Volta Redonda, canteiro de obras da CSN, 18 de outubro de 1942 – 00h05
A lua iluminava o canteiro com luz fantasmagórica. Estruturas metálicas projetavam sombras longas e angulares. O alto-forno número 1 erguia-se contra o céu noturno como monumento inacabado – cinquenta metros de aço, concreto e tubulações. Futuro do Brasil tomando forma.
Ou prestes a ser destruído.
Hans caminhava à frente. Becker e Kohler seguiam três metros atrás. Silenciosos. Profissionais. A mala de explosivos pesava nas costas de Becker. A caixa de temporizadores nas mãos de Kohler.
Hans parou. Ergueu a mão. Sinal de alerta. Todos congelaram.
À distância, um guarda fazendo a ronda. Lanterna balançando. Botas sobre concreto. Som ecoando na noite. Hans consultou o relógio. 00h07. O guarda estava adiantado. Deveria passar só às 00h15.
Improvisação, pensou Hans. Sempre há imprevistos.
Esperaram atrás de pilha de vigas de aço. Três minutos. Eternos. O guarda passou. Não olhou para trás. Não viu nada.
Hans acenou. Continuaram.
Chegaram ao alto-forno às 00h12. A estrutura era um labirinto vertical. Escadas externas de metal. Plataformas em múltiplos níveis. Tubulações principais de refrigeração correndo pelas laterais – artérias de água que impediriam o metal fundido de derreter contenção.
Becker estudou a estrutura com olhos experientes de demolidor. Apontou para três pontos específicos:
– Ali, ali e ali – sussurrou em alemão. – Tubulação principal. Se explodirem simultaneamente, colapso estrutural garantido.
Kohler abriu caixa. Três temporizadores. Mecânicos. Relógios adaptados. Mostradores marcando 00h13. Programados para detonar às 06h15.
Seis horas. Trezentos e sessenta e dois minutos. Vinte e um mil e setecentos e vinte segundos até duzentos homens morrerem.
A menos que Hans impedisse.
Becker abriu a mala. Retirou o primeiro bloco de explosivo plástico. Três quilos. Cor cinza-acastanhada. Textura de argila. Cheiro leve de amêndoas amargas. Alemão. Militar. Letal.
Hans forçou-se a falar:
– Primeira posição. Segue-me.
Subiram a escada externa. Vinte metros. Plataforma intermediária. Tubulação principal acessível. Grossura de braço humano. Aço reforçado. Mas não à prova de dezoito quilos de explosivos.
Becker moldou o primeiro bloco ao redor da tubulação. Mãos experientes. Movimentos precisos. Trabalho de artesão. Kohler conectou temporizador. Dois fios. Vermelho e preto. Espoleta inserida no centro do explosivo.
Click. Temporizador ativado. Os ponteiros começaram movimento imperceptível. 00h19. Seis horas até detonação.
– Próximo – disse Becker.
Desceram. Subiram escada diferente. Plataforma superior. Quarenta metros de altura. Vento mais forte. Vista panorâmica do canteiro. Rio Paraíba ao longe, serpente negra sob luz lunar.
Segunda carga. Mesmo procedimento. Moldar explosivo. Conectar temporizador. Ativar.
00h31. Detonação: 06h15.
– Último – disse Kohler, suor escorrendo apesar do frio noturno.
Plataforma inferior. Base do forno. Fundações. Onde concreto encontrava aço. Ponto mais crítico. Se explodisse, toda estrutura desmoronaria.
Terceira carga. Maior. Doze quilos. Becker usou tempo extra moldando perfeitamente. Cobertura completa da tubulação. Temporizador final.
00h47. Detonação: 06h15.
Terminado.
Becker examinou o trabalho. Satisfeito. Profissional. Orgulhoso. Era obra de arte. Arte de destruição.
– Perfeito – murmurou. – Impossível falhar. Impossível desarmar sem código. E código…
Olhou para Kohler.
– …só eu sei – completou Kohler.
Mentira, pensou Hans. Porque qualquer engenheiro competente poderia desarmar. Apenas precisaria tempo. E coragem. E sorte.
Hans teria que ter os três.
– Vamos – disse ele. – O guarda volta em doze minutos.
Desceram. Caminharam rapidamente, mas silenciosamente. Atravessaram o canteiro. Chegaram à margem do rio às 00h56.
A canoa estava onde deixaram. Escondida entre arbustos. Becker e Kohler entraram. Kohler pegou o remo.
Becker olhou para Hans. Pela primeira vez, algo parecido com respeito em seus olhos frios:
– Bom trabalho, Weissmann. O Reich não esquecerá.
Hans não respondeu. Apenas acenou.
