Acordo todos os dias com a alma em palavras, buscando traduzir em linhas e parágrafos aquilo que a vida me sussurra. E, por vezes, a vida grita, e a gente precisa de um solo mais vasto para plantar as sementes que brotam. Foi assim que a semente de “Rios de Sangue e Ouro” encontrou seu terreno fértil, não em um campo ensolarado, mas no terreno árido de uma mudança inesperada.
Não era para ser. Aquele posto na direção da escola, onde passei quatro anos por pura e simples vontade, era meu porto seguro. Mas o vento da política, caprichoso como sempre, soprou para outro lado, e me vi de volta à Secretaria Municipal de Educação. Confesso, a princípio, o gosto amargo da não-escolha. Mas a vida, essa velha mestra, tem seus próprios planos, e muitas vezes, o desvio é o caminho.
Naquele novo/velho lugar, longe do burburinho constante da gestão escolar, o tempo se esticou. E com ele, a curiosidade, essa chama que nunca se apaga em mim, reacendeu com uma voracidade quase juvenil. Era como se, por anos, um rio caudaloso tivesse sido represado, e agora, as comportas se abriam. Mergulhei em livros, teses, documentos. A necessidade de ler e entender as coisas, de desvendar os porquês do mundo, tornou-se um bálsamo, um novo ritmo para os dias.
Foi nesse contexto, nesse reencontro com o estudo e a pesquisa, que a semente dourada começou a germinar. Um texto sobre a história da minha própria cidade, um nome – Francisco Gonçalves de Carvalho – e um ano – 1764. A imaginação, essa companheira incansável, começou a tecer. Como seria a concessão de uma sesmaria? Que sentimentos, que impressões teria aquele homem no Rio de Janeiro do século XVIII? As ruas, os cheiros, os barulhos… Tentei sentir o passado na ponta dos dedos, na tinta imaginária de uma carta.
Ah, a carta! A ideia era um conto simples para o Facebook. Francisco escrevendo para a irmã em Vila Rica, contando as boas novas. Mas aí, a primeira pedra no caminho, e a primeira lição: “Não havia correio oficial neste tempo.” A vida real, a história, impondo suas regras à ficção. E a pesquisa, então, se fez não um luxo, mas uma necessidade. Tropeiros, mensageiros anônimos, desbravadores de rotas. O conto, que parecia tão pequeno, começou a ganhar corpo, a exigir mais.
E a esposa, essa leitora atenta e cúmplice, leu. E gostou. E animou. “Escreva mais.” E assim, o conto virou capítulos, e os capítulos, uma jornada. Uma reunião de companheiros improváveis, no melhor estilo de Tolkien, mas com a poeira e o suor do Brasil colonial. E a cada nova pesquisa sobre rotas, perigos, interconexões históricas, a paixão pela história, que sempre me acompanhou, ganhava novas cores, novas profundidades.
Mas o grande divisor de águas, o momento em que a semente dourada se revelou um tesouro, foi a descoberta – ou redescoberta – da Guerra dos Emboabas. Aquela guerra, estudada tão superficialmente na escola, emergiu das teses de doutorado com uma força avassaladora. Meu personagem, como pioneiro, estava lá. No lugar da guerra, no tempo da guerra, e com um lado na guerra. Ele era um reinol. E o resto, como se diz, é história. Mas não apenas a história dos livros, e sim a história que pulsa, que respira, que se faz carne e alma nas páginas de um romance.
Foi assim que a semente dourada, plantada no solo fértil da curiosidade e regada pela paixão pela história, floresceu em “Rios de Sangue e Ouro”. Uma saga que começou tímida, mas que se agigantou, como a própria história do nosso país, em meio a rios de sangue e a promessas de ouro. E eu, o jardineiro dessa história, sigo aqui, com a alma em palavras, pronto para as próximas colheitas.

0 Comentários
Beth
TXT maravilhoso! Como vc escreve bem e a clareza nas entre linhas me encanta. 🫰🏻👏🏻❤️
Wallison Moura
Obrigado, minha amiga!
Daniele Araujo Balbino
Texto que nos enche de esperança e confiança nas mudanças da vida. Ela surpreende!
Luciana
E eu me sinto honrada pela oportunidade de estar entre os primeiros leitores desta saga, que tem feito as horas passarem voando e me deixando aflita para voltar à leitura logo que as atividades diárias dão uma trégua!!!
Wallison Moura
Eu que me sinto honrado em compartilhar com você minhas histórias.