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A Tirania dos Medíocres

Todo domingo havia um ritual. Meu pai saía cedo, voltava com o jornal embaixo do braço e quadrinhos para mim e meus irmãos. Durante a semana, o telejornal era sagrado. Ninguém falava enquanto o apresentador falava. Era assim que ele se informava, e sempre foi assim, na minha memória.

Mas ele mesmo me contou que nem sempre foi assim. Numa daquelas conversas que acontecem à mesa sem que ninguém tenha planejado, ele me disse onde tudo começou.

Foi numa fábrica. Anos antes de eu ter consciência do mundo. Durante o almoço, dois colegas comentavam sobre as eleições daquele ano. Meu pai os ouvia sem entender. Na época, o que ele acompanhava mesmo era futebol. Então perguntou, com a inocência de quem não sabe que a pergunta vai custar caro. E os colegas riram. Debocharam. Peão de fábrica não perdoa a ignorância alheia quando ela é mais conveniente que a própria.

A vergonha fez o que a consciência cívica não tinha feito. A partir dali, meu pai nunca mais perdeu um telejornal.

Conto isso não como anedota. Conto porque, se cada um puxar a memória, é bem provável que encontre ali uma versão da mesma história. O momento em que percebeu sua limitação diante de alguém e teve de decidir o que fazer com ela.

Esse desconforto tem nome, embora raramente o pronunciemos com honestidade: é o medo da exposição. Diante de uma inteligência que coloca à prova a nossa, diante de uma profundidade que não alcançamos, diante de um critério que nos mede sem pedir licença. Reagimos. Sempre. A questão é como.

Há duas saídas. A primeira é a do meu pai: a vergonha vira motor. A limitação percebida se transforma em impulso. Vai-se atrás do que falta, tira-se do contato o melhor que ele pode oferecer. A segunda saída é o afastamento. Rechaça-se o que incomoda, diminui-se o que supera, e encontra-se conforto na companhia de quem também não quer crescer. Essa diferença (entre quem usa o desconforto como alavanca e quem o usa como pretexto) não é pequena. É, talvez, a mais importante que existe entre as pessoas.

A mediocridade não é ausência de talento. É a recusa de perceber a própria limitação como convite. É a escolha, repetida até virar caráter, de preferir o nivelamento à exigência de si mesmo e dos outros.

Todos somos medíocres em alguma dimensão. Isso é inevitável e não é desonroso. O que importa não é o ponto de partida, mas a direção: quem se move em direção ao que o supera cresce; quem passa a odiar o que o supera definha. A diferença entre os dois não é de capacidade. É de disposição.

O problema é que, em determinado momento da história, essa segunda escolha deixou de ser apenas individual. Tornou-se sistema.

Nelson Rodrigues disse, com sua brutalidade costumeira, que os idiotas dominariam o mundo. Não pela capacidade, mas pela quantidade. O diagnóstico envelheceu mal apenas no tom, porque o que ele previu não é exatamente a vitória dos idiotas, mas algo mais sutil e mais perigoso: a vitória da lógica do idiota. A transformação da limitação em norma, e da norma em lei não escrita.

Olhe em volta com atenção. A excelência incomoda. A profundidade atrapalha. A autonomia ameaça. A coragem desestabiliza. Tudo está nivelado por baixo e o nivelamento não se apresenta como empobrecimento, mas como justiça. Como inclusão. Como democracia do mérito.

É uma fraude elegante. E ela opera com um roteiro bem reconhecível, para quem tem olhos para ver.

A tirania da mediocridade raramente se anuncia como ataque. Ela age por etapas, com paciência de quem sabe que o desgaste é sua arma mais eficaz.

O primeiro movimento é a ridicularização: comentários laterais, maldosos e precisos (“se acha demais”, “quer aparecer”, “intelectualzinho”). Não há debate. Não há argumento. Há apenas o escárnio, que não precisa ser verdadeiro para funcionar. Precisa apenas ser repetido. O segundo movimento transforma a excelência em ameaça moral: o bom trabalho passa a ser visto não como referência, mas como acusação implícita contra os demais. Circula nos ambientes corporativos, com uma seriedade que assusta, o conselho de nunca entregar um trabalho excelente. Porque isso não ajuda a empresa, mas expõe o grupo. O terceiro movimento é a burocratização: protocolo importa mais que competência, estabilidade mais que verdade, processo mais que resultado. E quando o excelente se vê afogado em formulários, reuniões e aprovações que não existem para produzir, mas para paralisar, começa a ceder.

No final, a mediocridade não vence pelo mérito. Vence pelo cansaço. O excelente não é derrotado; é exaurido. E quando cede, o ambiente registra não uma derrota, mas uma confirmação: veja, no fundo ele era igual a todos.

Mas aqui está o ponto mais fino, e que exige atenção: a mediocridade não teme o talento. Teme o critério. Porque o talento pode ser isolado, rotulado, descartado. O critério não. Ele cria medida. E ambientes medíocres sobrevivem dissolvendo as medidas. Sua operação mais eficaz é produzir confusão entre igualdade de dignidade e igualdade de capacidade, esforço e responsabilidade. São coisas radicalmente distintas. Quando se confundem, qualquer distinção parece injusta e o desejo de evoluir morre, porque evoluir passou a ser arrogância.

Uma cultura permanece viva enquanto ainda admira aquilo que a supera. Quando começa a odiar o que a supera, ela entra em decadência. Não pela perda dos excelentes, mas pela perda da capacidade de reconhecê-los. O problema não é que os melhores sumam. É que a régua some.

Meu pai aprendeu isso de um jeito que dói: pela vergonha pública, no refeitório de uma fábrica, cercado por colegas que riram. Não foi um aprendizado bonito. Mas foi real. E foi suficiente para transformar um homem que só lia o Jornal dos Sports num homem que nunca mais perdeu um telejornal.

A vergonha pode ser motor. A limitação pode ser convite. O desconforto diante de quem nos supera pode ser o melhor presente que recebemos, se tivermos a honestidade de não transformá-lo em ressentimento.

Todos somos medíocres em alguma dimensão. Isso não tem conserto. O que tem é a disposição de não querer continuar a ser e de construir, com essa disposição, os únicos ambientes onde a excelência ainda respira: aqueles em que a diferença de capacidade não é tratada como injustiça, mas como direção.

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