A canoa partiu. Deslizou silenciosa sobre água negra. Em segundos, desapareceu na escuridão da margem oposta. Becker e Kohler voltariam para o Hotel São Pedro. Dormiriam poucas horas. Pegariam o trem das 07h00 para o Rio. Depois que a explosão acontecesse. Mas antes que entendessem.
Hans ficou parado na margem. Olhando a água. Ouvindo o rio. Sozinho.
Consultou o relógio. 01h00.
Cinco horas e quinze minutos até detonação. Começou a correr.
Volta Redonda, alojamento dos engenheiros, 18 de outubro de 1942 – 01h15
Hans entrou no alojamento sem fazer barulho. Quarto escuro. Roncos de Roberto e outros três engenheiros. Ninguém acordou.
Foi até seu armário. Abriu a gaveta inferior. Embaixo de roupas, envelope lacrado. Preparado há dois dias. Dentro, cinco folhas datilografadas:
DENÚNCIA URGENTE – SABOTAGEM PLANEJADA
À DIREÇÃO DA CSN E AUTORIDADES COMPETENTES:
Na madrugada de 15 de outubro de 1942, três cargas explosivas foram plantadas no alto-forno número 1 da Companhia Siderúrgica Nacional.
LOCALIZAÇÃO DAS CARGAS:
- Plataforma intermediária, 20 metros de altura, tubulação principal de refrigeração (setor norte)
- Plataforma superior, 40 metros de altura, tubulação principal de refrigeração (setor leste)
- Plataforma inferior, base do forno, tubulação principal de refrigeração (setor sul)
DETONAÇÃO PROGRAMADA: 06h15, 15 de outubro de 1942
MECANISMO: Temporizador mecânico. Espoleta com dois fios (vermelho e preto). Desarme requer desconexão da espoleta do explosivo.
RESPONSÁVEIS:
Wilhelm Becker – alemão, ~40 anos, cabelos louros, olhos azuis, especialista em explosivos. Hospedado no Hotel São Pedro, Barra Mansa.
Franz Kohler – alemão, ~30 anos, magro, nervoso, engenheiro químico. Hospedado no Hotel São Pedro, Barra Mansa.
COORDENADOR DA OPERAÇÃO:
Friedrich Adler – adido cultural da Embaixada Alemã (deportado janeiro 1942, retornou ilegalmente). Escondido em casa de Laranjeiras, Rio de Janeiro. Rua Ipiranga, 347.
REDE DE ESPIONAGEM:
Operação coordenada pela Abwehr (inteligência militar alemã). Objetivo: sabotagem de instalações estratégicas brasileiras. CSN é alvo prioritário.
OUTROS ALVOS POTENCIAIS:
– Bases aéreas do Nordeste
– Portos (Santos, Rio, Recife)
AÇÃO NECESSÁRIA:
- Evacuação imediata do alto-forno 2. Localização e desarme das cargas explosivas 3. Prisão de Wilhelm Becker e Franz Kohler (Hotel São Pedro) 4. Captura de Friedrich Adler (Laranjeiras) 5. Investigação completa da rede de espionagem
TEMPO CRÍTICO: Menos de 5 horas até detonação
Um patriota brasileiro
Hans releu o documento. Completo. Detalhado. Condenatório.
Para Becker. Para Kohler. Para Adler.
Mas não para Hans. Porque Hans não existia. Era apenas um “patriota brasileiro anônimo”. Henrique Weissmann permaneceria limpo. Inocente. Herói, talvez.
Guardou o envelope dentro do casaco. Saiu do alojamento silenciosamente. Ninguém acordou.
Caminhou pelas ruas escuras de Volta Redonda. Canteiro ao longe, iluminado por postes. Casas dos engenheiros mais graduados ficavam perto. Heitor morava ali. Casa simples. Dois quartos. Presente da companhia.
01h28. Hans chegou. Respirou fundo. Bateu na porta. Forte. Três vezes.
Dentro, barulho. Passos. Voz sonolenta:
– Quem é? Que horas são essas?
Hans não respondeu. Prendeu o envelope na maçaneta. Correu. Escondeu-se atrás de um caminhão estacionado vinte metros adiante.
A porta abriu. Heitor em pijama. Cabelos despenteados. Olhos semicerrados de sono. Olhou ao redor. Ninguém. Depois viu o envelope. Pegou.
Voltou para dentro. A porta fechou.
Hans esperou. Coração martelando. Mãos suando.
Três minutos. Eternos.
A porta abriu violentamente. Heitor saiu correndo. Ainda de pijama. Envelope nas mãos. Gritando:
– Guardas! Guardas! Emergência!
Hans sorriu. Funcionara.
