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O Homem que Eu Criei e Precisei Destruir

Eu escrevi Manuel Nunes Viana como ele gostaria de ser lembrado.

Não foi intenção. Foi pior: foi desleixo intelectual disfarçado de pesquisa. Mergulhei nas fontes, encontrei as narrativas que me seduziram. O primeiro governador escolhido pelos mineradores, o defensor dos forasteiros, o líder que emergiu da vontade do povo, e escrevi o personagem que essas narrativas construíram. Cometi o que só fui capaz de nomear depois: um erro de caráter.

Não um erro de enredo. Não uma falha de cronologia. Um erro de caráter. Escrevi um homem mais nobre do que era, e isso corrompeu a verdade que o romance deveria sustentar.

O sinal veio de uma leitora beta. Depois de ler o manuscrito, ela disse que entre Joaquim e Borba Gato, preferia Nunes Viana.

Deveria ter sido um elogio. Soou como um diagnóstico.

Os cinco personagens centrais da guerra (Joaquim, o único fictício, Bento do Amaral, Borba Gato, Jerônimo Pedroso e Nunes Viana) não foram escritos para serem preferidos. Existem como forças históricas com rosto, não como figuras com quem o leitor deva se identificar. Joaquim é o personagem trágico até os ossos. Escrevi-o para ser suportado, não amado. Quando Nunes Viana começou a parecer o mais palatável entre todos, ficou claro que eu havia feito algo errado. Havia suavizado onde deveria ter cortado.

A revisão me obrigou a olhar Nunes Viana com outros olhos. E o que vi não foi bonito.

Nunes Viana era um miliciano, contrabandista, manipulador e violento. Era o principal beneficiário dos estancos de carne que transformaram as Minas numa câmara de combustão na primeira década do século XVIII. O grupo que controlava o abastecimento cobrava preços extorsivos que faziam o ouro escorrer das bateias dos garimpeiros direto para os bolsos de quem os abastecia. Ele estava no centro desse esquema.

Quando “ajudava” os emboabas, havia sangrado esses mesmos homens primeiro. Usava o que espoliou deles para comprar lealdade. O populismo mais antigo do mundo: tirar de alguém, devolver uma fração, e sair como benfeitor.

Ele ajudava depois de sangrar. Não para aplacar a consciência, mas para acumular poder.

A Guerra dos Emboabas não era pelo ouro. Era pela influência política. Porque quem já detinha o capital também queria o poder formal. O ouro era o pretexto. Como sempre.

O que me inquieta não é ter errado. É entender por que errei.

Fui engolido pelas fontes laudatórias não por ingenuidade. Fui engolido porque a imagem do líder escolhido pelos de baixo era conveniente para a narrativa que eu queria construir. Projetei em Nunes Viana uma legitimidade que servia ao meu romance, não à história. E ao fazer isso, reproduzi exatamente o que ele buscava em vida: sair como herói.

Isso é mais do que um erro narrativo. É o momento em que o romancista, sem perceber, escreve propaganda. A ficção não apenas distorceu o personagem; legitimou-o. Dei-lhe, na literatura, a dignidade que ele negou aos outros na história. E se a leitora beta o preferia, é porque eu havia conseguido o que ele nunca conseguiu completamente em vida: torná-lo simpático.

Corrigi Nunes Viana. Tirei-lhe o verniz. Deixei-o mais próximo do homem que foi: um operador de poder que soube usar a miséria alheia como trampolim e ainda convencer alguns de que estava fazendo um favor.

Mas a correção não me absolve completamente. Ela me lembra que o erro foi meu;  não das fontes, não da sedução da ideia, não da pesquisa insuficiente. O problema estava no que eu queria que ele fosse. E essa é a parte que um escritor precisa vigiar sempre: o momento em que o desejo de uma boa narrativa começa a dobrar a verdade dos personagens.

Corrigi o personagem. Mas o impulso que o criou ainda está aqui.

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