No terceiro capítulo da nova série Dona Beja, da HBO, senti que havia perdido o fio. Não o da história; o da credibilidade. O que estava diante de mim não era dramaturgia. Era uma agenda vestida com roupagem de época.
Decidi assistir à série por razões vagas. Era muito criança quando a TV Manchete fez sua versão nos anos 1980. Guardo a memória de fotos de Maitê Proença em revistas de consultório médico, vestidos de época, e das polêmicas que os adultos comentavam em voz baixa. Isso ficou. Décadas depois, resolvi assistir. Sabia que encontraria material difícil: a história de Ana Jacinta de São José não admite suavizações. O que não esperava era anacronismo.
Homossexualidade, transexualidade, prostituição, estupro, aborto, assassinato. Tudo isso existia no Brasil do século XIX. Nenhum desses temas é invenção dos roteiristas. O problema não estava no que a série mostrava, mas no modo como mostrava.
A cena que condensou tudo foi o discurso de Ana Jacinta durante seu julgamento. Um discurso de tom abertamente contemporâneo, em que ela justifica seu crime invocando uma consciência que não existia naquele vocabulário, naquele tempo, naquele mundo. A cena era eficiente como manifesto. Era falsa como dramaturgia histórica.
O problema não era o que a série dizia. Era o que queria que eu concluísse, e a pressa com que me conduzia até lá.
Isso me obrigou a olhar para o meu próprio trabalho.
Sei, com a clareza de quem já escreveu o suficiente para se conhecer um pouco, que meus valores não ficam contidos dentro de mim. Eles vazam. Estão na escolha de quem sobrevive e de quem morre, nos silêncios entre os diálogos, na dignidade que concedo a certos personagens e nego a outros. Não escrevo um romance e depois guardo meus valores. Eles já estavam lá antes da primeira linha.
A questão não é se aparecem. Aparecem sempre. A questão é como.
Há uma diferença entre uma obra que carrega valores e uma obra que os exibe. Na primeira, o leitor chega a um pensamento depois. Na segunda, é conduzido até ele. A primeira confia. A segunda subestima.
Quando a ficção vira instrução, algo se rompe.
Na ficção histórica, esse risco tem nome: anacronismo.
Não o erro visível de um detalhe fora de época, mas algo mais sutil: emprestar a personagens de outros séculos uma consciência que só se tornou possível depois deles. Fazer com que uma mulher do Brasil oitocentista pense como se tivesse lido autoras que nasceriam um século mais tarde. A cena pode ser emocionante. Pode até parecer justa. Mas é falsa.
Escrevo sobre o Brasil colonial, sobre a Guerra dos Emboabas, sobre a construção da CSN no Estado Novo. Carrego comigo uma visão de mundo formada por fé, leituras e escolhas. Isso entra na obra. Inevitavelmente. O que me cabe vigiar é o momento em que deixa de ser estrutura e se torna argumento.
Dona Beja me deu, no final, menos um entretenimento do que um espelho. Vi com nitidez o que acontece quando a história passa a existir para confirmar o que já se acredita. A obra fecha. Fica rígida. Começa a falar apenas para quem já concorda.
Os meus valores estão na obra. Sei disso.
O que não sei (e preciso continuar não sabendo) é se estão a serviço da história ou se a história está a serviço deles.
