conquistas quase sempre carregam uma sombra. O minerador que chega às minas e descobre que o preço da chegada terá de ser pago com sangue. O líder que constrói algo duradouro e não vive para vê-lo florescer. Para mim, o final simplesmente feliz raramente existe. Há sempre um custo; não como punição, mas como condição de tudo que é real.

O segundo padrão é conexo: o ser humano não governa totalmente o seu destino. Ele age, decide, resiste, mas sempre dentro de forças que o excedem: processos históricos, correntes civilizacionais, o peso acumulado do que veio antes dele. Pode ser maior que suas circunstâncias; mas nunca completamente livre delas. Entre a grandeza e o limite existe a tensão que me interessa narrar.

Mas tragédia não é pessimismo. São coisas distintas.

O pessimismo acredita que o esforço humano é inútil. A tragédia acredita que ele tem um custo e que é exatamente esse custo que lhe dá grandeza. Um herói imortal não precisa de coragem. Um homem que sabe que vai morrer, e age assim mesmo, é outra coisa inteiramente. A finitude não é o inimigo da virtude. É a condição para que ela apareça.

Essa descoberta redefine o blog. Não é um conjunto de textos sobre assuntos variados. É um escritor tentando entender, em diferentes registros, o que significa construir algo humano sabendo que tudo é provisório. O blog e os romances nascem do mesmo eixo.

Então é isso que tenho pela frente: um romance esperando uma proposta à altura, outro sendo reescrito às custas de um amor que dói, e um blog que finalmente sabe o que quer ser.

A lista ainda assombra.

Mas agora entendo melhor por que escrevo o que escrevo; e isso muda tudo. Escrever, como viver, tem um custo. E é exatamente esse custo que faz valer a pena.

Deixe um comentário