Correu de volta para alojamento. Entrou. Deitou-se no beliche. Fechou olhos. Fingiu dormir.
Cinco minutos depois, Roberto acordou:
– Weissmann! Onde você estava?
– Banheiro – mentiu Hans. – Por quê?
– Ouvi barulho. Alguém correndo.
– Não ouvi nada – disse Hans, bocejando dramaticamente. – Estava dormindo.
Roberto encolheu ombros. Voltou a dormir.
Hans ficou acordado. Esperando.
Às 01h55, batida violenta na porta do alojamento:
– Todos de pé! Emergência! Reúnam-se no pátio em cinco minutos!
As luzes acenderam. Confusão. Engenheiros levantando, vestindo roupas às pressas. Roberto murmurando:
– Que merda é essa? Que horas são?
Hans vestiu-se calmamente. Como se não soubesse. Como se não fosse o responsável.
Volta Redonda, pátio central da CSN, 18 de outubro de 1942 – 02h15
Sessenta engenheiros reunidos. Técnicos americanos. Guardas. Heitor no centro. Macedo Soares acabara de chegar, vestido às pressas, rosto pálido.
Ao lado deles, capitão Augusto Moreira, comandante da guarnição militar federal destacada para proteger CSN. Uniforme impecável mesmo às duas da manhã. Postura militar. Vinte soldados armados ao redor.
Heitor ergueu envelope. Voz tremendo:
– Recebi denúncia anônima. Há explosivos plantados no alto-forno número 1. Programados para detonar às seis e quinze da manhã.
Murmúrio chocado. Alguém gritou:
– Sabotagem! Alemães!
Macedo Soares tomou controle:
– Silêncio! Temos menos de quatro horas. Precisamos encontrar e desarmar. A denúncia indica três localizações. Dividiremos em três equipes.
Capitão Augusto interveio:
– Meus soldados evacuarão a área. Ninguém entra no alto-forno exceto equipes de desarme. E apenas engenheiros experientes.
Macedo Soares olhou ao redor. Depois apontou:
– Weissmann, Alcântara, Silva – três engenheiros mais experientes. – Vocês três liderarão as equipes. Cada um leva dois técnicos. Lanternas. Ferramentas. Cuidado extremo.
Hans sentiu o peso. Ironia brutal. Ele plantara bombas. Agora desarmaria.
Círculo completo, pensou. Traição sobre traição.
Roberto aproximou-se, pálido:
– Weissmann, você entende de explosivos?
– Estudei na França – mentiu Hans. Verdade era: estudara na Abwehr. – Sei o básico.
– Básico terá que ser suficiente – disse Macedo Soares. – Vão. Rápido.
Volta Redonda, alto-forno número 1, 18 de outubro de 1942 – 02h35
Hans liderava a equipe até a primeira localização. A denúncia dizia: “Plataforma intermediária, 20 metros de altura, setor norte.”
Subiram escada externa. Lanternas iluminando metal enferrujado. Vento frio. Suor apesar do frio.
Plataforma intermediária. Hans varreu a área com lanterna. Tubulação principal. E ali, moldado perfeitamente ao redor do cano: explosivo plástico. Cor cinza-acastanhada destacando contra aço escuro.
– Achei – disse Hans, voz controlada.
Os técnicos aproximaram-se. Um deles, americano chamado John Patterson, empalideceu:
– Jesus Cristo. Isso é… isso é explosivo militar. Alemão. Reconheço. Trabalhei com demolição na Primeira Guerra.
– Pode desarmar? – perguntou Hans.
– Talvez. Se o temporizador for padrão. Se não tiver armadilha. Se eu não tremer demais.
Hans ajoelhou-se. Estudou o dispositivo. O temporizador no centro. Dois fios. Vermelho e preto. Espoleta inserida em explosivo.
Simples, pensou. Talvez simples demais. Kohler disse que só ele sabia código. Mas não há código. Apenas espoleta. Desconectar e pronto.
A menos que haja armadilha. Fio falso. Detonação ao tocar.
Hans respirou fundo. Olhou para Patterson:
– Me dê o alicate. Isolado.
Patterson entregou. Mão tremendo.
Hans segurou o alicate. Aproximou-se do fio preto. Parou. Pensou.
Fio vermelho geralmente é positivo. Fio preto, negativo. Cortar preto desativa circuito. Mas se Kohler inverteu…
Não há tempo para dúvida. Escolhe e corta.
Hans posicionou alicate no fio preto. Apertou. Cortou.
Click.
Silêncio.
Nada explodiu.
Hans soltou ar que não percebera estar segurando. Depois, cuidadosamente, removeu espoleta do explosivo. Separou o temporizador da carga.
Desarmado.
