Registro o processo de criação de Rios de Sangue e Ouro aqui porque a memória falha. Não a memória dos fatos (essa nos arquivos) mas a memória das razões. Por que esta cena existe. Por que este personagem toma esta decisão que parece estranha e só faz sentido quando se conhece a história inteira, inclusive a parte que não está escrita no romance. Daqui a dois anos não vou me lembrar. E precisarei saber.
É preciso dizer também que Rios de Sangue e Ouro é parte de algo muito maior. Uma saga que não tenho certeza de que virá à luz completamente. Posso não ter anos suficientes. Posso não ter forças. Esse é um risco que quem escreve sagas carrega em silêncio.
Tudo começa com Joaquim Gonçalves de Toledo.
Não o Joaquim de Rios de Sangue e Ouro. O bisavô, o personagem que a narrativa acompanha durante a Guerra dos Emboabas. O Joaquim que me pôs em movimento foi o bisneto: nascido na segunda metade do século XVIII, criado longe de Vila Rica, o ponto de chegada real de toda esta história. O bisavô existe em função dele. Por isso, em alguns momentos, as ações do Joaquim do primeiro romance parecem ligeiramente deslocadas de si mesmas. Porque estão orientadas não ao próprio destino, mas ao destino de alguém que ainda não nasceu. Ele é o centro orbital da saga. Tudo gira em torno dele, mesmo quando ele ainda não existe na página.
Escrevo sobre quem veio antes para explicar quem veio depois. O bisneto é a razão do bisavô.
A história foi escrita primeiro para minha esposa. Ela era (e ainda é) meu termômetro e guia. Eu contava o que havia pensado, ela reagia, opinava, e eu acabava escrevendo. Não havia projeto literário naquele momento. Havia um homem contando uma história para alguém que queria ouvi-la.
Isso importa mais do que parece. Uma história contada oralmente antes de ser escrita tem uma arquitetura diferente de uma história que nasce já como texto. Ela é mais instintiva, mais guiada pelo que prende a atenção de quem ouve do que pelo que satisfaz as exigências formais de uma narrativa literária. O drama humano nasceu ali. Na mesa de jantar, nos finais de tarde, nos fragmentos de conversa na cama, antes de qualquer pesquisa histórica, antes de qualquer estrutura consciente.
Quando terminei a história de Joaquim, escrevi um prólogo para dar origem às famílias Toledo e Carvalho. Eram poucos parágrafos. Vida e morte de personagens criados para explicar o que viria. Quando me dei conta, tinha nas mãos as premissas de um romance familiar inteiro. Escrevi. E logo percebi que eram dois romances, cada um pedindo tratamento distinto, tempo próprio, voz própria.
As desventuras de Joaquim, Adalberto e Catarina compõem Rios de Sangue e Ouro. As de Melquior, Antônio, Francisco e Diogo compõem A Serra da Traição. Histórias distintas, tempos próximos o suficiente para se tocarem. Nasceram sem contexto histórico, sem ambição enciclopédica. Só personagens e conflito, tendo como cenário as Minas de Ouro em seu período inicial.
O problema é que cenário, tempo e conflito reais exigem contexto. E o contexto chegou depois do drama. O que inverte a ordem natural das coisas.
Agora enfrento o que essa inversão custou. A saga tem três camadas que precisam ser soldadas de maneira natural, e cada uma foi construída num momento diferente, com intenções diferentes.
A primeira é a camada épica, histórica, estrutural, o mundo das Minas no alvorecer do século XVIII, com seus conflitos de poder, suas guerras, seus estancos e sua violência constitutiva. A segunda é a camada trágica: o drama humano das famílias Toledo e Carvalho, os personagens que existem porque eu os inventei e pelos quais respondo inteiramente. A terceira é a camada simbólica. Aquela que, como a ação dos deuses na tragédia grega, fornece a razão última das desventuras, o sentido que não está explicitado mas que organiza tudo por baixo.
Três camadas. Três momentos de criação. Três lógicas distintas. O trabalho que resta é fazê-las parecer uma coisa só.
A atual primeira parte de Rios de Sangue e Ouro soa como crônica histórica porque é, a rigor, uma crônica histórica. Escrevi-a para explicar o mundo em que Joaquim estava inserido. E escrevi para explicar, não para narrar. Essa distinção tem consequências diretas no ritmo, no tônus da prosa, na relação que o leitor estabelece com o texto. Quem lê uma explicação está sendo instruído. Quem lê uma narrativa está sendo levado. São experiências fundamentalmente diferentes.
O que falta à primeira parte não é informação. A informação está lá, com precisão. O que falta é risco. Um personagem em perigo, um destino em suspenso, uma pergunta que o leitor não consiga largar antes de virar a página. O contexto histórico pode permanecer, e deve, mas precisa ser atravessado pela corrente do drama, não disposto como um pano de fundo estático que o leitor contempla antes de a história começar.
Dar dinâmica narrativa à camada épica, sem trair a sua natureza histórica nem sufocar o drama que veio antes dela: este é o desafio que me espera. É trabalho para um bom par de anos.
Deus me ajude e que a memória não falhe antes que eu termine.
