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O Personagem que Eu Não Reconheço Mais

Continuo em minha saga de revisar Rios de Sangue e Ouro e há algo ali que não consigo mais segurar: Joaquim não me obedece. Não da maneira que ele obedecia. Quando o forço a agir como antes, ele resiste com uma passividade que é, em si mesma, uma forma de protesto.

Comecei a escrever na sétima série, em redações sobre liberdade para a aula de Moral e Cívica. Havia uma seriedade naquelas páginas que, hoje, reconheço como o primeiro sinal de que escrever, para mim, nunca seria passatempo. Depois vieram anos de palavra falada. A catequese, a voz como veículo. E depois o silêncio funcional dos relatórios e e-mails: palavras que servem e não pensam. As histórias ficaram quietas. Esperando.

Voltei a escrever porque fui separado de uma realidade que observava de dentro. Uma escola. O drama humano em sua textura mais áspera: idades, histórias, fracassos cotidianos sem redenção fácil. Quando perdi esse contato, a escrita explodiu. Como se a distância fosse a condição necessária para ver, com clareza, o que precisava ser dito.

A ficção não é uma fuga da autobiografia. É uma autobiografia que finalmente tem coragem de ser honesta. Os mundos que crio são um registro de valores. O que um personagem escolhe revela quem eu sou. O que ele recusa, também.

É por isso que Joaquim me perturba. Ele foi construído por um homem que eu reconheço como eu mesmo, mas cujos compromissos internos eu já não habito da mesma forma. Não por abandono. Por crescimento. E crescimento, na escrita como em tudo, tem um custo.

Trair o personagem antigo ou trair a si mesmo atual: esse é o dilema que o manual de artesanato não resolve.

Um romance tem uma lógica interna própria, e nem sempre o crescimento do autor beneficia a obra. Às vezes, aquele personagem imperfeito, moldado por uma compreensão ainda em formação, carrega uma autenticidade que a versão revisada jamais alcança. Porque foi escrito de dentro. Com as mãos sujas do homem que o criou.

Mas escrever um personagem que já não reconheço como verdadeiro é uma mentira diferente da mentira fértil da ficção que inventa para revelar. É a mentira inerte de quem repete o que disse sem mais acreditar no que diz. Essa distinção me importa.

Não sei onde este novo Joaquim vai me levar. Sei que ele existe. Que se move de outra maneira dentro de mim. E que a pergunta que ele me faz (quem você é agora?) é mais difícil de responder do que qualquer escolha que eu possa fazer por ele.

O personagem que não nos surpreende mais não é um personagem. É um espelho que já não temos coragem de encarar.

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