Patterson desmoronou, sentando na plataforma:
– Filho da puta. Você tem nervos de aço.
Hans não respondeu. Porque as mãos tremiam violentamente agora. Adrenalina esgotando. Percepção de quão perto chegara de morrer – de matar todos ali.
– Próxima – disse ele, levantando. – Duas restantes.
Volta Redonda, alto-forno número 1, 18 de outubro de 1942 – 03h20
A segunda bomba desarmada pela equipe de Roberto. Mesma técnica. Cortar o fio preto. Remover a espoleta. Sucesso.
Terceira bomba – a maior, na base – encontrada pela terceira equipe. Hans chamado para desarmar. Reputação de “nervos de aço” já espalhada.
Desceu até as fundações. Quarenta metros abaixo da primeira plataforma. Ar mais úmido. Cheiro de concreto fresco. Tubulação mais grossa. Explosivo maior. Doze quilos moldados perfeitamente.
Hans ajoelhou-se novamente. Mesmo procedimento. Alicate. Fio preto. Respiração profunda.
Terceira vez. Kohler não esperaria três desarmes. Será que esta tem armadilha?
Hesitou. Depois pensou em Isabel. Em duzentos operários chegando às seis da manhã. Em Batistão desaparecido. Em tudo que importava.
Cortou o fio preto.
Click.
Silêncio.
Desarmado.
Hans removeu espoleta. Última bomba neutralizada.
03h47. Duas horas e vinte e oito minutos antes de detonação programada. Todos salvos.
Macedo Soares subiu ao alto-forno. Abraçou Hans. Primeira vez que demonstrava emoção:
– Você salvou várias vidas. Talvez mais. A CSN inteira. É um herói, Weissmann.
Hans não se sentiu herói. Sentiu-se traidor. De todos os lados. Do Reich. De Adler. De si mesmo. Mas os operários estavam salvos. E isso, por enquanto, bastava.
As buscas ainda continuaram. Poderiam haver outras cargas.
Barra Mansa, Hotel São Pedro, 18 de outubro de 1942 – 05h30
Wilhelm Becker e Franz Kohler dormiam quando a porta explodiu. Não batida. Explosão. Soldados invadiram. Dez homens. Rifles. Pistolas.
Becker tentou pegar a Luger debaixo do travesseiro. Coronhada na cabeça. Caiu. Sangue. Algemas.
Kohler nem tentou resistir. Apenas chorou.
Os delegados Álvaro Moreira e Antônio da Cunha, do DOPS, entraram depois. Álvaro chutou Becker ainda no chão:
– Filho da puta alemão. Achou que ia explodir nossa usina?
Becker cuspiu sangue:
– Wie…? (Como…?)
– Alguém te entregou – sorriu Álvaro. – Patriota brasileiro. Vocês subestimaram. Sempre subestimam.
Kohler foi arrastado para fora. Becker também. Jogados em caminhão militar. Levados para a prisão em Barra Mansa. Depois seriam transferidos para o Rio. DOPS. Interrogatório. Tortura.
Ambos sabiam: não sobreviveriam. Espiões capturados em tempo de guerra raramente sobreviviam.
Volta Redonda, canteiro de obras da CSN, 18 de outubro de 1942 – 08h00
O sol nasceu sobre Vale do Paraíba. Vermelho. Quase sangrento. Os operários chegaram para turno das seis. Ninguém lhes dissera sobre bombas. Sobre sabotagem. Sobre quão perto chegaram da morte.
Trabalharam normalmente. Soldando. Carregando. Construindo.
Hans observava de longe. Exausto. Não dormira. Apenas fumava. Cigarro atrás de cigarro.
Heitor aproximou-se:
– Você deveria descansar. Fez um trabalho extraordinário. Macedo Soares já telegrafou para Vargas. Querem te condecorar.
– Não quero medalha – disse Hans, a voz vazia. – Só fiz o certo.
– Muitos não fariam – disse Heitor. – Cortar aquele fio… poderia ter explodido. Matado você. Matado todos. Mas não hesitou. Isso é coragem.
Hans riu. Som amargo.
– Não foi coragem. Foi… necessidade.
Heitor não entendeu. Mas não pressionou. Apertou o ombro de Hans:
– Vá dormir. Amanhã voltamos ao normal. Hoje, você é herói.
Hans voltou ao alojamento. Deitou-se no beliche. Fechou os olhos. Mas não dormiu.
Porque em algum lugar, Adler estava livre. Furioso. Sabendo que alguém o traíra. E Adler era paciente. Esperaria. Meses. Anos.
Mas eventualmente, viria. E cobraria.
E Hans, pela primeira vez, não sabia se teria coragem de pagar preço de traição que cometera.
