A conversa era sobre inteligência e dinheiro. Alguém sugeria que desenvolver uma era o caminho para o outro. Discordei, por brincadeira. Paulo discordou de verdade, e com mais precisão: ganhar dinheiro tem menos a ver com inteligência do que com disposição. Disposição para fazer o que for necessário. Para provar o argumento, mencionou uma influenciadora cujos vídeos, ele mesmo reconhecia, não tinham qualquer profundidade. Mas ela os postava. E as pessoas consumiam.
Eu disse que jamais conseguiria produzir algo assim. Não é questão de superioridade; é questão de convicção. Acredito que não expressamos apenas o que somos. Expressamos o que desejamos ser. E quem produz conteúdo deliberadamente vazio, só pelo que rende, está declarando, para si mesmo antes de qualquer outro, que deseja ser igualmente vazio.
A resposta de Paulo foi curta e desconcertante: “Por isso você não ganha dinheiro.”
Ri. E continuei pensando nisso.
Ele estava certo sobre o funcionamento do sistema. Mas isso não é argumento a favor do sistema; é diagnóstico dele.
O capitalismo industrial produzia objetos. Explorava força e tempo. O trabalhador saía da fábrica com o corpo gasto; o capital ficava com o produto. No capitalismo de consumo, surgido na segunda metade do século XX, o produto não era mais só o objeto. Era o desejo pelo objeto. Vender um carro era menos sobre transporte do que sobre a identidade que o carro conferia. A publicidade não informava. Construía.
O capitalismo digital deu um passo além. E foi um passo sem precedentes. Ele não explora apenas o tempo ou o desejo. Ele explora a pessoa inteira: atenção, comportamento, identidade, previsibilidade. Antes você comprava mercadorias. Agora você é a mercadoria. Ou, ao menos, parte dela. Seus dados são coletados. Seus hábitos, monitorados. Sua atenção, vendida. Sua personalidade, transformada em ativo negociável.
A descoberta decisiva das plataformas digitais foi esta: prever comportamento é mais lucrativo do que vender produtos. Por isso elas querem saber o que você vê, por quanto tempo vê, o que o faz parar o scroll, o que o faz comentar, o que você teme e o que você secretamente deseja. Cada gesto seu é dado. E dado, neste sistema, é capital.
Todo capitalismo tem seus trabalhadores. O digital também. Só que eles não se reconhecem como tais.
Alguns são os produtores de conteúdo, os influenciadores, os criadores de marca pessoal. Esses ao menos recebem algo em troca: dinheiro, visibilidade, patrocínio. Mas a imensa maioria dos trabalhadores do capitalismo digital não recebe nada. São os usuários comuns que postam fotos de viagem, comentam sobre preferências, exibem a roupa nova, registram o restaurante. Cada post é trabalho. Cada reação é dado gerado. Cada minuto dentro da plataforma é tempo de trabalho entregue gratuitamente a um sistema que o converte em lucro.
A diferença entre um trabalhador e outro é apenas o salário. Para a imensa maioria, o valor é zero.
O usuário comum não percebe isso porque o sistema foi desenhado para que ele não perceba. A interface é prazerosa. A gratificação é imediata. A sensação é de liberdade. De expressão, de conexão, de pertencimento. O que não aparece na tela é a estrutura de extração que opera por baixo de tudo isso, silenciosamente, a cada scroll.
Mas o mais profundo não é o dado coletado. É o que o sistema faz com a subjetividade de quem nele habita.
O capitalismo digital criou uma figura antropológica inteiramente nova: o eu-mercadoria. Para existir dentro do sistema, é preciso que a identidade se torne consumível. Editar a personalidade. Performar autenticidade. Construir imagem. Vender estilo de vida. O indivíduo começa a se enxergar como marca. E uma marca existe para ser percebida, desejada, consumida.
O problema não é só externo. É que o indivíduo por trás da mercadoria começa, gradualmente, a se enxergar desta forma também. Passa a avaliar suas experiências pelo que rendem. Suas amizades pelo que engajam. Seus conhecimentos pelo que entretêm. Sua intimidade pelo que parece interessante quando fotografada. A vida privada vira conteúdo. O amor vira vitrine. O luto, às vezes, vira post.
Quando tudo precisa render, engajar e parecer interessante, o que sobra de você que não é para o outro consumir?
A arte começa a competir com o algoritmo e perde, porque o algoritmo sabe exatamente o que o cérebro recompensa a curto prazo. O conhecimento precisa entreter para justificar sua existência. A autenticidade vira estética. Algo que se pode replicar, vender e consumir em larga escala, esvaziado da única coisa que fazia dela algo valioso: o custo real de ser quem se é.
É aqui que Paulo estava certo no diagnóstico e errado na conclusão.
O capitalismo digital não é apenas econômico. É antropológico. Não interfere apenas em como produzimos e consumimos. Interfere em como nos tornamos. E isso muda tudo, porque a questão não é só o que o sistema faz com você. É o que você, ao participar do sistema nos seus termos, faz com você mesmo.
Volto ao que disse a Paulo: não expressamos apenas o que somos. Expressamos o que desejamos ser. O que ainda não alcançamos, mas em direção ao qual nos movemos. Toda expressão é uma declaração de destino. Por isso a arte importa. Por isso a linguagem importa. Por isso a qualidade do que se produz e consome importa de uma forma que vai muito além do gosto.
Se um sistema me oferece recompensas para que eu me expresse de forma vazia, e eu aceito, não estou apenas fazendo concessões comerciais. Estou treinando minha psiquê para desejar o vazio. Estou construindo, tijolo por tijolo, uma versão de mim que o sistema quer que eu seja. Previsível, engajável, monetizável.
Não produzirei aqueles vídeos. Não porque seja superior a quem os produz. Mas porque acredito que o que expresso forma o que sou. E não estou disposto a delegar essa formação a um algoritmo.
Paulo tem razão: por isso não ganho tanto dinheiro. É um preço real, não simbólico. Mas há outro preço, que ele não mencionou: o que se paga quando se decide, conscientemente, deixar que o mercado defina quem se quer ser.
Toda geração é testada por seus instrumentos. A nossa é testada pelas plataformas. A pergunta que elas nos fazem, disfarçada de oportunidade, é esta: você se vende, ou você se constrói? E a resposta que a maioria dá, sem perceber que está respondendo, é a mais cara de todas.
O sistema não precisa te obrigar a ser mercadoria. Basta te convencer de que isso é liberdade.
