A Gramática do Corpo

O assunto dentro do carro era imposto de renda. Nada provoca mais indignação em minha esposa do que o Leão e, se me permitem o trocadilho, ela vira uma leoa. Conheço a história de cor: começa com uma frase sobre a alíquota, segue por caminhos que envolvem o Estado, a corrupção, a injustiça, e termina num calor que, se não tratado a tempo, sobe literalmente para a pressão arterial.

Minha reação automática, quando percebo o quadro se alterando, é dizer: “por favor, acalme-se”. Sei que deveria ficar calado. A irritação não é comigo. Mas eu me preocupo e a preocupação fala antes do juízo. O resultado é previsível: a indignação com o Leão se transfere, por um instante, para o marido que “não está deixando” ela se indignar. Não com um rompante. Com uma irritação sutil, silenciosa, cirúrgica.

Quando guardamos o carro no estacionamento, percebi imediatamente, pela forma com que ela pegou em minha mão, que algo ainda estava aceso. Não precisei perguntar o que era. Fiquei quieto. A irritação passou. Seguimos com a vida.

Há algo nessa cena prosaica que merece atenção. Não o imposto, evidentemente. Não a irritação passageira. O que merece atenção é o fato de que ela me comunicou tudo isso sem dizer uma palavra. Pela mão. Pelo aperto. Pela tensão de um gesto que deveria ser simples e não era.

O corpo fala antes que a boca forme a frase. E, em alguns casos, fala o que a boca nunca diria.

Escrevi na semana passada sobre a voz sussurrada ao ouvido de minha esposa. Aquela que lhe desperta o arrepio. Mas não disse o que a reação dela causa em mim. Porque quando o corpo dela responde, o meu também responde, como se estivesse esperando aquele sinal antes de se mover. Há uma reciprocidade que dispensa explicação e resiste à descrição. Quem viveu tempo suficiente com alguém que ama sabe do que falo.

Essa linguagem não existe nos primeiros meses de uma relação. Ela se forma lentamente, como sedimento. É feita de brigas que terminaram sem vencedor, de silêncios que foram suportados, de noites em que o cansaço falou mais alto que o desejo, de manhãs em que o café bastou. É uma linguagem que só os íntimos dominam e que nenhum estrangeiro consegue falsificar por completo.

Mas há que se dizer a verdade inteira: se o corpo responde ao amor, ele resiste quando o amor está em crise.

Quer saber qual o estado real de um casal? Não pergunte. Olhe. Olhe a foto mais recente dos dois numa rede social. Não a posada, a espontânea. Há como se encenar muitas coisas. Mas a linguagem do corpo, quando fotografada sem aviso, é impossível de controlar por completo. Há algo de errado na imagem quando a química está em choque. Os corpos estão ali, mas o toque é evitado, o olhar não se encontra, a distância entre os dois é milimétrica e infinita ao mesmo tempo. Você consegue rastrear, quase como um arqueólogo, até quando estavam bem.

Quem nunca tocou a esposa na cama e ela simplesmente se virou para o lado? Homens impacientes perguntam o que acontece. Homens sábios ficam quietos. A verdade é que ela nem sempre saberá responder, porque o corpo reage antes da consciência formular o diagnóstico. O distanciamento físico é, muitas vezes, o primeiro sintoma de uma crise que o casal ainda não nomeou.

Vivemos num tempo que supervalorizou a palavra. Terapia, comunicação não violenta, conversas difíceis, tudo isso tem seu lugar, e eu não deprecio nenhum desses instrumentos. Mas há um equívoco de fundo na crença de que tudo pode ser resolvido se falarmos o suficiente. Algumas coisas não passam pela linguagem verbal. Algumas coisas precisam ser vividas, tocadas, esperadas em silêncio.

A mão que aperta com tensão no estacionamento é informação. O ombro que relaxa quando você coloca a mão nele é informação. O beijo dado de passagem, que deveria ser automático e não é, é informação. O corpo não mente com a mesma facilidade que a boca. Não porque seja mais honesto por natureza, mas porque a consciência ainda não chegou lá para supervisionar.

No fim, o que me fascina naquela cena do estacionamento não é a irritação com o imposto, nem a minha interferência desnecessária, nem mesmo a reconciliação silenciosa que se seguiu. O que me fascina é a precisão com que dois seres humanos, depois de anos de convivência, aprenderam a se ler sem palavras.

Esse aprendizado não foi ensinado. Não está em nenhum manual de relacionamento. Veio do tempo, que é o único professor que cobra caro demais para ser ignorado. E veio do amor, que é a única língua que, quanto mais antiga, mais rica se torna.

O amor maduro não precisa de muitas palavras. Aprendeu a falar pelo corpo.
E às vezes basta a forma como uma mão segura a outra, no silêncio de um estacionamento, para dizer exatamente onde estamos.

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