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O Custo de Calar

Havia outras pessoas na sala de espera, mas eu só reparei nela quando ela se levantou. Uma amiga. Alguém com quem muitas vezes não concordo, mas por quem tenho admiração legítima (do tipo que não precisa de afinidade para existir). O consultório médico é um dos poucos lugares onde a vida nos coloca lado a lado sem que tenhamos escolhido.

Depois de alguns minutos, perguntei sobre seu afastamento. Ela tinha se afastado de um debate em que sua voz fazia diferença. Eu sabia disso, ela sabia que eu sabia. A resposta veio sem hesitação, mas carregada de peso:

“Com qual objetivo?”

Três palavras. E nelas, anos.

Ela foi enumerando as razões, com a precisão de quem já fez esse balanço muitas vezes, sozinha, antes de dormir. No final, nada muda. O debate se repete. O custo, porém, é real: tempo, exposição, desgaste, às vezes prejuízo concreto. E o que resta, para quem investiu nisso com seriedade, é o cansaço e a sensação de ter jogado pedras no mar.

Eu entendo. Disse isso a ela. Porque seria desonesto dizer o contrário.

Mas então perguntei, talvez não com a mesma clareza com que digo agora: se todos os íntegros abandonarem o campo, quem o ocupará?

É preciso dizer o que integridade não é. Não é infalibilidade. Não é superioridade moral. Não é a posse da verdade. Integridade é coerência entre o que se pensa, o que se diz e o que se faz. É o compromisso de não mentir por conveniência, de não calar por conforto quando o silêncio serve à mentira alheia. É responsabilidade pelo que se faz, mas também pelo que se deixa de fazer.

Esse detalhe (a responsabilidade pelo que se deixa de fazer) é o que o debate sobre coragem cívica normalmente esquece.

Naquele momento percebi que o silêncio dos íntegros não nasce da covardia. Nasce de três sentimentos bem menos visíveis: a descrença na eficácia, a prudência de quem não quer expor suas convicções inutilmente, e o cansaço. Esse cansaço específico de quem já tentou e sabe o preço.

Conheço esse cansaço de perto. Posicionar-se tem um custo que varia conforme a visibilidade de quem fala e a impopularidade do que diz. Pessoal. Profissional. Financeiro, às vezes. E há momentos em que calar é, genuinamente, o resultado mais racional na equação custo-benefício. Não por covardia; por lucidez. Por sobrevivência.

Mas existe um ponto em que essa lucidez vira outra coisa. Um limiar onde a prudência se transforma em omissão. E é aí que o argumento muda de natureza.

O debate público não admite vazio. Quando quem tem critério se retira, o espaço não fica em branco; ele é ocupado. Por mediocridade, na melhor das hipóteses. Por oportunismo, com frequência. Por barulho sem substância, quase sempre. E o barulho, com o tempo, não é apenas incômodo: ele se torna referência. É assim que o erro se normaliza. Não por uma vitória explícita, mas pela ausência de quem poderia contestá-lo.

Há um custo por se posicionar. Isso todo mundo sabe, porque esse custo é visível. O que ninguém contabiliza com a mesma clareza é o custo do silêncio coletivo: a normalização do erro, a perda de referência, a corrosão lenta do ambiente em que todos vivemos.

Esse segundo custo é difuso, invisível, de pagamento parcelado. Mas é real. E quem o paga não é só quem calou. É todo o entorno.

O silêncio que protege a integridade individual também fragiliza o ambiente coletivo. E quando isso acontece em escala, deixa de ser prudência e passa a ser cumplicidade.

Ser cúmplice não exige aprovação. Exige apenas ausência. O cúmplice silencioso não assina embaixo. Ele só não aparece quando sua presença custaria algo. E a mentira, a injustiça, o abuso de qualquer tipo prosperam menos por força própria do que pela vacância dos que poderiam ter dito algo e não disseram.

A neutralidade, nesse contexto, é uma ficção. Quem tem maior compreensão de uma realidade (e se cala diante de sua distorção) não está neutro. Está do lado de quem distorce. Não por intenção, mas por efeito. E os efeitos, na vida pública, pesam mais que as intenções.

Daí que o dever de falar não nasce do direito de ter opinião. Nasce da responsabilidade proporcional à capacidade de ver. Quem enxerga mais, deve mais. Essa é uma dívida que a lucidez cobra e que o cansaço não quita.

Minha amiga não leu isso. Não sei se concordará, se apenas tolerará a argumentação ou se já pensou nisso e chegou a uma conclusão diferente. Não sei se perguntarei. Alguns silêncios devem ser respeitados.

Mas a pergunta que fica é: qual preço estamos dispostos a pagar?

Porque os dois têm preço. Falar custa. Calar custa. A diferença é que o custo de falar aparece imediatamente. O custo de calar aparece depois, devagar, distribuído por toda uma geração. E quando ele se torna visível já é tarde para cobrar de quem o gerou.

Esta crônica tem um destinatário específico. Alguém que sabe que estou falando com ela. Mas o problema é de todos. Porque toda sociedade é, em última análise, o resultado acumulado das escolhas que seus membros mais lúcidos fizeram sobre quando falar e quando se calar.

E o que ela se tornou (o que estamos nos tornando) diz muito sobre o que escolhemos.

O silêncio de quem sabe não é neutro. É uma decisão com consequências.

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