Uma das primeiras decisões que tomei ao escrever Rios de Sangue e Ouro, ainda nas páginas iniciais, quando a saga era apenas um esboço do que se tornaria, foi sobre os diálogos. Não sobre o que os personagens diriam. Sobre como diriam.
A intuição veio de leitor, antes de vir de escritor: diálogos numa ficção…
Já faz mais de quinze anos que o Conselho Nacional de Educação emitiu o parecer desaconselhando a distribuição de Caçadas de Pedrinho nas escolas públicas sem mediação crítica. Lembro-me da polarização que se seguiu. De um lado, intelectuais e ativistas que argumentavam que o Estado não deveria endossar, sem contraponto, textos que desumanizassem a criança…
No meio de uma sessão de revisão que tem consumido muitas horas de minha vida, parei numa cena específica de Rios de Sangue e Ouro: Joaquim sozinho, construindo uma casa que não será habitada por ninguém.
Ali, com o manuscrito aberto na tela, aconteceu algo que só posso nomear com a palavra certa: anagnórise. O…
Registro o processo de criação de Rios de Sangue e Ouro aqui porque a memória falha. Não a memória dos fatos (essa nos arquivos) mas a memória das razões. Por que esta cena existe. Por que este personagem toma esta decisão que parece estranha e só faz sentido quando se conhece a história inteira, inclusive…
Um dos grandes riscos de se escrever ficção histórica reside na tentação de tomar partido, não apenas de um grupo ou personagem, mas de uma interpretação específica da História, quase sempre filtrada por nossas próprias convicções políticas, morais e afetivas. O passado, quando narrado, raramente se apresenta de forma neutra: ele nos provoca, nos desafia…
A exaustiva viagem de volta pela trilha da Mantiqueira, a mesma que os havia levado a Ayuruoca, consumiu Padre Matias em uma mistura de apreensão e alívio. Cada passo do cavalo que carregava o santo oco era um martírio silencioso, e cada sombra que se alongava ao entardecer trazia consigo o temor gélido dos vigilantes…
A noite caíra pesada sobre Ayuruoca, e com ela, o peso da convocação de Joaquim Gonçalves de Toledo sobre a alma de Antônio de Carvalho. Com o coração aos pulos, um misto de medo e uma estranha resignação, Antônio dirigiu-se à casa do superintendente. Cada passo na escuridão parecia ecoar a iminência de um julgamento.…
1. Introdução
A historiografia brasileira, desde o século XX, consolidou-se fortemente sob a influência das abordagens materialistas e estruturais. O predomínio de interpretações econômicas, políticas e sociais na análise dos processos históricos formou um corpo teórico robusto e coerente, mas que, ao mesmo tempo, contribuiu para afastar o olhar histórico da dimensão subjetiva e simbólica…
A alvorada daquele dia fatídico de 22 de dezembro de 1764 despontou com uma crueza quase brutal sobre Vila Rica. Ao invés da suavidade costumeira do amanhecer, o sol surgiu como uma brasa incandescente, lançando raios de luz intensos e implacáveis que dissiparam as sombras da noite sem qualquer cerimônia. As ruas de pedra, ainda…
Outro dia, tive a infeliz ideia de reler alguns textos que escrevi antes dos trinta. Descobri duas coisas: primeiro, que a juventude é mesmo linda. Segundo, que ela é uma desgraça em matéria de inteligência.
É curioso como o tempo é um ladrão que, ao mesmo tempo, devolve o que rouba. Ele leva o frescor…
Há uma etapa na vida de um escritor que ninguém conta. Não é o começo, cheio de entusiasmo, nem o fim, quando o livro ganha forma impressa e o autor posa sorridente ao lado de sua criatura. É o entremeio. O purgatório. O momento em que a história já não lhe pertence inteiramente, mas ainda…
Escrever, para mim, nunca foi um fardo. É quase um gesto natural, como respirar fundo diante de uma lembrança ou deixar escapar um suspiro depois de um sonho. Palavras me servem de espelho e também de remédio: nelas, reconcilio-me com o passado e risco, à mão livre, esboços do futuro. A escrita é o lugar…
