Numa manhã de final de turno, recebi dois avós na secretaria. Vieram reclamar do peso da mochila da neta. A professora, segundo eles, exigia materiais em quantidade incompatível com a idade e o tamanho da menina. Exigiam (e uso o verbo com precisão) que a professora reorganizasse seu planejamento para preservar a saúde ortopédica da criança.
Pedi licença para abrir a mochila. Dentro, além dos livros, havia um estojo com dois jogos completos de lápis de cor, canetinhas, réguas e outros itens que nenhum professor pedira. Mostrei-lhes. Agradeci a visita. Saíram insatisfeitos. O que é diferente de saírem errados.
Fiquei sozinho com a mesa e com o que aquela cena continha de maior.
A reclamação era justa na aparência. O peso das mochilas escolares é um problema real, já enfrentado por legislações que existem no papel e morrem na prática. Minha própria mãe fez queixa semelhante décadas atrás, quando eu era o que sentava na carteira.
A diferença é que minha mãe não exigiu que a professora alterasse o planejamento. Ela arrumou a mochila.
O que aqueles avós não perceberam é que não estavam reclamando do peso. Estavam exercendo um direito de consumidor.
E é aqui que a questão deixa de ser sobre mochilas.
Quem trabalha no serviço público conhece a frase que vem depois do silêncio: “é o dinheiro do meu imposto que paga o seu salário.” Ela parece inofensiva, mas reorganiza toda a relação. Se pago, exijo. Se exijo, defino. Se defino, a escola serve a mim.
Ao longo dos anos, ouvi essa lógica em muitas formas: pais que queriam decidir o currículo, responsáveis que contestavam notas como se fossem preços mal cobrados, famílias que tratavam a reunião pedagógica como atendimento ao cliente. E, pouco a pouco, a escola foi cedendo. Não apenas por fraqueza, mas porque perdeu a convicção de que tinha algo a dizer que não podia ser recusado.
Durante séculos, a escola operou a partir de um princípio simples: representava o mundo adulto diante da criança. Não o mundo como ele é, mas como deveria ser: exigente, ordenado, formador. Sua autoridade vinha dessa assimetria legítima: o professor sabia o que o aluno ainda não sabia, e era nessa distância que a educação acontecia.
Esse eixo se inverteu. O aluno virou cliente. A família, consumidora. A escola, prestadora de serviço.
Quando isso acontece, a pergunta central muda. Antes era: o que o aluno precisa aprender? Agora é: o que o cliente espera receber?
As duas perguntas não convivem sem custo.
A primeira admite que há algo necessário, independente do desejo de quem aprende. A segunda transforma o desejo em critério. O resultado é um aluno que raramente é confrontado e, por isso, raramente se transforma.
O problema não é apenas pedagógico. É cultural.
A escola não criou essa lógica; foi capturada por ela. Vivemos num tempo em que o desconforto se tornou suspeito, a autoridade precisa ser autorizada por quem a recebe e a frustração é tratada como falha do sistema. A escola deveria ser o lugar onde isso é tensionado. Tornou-se o lugar onde isso é confirmado.
As consequências aparecem sem esforço: professores que evitam corrigir para não entrar em conflito, currículos que se esvaziam para não frustrar, avaliações que medem tolerância mais do que aprendizado. O denuncismo que ocupa ouvidorias e redes não é desvio. É coerência.
Há uma promessa sedutora na lógica do serviço: mais acolhimento, mais acesso, mais satisfação. É uma promessa sincera. O que ela não entrega é formação.
Tratar o aluno como cliente é, no fundo, não acreditar nele. É supor que não suporta o desconforto de aprender, que precisa ser mantido em experiências agradáveis. É abandoná-lo (com cuidado, com linguagem adequada, com toda a estética do acolhimento) exatamente onde ele já está.
Aqueles avós saíram convencidos de que tinham razão. Talvez tenham. A neta voltou no dia seguinte com a mochila. E a professora, que ninguém consultou, continuou tentando ensinar.
A escola que serve ao desejo não forma ninguém. Apenas confirma o que o aluno já era e chama isso de educação.
