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O Último Corredor

Otávio ficou parado no vão da porta por um tempo que não soube medir. A secretaria estava vazia. Não apenas desocupada. Vazia de um modo mais fundo, como se o silêncio tivesse substância, como se pudesse ser tocado. As cadeiras no lugar. As prateleiras ainda com as pastas, finas demais para o que já foram. O computador ligado, a tela exibindo o brasão da prefeitura sobre fundo azul.

Ele não entrou.

A reunião com a Secretária havia sido três dias antes. Ela havia começado pela janela. Olhava para o pátio lá embaixo antes de falar.

— Otávio… quase não há mais crianças — Ela olhou fixamente para ele. — Eu segurei o quanto deu — Parou por um instante como se pudesse congelar o tempo. — Agora não depende mais de nós.

Ele havia assentido. Ela havia assentido. Não havia nada a acrescentar.

Era verdade. O bairro havia envelhecido como envelhecem os lugares que os jovens abandonam: depressa demais e sem avisar. Levaram os filhos, e a promessa de filhos, e tudo que gira em torno de uma vida que ainda está por começar. O que ficou foi o que fica sempre.

A outra metade do problema, a que não tinha nome demográfico, ele carregava há anos sem encontrar o lugar exato onde depositá-la.

Dez anos antes, aquele corredor tinha cheiro de gente. Cheiro de lanche, de tênis barato no piso encerado, de tinta guache que as crianças esfregavam na parede sem querer. O barulho era tal que Otávio precisava levantar a voz para ser ouvido a três metros, e mesmo assim havia uma música no caos. O tipo de desordem que só existe quando algo está vivo.

Quando foi eleito diretor, ainda dava aula de história para o sexto e o sétimo anos. O mandato era de dois anos. Não almejava mais um. Ficou por cinco.

Toda vez que o mandato chegava ao fim, havia o conselho, os professores, os pais, os alunos mais velhos (aqueles que já entendiam o que estava em jogo) com aquele jeito de falar que não era pedido, era confiança depositada. E Otávio nunca soube devolver confianças.

Ficava. E voltava a trabalhar como se fosse o último mandato.

Porque sempre foi o último mandato.

Percorreu o corredor devagar. Algumas salas tinham os vidros cobertos por cartazes de trabalhos antigos, meio amarelados. Uma delas ainda tinha colado na porta o alfabeto ilustrado que a professora Cláudia mandara plastificar no início do ano passado. A letra A sobre um abacaxi desenhado com aquela imprecisão honesta dos seis anos.

Parou diante de uma das salas do fundo. A maçaneta estava fria.

Ficou assim por um momento. A mão na maçaneta, sem girar.

Depois continuou.

Entrou na sala que havia sido sua antes da direção. Totalmente reformada. Piso, pintura, iluminação nova. Isso havia custado uma batalha. Não a reforma, que a prefeitura eventualmente financiou, mas a ordem das prioridades. Otávio havia convencido o conselho de que era mais importante trocar a iluminação das salas do que pintar a fachada. “A fachada é o rosto da escola”, o vice-presidente do conselho havia dito. “O rosto da escola são os alunos”, Otávio havia respondido. “E eles ficam aqui dentro.”

Naquela época ainda havia algo a defender. A sala respondia.

A professora que dava aula ali tinha menos de dez alunos. Otávio parou diante do mural que ela havia montado na parede do fundo: desenhos, pequenos textos, fotografias de uma visita ao parque do bairro. Cada trabalho com nome, data, uma estrela adesiva colada no canto. Havia cuidado ali. O tipo que não se exige em contrato e que existe ou não existe.

Ficou olhando por um tempo. Depois saiu sem tocar em nada.

O pacto havia sido feito logo nos primeiros meses: prioridade máxima no aprendizado. A escola se concentraria naquilo que era sua missão. Ele lutaria pelos professores e pelos alunos. Todos concordaram. Não havia como não concordar. Era o tipo de discurso que só um cínico declarado consegue refutar em público.

A concordância acabava na primeira inspeção dos planos de aula. Acabava quando ele chamava uma família para cobrar o acompanhamento ao filho. Acabava quando barrava uma festa planejada para a semana de provas, ou quando recusava assinar uma ata que não refletia o que havia sido dito.

Os que não se adaptavam iam embora silenciosamente. Os que ficavam entendiam que a exigência era alta porque as condições permitiam que fosse alta.

Foram seis sindicâncias ao longo dos dez anos. Todas arquivadas, menos uma. Uma repreensão por escrito: falta de urbanidade. Havia se excedido com uma mãe. Soubera no momento exato em que completou a frase. Assinou a repreensão sem pedir reconsideração. Guardava o documento na gaveta. Não com orgulho, não com vergonha, mas com a honestidade de reconhecer que havia passado por ali.

Dez anos antes, quando saía da escola no fim do dia, as ruas adjacentes ainda tinham crianças. Grupos que voltavam para casa em bandos, brigando pelo caminho sobre coisas que importavam muito e seriam esquecidas antes do jantar.

Agora as ruas estavam silenciosas naquele horário. A ausência de crianças numa rua à tarde tem uma textura específica. Um silêncio que não é paz, mas falta.

A escola havia murchado junto. Uma turma a menos. Um professor remanejado. Uma sala fechada. O pátio que encolhia na percepção porque havia menos gente para preenchê-lo. A secretaria com uma funcionária onde havia três.

Os alunos remanescentes seriam realocados para as escolas no entorno. Otávio não tinha argumentos contra a decisão. Tê-los implicaria defender algo que havia perdido sua razão.

A razão de uma escola são as crianças.

Saiu pela portaria com a pasta embaixo do braço. Dez anos de direção e cabia tudo numa pasta: uma foto de formatura, o texto de um discurso que nunca havia lido porque o evento foi cancelado por chuva, um bilhete que uma aluna havia deixado na mesa num dia que ela considerou importante.

Parou na calçada e olhou para a fachada. A pintura descascava no canto esquerdo, perto da calha. Havia anotado no relatório de manutenção.

— É uma pena, diretor.

O disciplinário estava de pé diante do portão, braços cruzados. Vinte e dois anos na escola. Conhecia cada centímetro do pátio, cada árvore, cada aluno que havia passado por ali com intenção boa ou ruim.

— É verdade — disse Otávio.

O outro descruzou os braços.

— Só tenho que agradecer ao senhor.

— Eu que agradeço. Sua parceria foi muito importante para a escola.

O outro assentiu devagar, com a seriedade de quem recebe uma coisa que é verdade.

— E hoje, diretor? Como vai ser?

— Eu vou.

Uma pausa. Depois, o disciplinário:

— Isso aí. — Hesitou um segundo. — Não é todo ano que o governo do estado te reconhece como Diretor do Ano.

Otávio olhou para ele.

— É verdade — disse. — Mas também é irônico.

O disciplinário não perguntou. Fez um gesto com a cabeça (pequeno, quase imperceptível, do tipo que substitui tudo que não precisa ser dito) e voltou para dentro.

Otávio ficou mais um momento na calçada.

A pasta embaixo do braço. A tinta descascando no canto. O portão fechado.

Depois atravessou a rua.

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