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Capítulo 19 – O Último Trem

Volta Redonda, alojamento dos engenheiros, 5 de maio de 1941 – 06h00

Henrique Weissmann acordou com apito de fábrica. Seis horas. Hora de começar. Como sempre. Como sempre seria.

O alojamento dos engenheiros era edifício térreo, quartos coletivos simples, mas adequados. Cama, mesa, armário. Banheiro compartilhado no final do corredor. Nada luxuoso. Mas melhor que pensão em Santos. Melhor que quarto em Florianópolis. Melhor que vida de fantasma.

Hans vestiu-se: calça de brim, camisa branca, botas de trabalho. Pegou capacete amarelo obrigatório. Foi para o refeitório coletivo. Café preto, pão com manteiga, ovos mexidos. Comida simples. Operários e engenheiros comiam juntos. Democracia da construção.

Sentou-se em mesa longa, entre brasileiros que falavam alto, riam, contavam piadas que Hans fingia entender. Ao lado, americanos – técnicos enviados pelo acordo com Export-Import Bank – comiam em silêncio, lendo jornais de Nova York com semanas de atraso.

Em 1941, eram 762 trabalhadores na construção da usina. Hans era um deles. Anônimo. Invisível. Perfeito.

Após café, caminhão Ford levou engenheiros até o canteiro de obras. Em 1941 a construção da CSN estava apenas começando. Terraplanagem. Fundações. Estruturas metálicas chegando de navio, descarregadas no porto de Angra dos Reis, transportadas por ferrovia até Volta Redonda.

Hans trabalhava sob comando de Heitor Carneiro da Silva e Silva, gerente de Engenharia. Homem de cinquenta anos, carioca, experiente, exigente, mas justo. Respeitado por todos. Hans ganhara sua confiança rapidamente. Era competente. Pontual. Calado. Perfeito subordinado.

– Weissmann! – chamou Heitor, acenando planta sobre mesa improvisada. – Vem ver isto. Fundação do alto-forno número 1. Os americanos querem mudar especificações. Preciso de segunda opinião.

Hans aproximou-se, estudou desenhos técnicos. Estrutura complexa. Concreto armado. Aço importado. Precisão alemã exigida em projeto americano executado por brasileiros.

– A mudança faz sentido – disse Hans, apontando. – A carga será maior que estimativa inicial. O reforço estrutural é necessário. Mas aumenta o custo.

– Sempre aumenta o custo – resmungou Heitor. – Mas é melhor gastar agora que ter colapso depois. Aprova?

Hans assentiu. Heitor confiava nele. Todos confiavam. Henrique Weissmann era engenheiro sólido, técnico competente, colega silencioso, mas confiável. Ninguém suspeitava. Ninguém sabia. Ninguém jamais saberia.

Exceto que Hans, enquanto estudava plantas, memorizava. Especificações. Dimensões. Materiais. Fornecedores. Tudo gravado na mente treinada pela Abwehr. Depois, à noite, no alojamento, transcrevia para um caderno cifrado escondido no fundo falso de um livro de engenharia alemã – Handbuch der Eisenhüttenkunde (Manual de Siderurgia), edição 1936.

Informação era poder. E Hans coletava poder, linha por linha, planta por planta.

Volta Redonda, canteiro de obras, 15 de junho de 1941 – 14h00

Havia um alojamento separado para os engenheiros americanos que vieram trabalhar na CSN e ficariam por longo tempo em Volta Redonda. Mas durante o dia, trabalhavam lado a lado com brasileiros.

Hans observava-os com interesse profissional e ideológico. Representavam inimigo futuro. Porque a guerra entre Alemanha e Estados Unidos era inevitável. Era apenas questão de tempo.

John Patterson, engenheiro metalúrgico de Pittsburgh, quarenta anos, supervisor americano, falava português com sotaque terrível, mas se esforçava. Hans aproximou-se durante pausa para água.

– Senhor Patterson – disse Hans, em português. – Dúvida sobre a especificação do forno número 2.

Patterson estudou planta que Hans mostrava.

– Aço para estrutura – disse ele, misturando inglês e português. – Importado. Estados Unidos. Bethlehem Steel. Melhor qualidade.

– Por que não brasileiro?

Patterson riu.

– Brasil não produz ainda. Por isso estamos construindo esta usina. Mas leva anos. Então importamos. Americano, inglês, às vezes alemão se conseguir passar por bloqueio naval.

Hans anotou mentalmente: Importação aço estrutural. Bethlehem Steel. Vulnerabilidade logística caso guerra interrompa fornecimento.

– Quando usina operar – continuou Patterson –, Brasil produzirá próprio aço. Independência. Bom para vocês. Bom para nós também. Mercado cresce.

Hans assentiu, mas pensou: Vocês querem mercado. Alemanha queria aliado. Perdemos. Mas ainda posso sabotar. Quando a hora chegar.

Barra Mansa, estação ferroviária, 5 de agosto de 1941 – 23h45

Hans esperava na plataforma, mala pequena ao lado. Ao redor, operários cariocas que passariam o fim de semana com família. Conversavam alto, fumavam, riam. Hans permanecia quieto. Sempre quieto.

