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O Corte na Alma

Há uma etapa na vida de um escritor que ninguém conta. Não é o começo, cheio de entusiasmo, nem o fim, quando o livro ganha forma impressa e o autor posa sorridente ao lado de sua criatura. É o entremeio. O purgatório. O momento em que a história já não lhe pertence inteiramente, mas ainda não pertence ao mundo.

É aí que estou.

Rios de Sangue e Ouro — o livro em que coloquei meses de pesquisa, incontáveis madrugadas e uma porção incalculável da minha alma — está agora nas mãos de um profissional encarregado de cortar, aparar, “enxugar”, como dizem. Pelo menos um terço do texto. Um terço da minha respiração.

Eu sei que é preciso. Sei que o mercado não abraça um calhamaço de setecentas páginas de um autor estreante. Sei que a paciência do leitor mudou, que os olhos deslizam com pressa, que o tempo é curto e os riscos são altos. Mas o saber racional não anestesia o medo visceral de perder o que se é.

Cada página que escrevi foi uma batalha contra o esquecimento — das pessoas, dos lugares, das vozes do passado. Cortar uma delas é como admitir que parte dessa memória vai se dissolver para sempre. E, no entanto, eu mesmo autorizei a cirurgia. Contratei alguém para fazer o que eu não consigo fazer. Agora espero, com uma mistura de culpa e esperança, pelo diagnóstico final.

Há noites em que acordo pensando em frases que talvez não sobrevivam. Releio mentalmente parágrafos como quem acende velas por almas prestes a partir. Outras vezes, tento convencer-me de que a poda é um ato de amor: o texto precisa respirar sem o sufoco do excesso, o leitor merece o que há de mais essencial.

Mas o essencial é sempre o que mais dói de identificar.

Nos bastidores deste romance há muito mais do que o drama de um corte editorial: há um aprendizado lento sobre o que significa deixar ir. O livro está sendo reduzido, e, com ele, talvez eu também esteja sendo reescrito — mais contido, mais maduro, mais consciente das forças que se enfrentam quando arte e realidade colidem.

Enquanto espero, descubro que a ansiedade também faz parte da obra. Ela me lembra que ainda amo o que criei, que ainda acredito na palavra, e que, de algum modo, Rios de Sangue e Ouro continuará correndo — mesmo que em leito mais estreito, mesmo que com menos páginas —, levando consigo o que de mais verdadeiro consegui escrever: o próprio sangue.

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