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A Preguiça que Ninguém Confessa

Acontece assim: alguém no grupo diz algo absolutamente errado. Uma afirmação falsa. Uma injustiça embalada em certeza. E o silêncio responde. Ninguém pisca. Ninguém fala. A conversa segue como se nada tivesse acontecido, porque, para todos os presentes, não aconteceu.

Ou, pior: uma única voz se levanta. E fica ali, sozinha, suspensa no ar, à espera de um aceno que não vem.

Quem nunca?

Por muito tempo fui aquele que pulava na frente. Não por coragem especial, nem por superioridade moral. Calar uma evidência parecia uma espécie de traição a mim mesmo.

Mas ultimamente tenho sentido um cansaço diferente. Não é fraqueza, repito para mim mesmo. É falta de vontade de gastar energia com aquilo que nada vai mudar.

O problema é que essa mesma frase eu ouvi de gente que há anos não diz mais nada sobre coisa alguma.

A verdade incômoda é que essa preguiça não começou agora. Ela se instala em nós muito antes de qualquer debate público e se manifesta nas dobras do cotidiano, nas horas em que ninguém nos observa.

Lembro de um diálogo que toda geração repete:

— Você vai fazer isso mesmo sabendo que é errado?

— Claro. Todo mundo está fazendo.

Minha mãe não aceitava essa resposta. Havia uma frase, curta e definitiva: “Você não é todo mundo.” Dita com uma convicção que dispensava qualquer réplica.

Na época, achava severo. Hoje entendo que era o único antídoto.

A preguiça não se anuncia. Começa nos gestos que ninguém registra: a verdade incômoda engolida para poupar o clima, a fila desrespeitada porque ninguém está olhando. Não há ruptura, não há drama. Só a repetição silenciosa do que convém e o padrão que vai mudando por dentro, sem que percebamos.

O certo é certo mesmo que ninguém esteja fazendo. O errado é errado, mesmo que todos estejam praticando. Ética não é negociável.

E então aparece o argumento mais perigoso, não porque seja sofisticado, mas porque parece razoável:

— Não está prejudicando ninguém. Então nem é tão grave assim.

Ninguém acorda um dia disposto a roubar um banco. Mas minha mãe tinha uma frase para isso também: “Quem tem coragem de roubar uma moeda, qualquer hora cria coragem de roubar um banco.” Absurdo de criança. Sabedoria de vida inteira.

É a água mole na pedra dura. Sem alarme, sem data marcada. Quando nos damos conta, já encontramos desculpas perfeitas para suavizar o que, anos antes, nos envergonharia.

Há uma saída, mas ela é estreita e sem aplausos. Não passar na frente na fila. Não guardar o troco errado. Dizer a verdade quando ela custa mais do que gostaríamos de pagar. Assumir o erro com humildade; não com orgulho, não com drama. Não porque alguém nos observa. Mas porque o caráter é exatamente isso: o que escolhemos quando ninguém está contando.

Aquele grupo ainda está ali. Alguém vai dizer algo errado. O silêncio vai se abrir. E uma única voz vai ficar suspensa no ar, esperando um aceno.

A pergunta não é mais quem nunca. A pergunta é: desta vez, o que você vai fazer?

O silêncio que não nos custa nada é sempre o mais caro.

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