Às 00h00, apito. O trem chegou. Locomotiva a vapor, vagões de terceira classe, bancos de madeira. Hans embarcou, sentou-se perto da janela. A viagem duraria quase seis horas. Chegaria na Central do Brasil ao amanhecer de sábado.

O trem partiu. Hans olhou pela janela. Noite escura. Apenas silhuetas de montanhas.

Hans dormiu pouco. Sua mente processava informações coletadas durante a semana. Às 05h45 o trem parou na Central do Brasil. Hans desceu, misturou-se entre trabalhadores, tomou o bonde até o Jardim Botânico.

O dead drop ficava no Jardim Botânico, atrás da estátua de D. Pedro II. Cavidade em árvore centenária. Instrução de Adler: entregar as informações no primeiro sábado de cada mês. Receber as ordens também.

Hans chegou às 08h00. Jardim quase vazio. Apenas jardineiros e alguns turistas. Caminhou discretamente até a árvore. Enfiou a mão na cavidade. Deixou envelope impermeável com anotações cifradas. Pegou outro envelope. Guardou no bolso interno.

Saiu calmamente. Tomou café em padaria próxima. Leu jornal. Vida normal. Cidadão normal. Nada suspeito.

Depois, caminhou até uma pensão barata em Botafogo, alugada sob nome falso. Quarto pequeno. Trancou a porta. Abriu o envelope.

Mensagem cifrada. Decifrou:

PRIORIDADE: CRONOGRAMA PRODUÇÃO FINAL + CAPACIDADE PRODUTIVA ESPERADA + VULNERABILIDADES ESTRUTURAIS. PRÓXIMO CONTATO: 1º SÁBADO SETEMBRO. MANTER DISCRIÇÃO ABSOLUTA. ADLER.

Hans queimou a mensagem. Jogou as cinzas no vaso sanitário. Puxou a descarga.

Passou resto do sábado e domingo na pensão. Lendo jornais. Dormindo. Esperando.

Domingo, 17h00. Voltou à estação. Trem de retorno para Volta Redonda. Chegaria 00h15.

Rotina estabelecida. Uma vez por mês. Todo primeiro fim de semana. Último trem de sexta. Dead drop no sábado. Trem de volta no domingo.

Ninguém suspeitava. Operários cariocas achavam que Henrique visitava namorada no Rio. Mentira útil. Henrique se mantinha sozinho. E Hans coletava segredos. Mês após mês. Pacientemente.

Volta Redonda, 20 de outubro de 1941 – 20h00

Heitor Carneiro convidou Hans para jantar na casa que ganhara da Companhia. Privilégio. Sinal de confiança.

A casa era modesta, mas maior que os quartos do alojamento. Dois quartos. Sala. Cozinha própria. Vantagens de ser gerente. Na parede, fotografias: família no Rio, formatura de engenharia, construções anteriores.

Heitor serviu cachaça artesanal.

– Weissmann, você é bom engenheiro. Melhor que muitos brasileiros que trabalham aqui. Por que nunca tentou cargo maior?

Hans bebeu a cachaça. Desceu incrivelmente macia.

– Prefiro trabalho técnico. Não político.

Heitor riu.

– Inteligente. Política aqui é complicada. Macedo Soares quer controle total. Guilherme Guinle está sempre em conflito com ele. Americanos querem supervisão constante. E Vargas observa tudo. Melhor ficar invisível.

– Exatamente – disse Hans.

Heitor estudou Hans com olhos experientes.

– Você é catarinense. Descendente de alemães. Blumenau?

– Florianópolis – mentiu Hans, mantendo história ensaiada. – Minha família chegou em 1890. Meu bisavô trabalhou como carpinteiro.

– E a família agora?

– Mortos – disse Hans, verdade misturada com mentira. – Meus pais em acidente. Sem irmãos. Sozinho.

Heitor acenou com simpatia.

– Então a CSN é sua família agora. Como todos nós. Estamos construindo algo maior que nós mesmos. Maior que Brasil. Estamos construindo futuro.

Hans assentiu. Mas pensava: Estou construindo informações para destruir este futuro. Se a guerra exigir.

Volta Redonda, dezembro de 1941

Rotina consolidada. Hans trabalhava. Coletava informações. Viajava mensalmente ao Rio. Entregava os relatórios. Recebia ordens.

O caderno cifrado crescia. Especificações completas de:

  • Alto-fornos (capacidade, dimensões, fornecedores)
  • Aciaria (processo, equipamentos)
  • Laminadores (origem americana, vulnerabilidades)
  • Infraestrutura (energia, água, transporte)
  • Cronograma (previsão 1946 para operação completa)

Tudo documentado. Tudo cifrado. Tudo escondido no fundo falso do livro alemão.

O número de trabalhadores cresceu de 762 em 1941 para 6.164 em 1942. Obras aceleravam. Pressão americana. Guerra na Europa. Brasil ainda neutro, mas inclinando-se aos Aliados.

Hans sabia: o tempo estava acabando. Em meses, talvez semanas, o Brasil entraria na guerra. E então, a rede alemã seria desmantelada. Prisões. Torturas. Mortes.

Mas até lá, continuaria trabalhando. Coletando. Reportando. Como sempre fizera. Como sempre faria. Até o último trem.

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