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O Custo de Permanecer

Na semana passada, trocamos mensagens sobre a queda de Roma e a ascensão do islã. Na anterior, sobre a Guerra do Irã. Outro dia, sobre a política nacional. Faz mais de dez anos que converso com João quase todos os dias (política, história, fé, geopolítica, as miudezas da vida). Trocamos opiniões com a franqueza descuidada de quem não precisa se provar. Discordamos com frequência e nos respeitamos sempre, ainda que à maneira masculina: sem muita cerimônia, sem abraços no texto.

Foi semana passada também que percebi: faz quatro anos que não o vejo pessoalmente. Quatro anos. Minha casa fica a três quilômetros da dele.

Haveria nisso algo que denunciar? Uma falha, uma negligência, a preguiça disfarçada de ocupação? Fiquei com a pergunta. Mas logo ela se alargou e deixou de ser sobre João. Tornou-se sobre todos os outros. Os que foram ficando para trás sem briga, sem carta de despedida, sem nenhum evento que justificasse o silêncio. A vida adulta não rompe amizades. Ela as dissolve.

A juventude cria amizades por proximidade. A vida adulta as perde por omissão.

Na escola, na faculdade, na Igreja da adolescência, a amizade não exigia esforço algum: nascia do simples fato de estarmos no mesmo lugar, na mesma hora, com o mesmo tempo ocioso à disposição. A identidade ainda estava sendo moldada, e o outro era matéria-prima para esse processo. Amigo era quem estava perto. A definição bastava.

A vida adulta corta essa lógica pela raiz. O casamento, os filhos, o trabalho; não como inimigos da amizade, mas como concorrentes legítimos do tempo. E o tempo, que antes sobrava, agora é o bem mais disputado que existe. O que era estrutural vira opcional. O que era automático exige decisão.

O adulto vive uma contradição que raramente admite: valoriza a amizade como bem supremo e, ao mesmo tempo, não está disposto (ou não consegue) a pagar o custo de mantê-la. Não por maldade. Por exaustão. Por acúmulo. Porque a vida não para de cobrar.

Há amigos que você ama de verdade e que, simplesmente, não cabem mais na sua vida. Não por incompatibilidade de caráter, mas por incompatibilidade de agenda. Essa é uma das tristezas silenciosas da maturidade. Aquela que não vira drama porque não tem culpado, não tem cena, não tem resolução. Só o afastamento gradual, e quando você percebe, o número já está desatualizado.

Aristóteles dizia que apenas a amizade fundada no caráter é duradoura. Mas ele escrevia numa polis com tempo e proximidade garantidos. Nós temos reuniões às dezenove horas.

O que aconteceu com João e comigo não é exceção curiosa; é a norma. A tecnologia nos permite manter o fio de uma amizade sem o calor presencial que a originou. O WhatsApp é uma prótese afetiva eficaz. Sustenta o vínculo onde a distância (mesmo de três quilômetros) tornaria o silêncio mais fácil. Não substitui o jantar, o copo de vinho, o silêncio compartilhado. Mas impede que o nome do amigo desapareça da memória ativa e migre apenas para a memória afetiva. Há amigos que já não frequentamos, mas que ainda habitam nossa identidade. Não como presença, mas como passado constitutivo. Somos, em parte, o que essas amizades perdidas nos ensinaram.

Às vezes sinto uma culpa leve, difusa. A culpa de quem sabe que deveria ter ligado e não ligou, que deveria ter cruzado esses três quilômetros e não cruzou. É uma culpa sem peso agudo, mas persistente. Como uma dívida pequena que você não paga porque a vida sempre apresenta uma urgência maior.

Talvez a questão não seja entender por que as amizades morrem na vida adulta. Isso já está explicado pelo simples peso da existência. A questão é outra: o que fazemos com o pouco que sobrevive. Porque manter um amigo de verdade na maturidade não é luxo de quem tem tempo. É uma escolha de quem entende que algumas coisas perdem valor se não forem tratadas como prioridade, mesmo quando a vida insiste, todos os dias, em torná-las secundárias.

Vou ligar para o João essa semana. Talvez a gente se encontre.

Amizade que sobrevive ao tempo não vence por inércia. Vence por insistência.

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