Barra Mansa, Rua Eduardo Junqueira, 184, 18 de outubro de 1942 – 18h30
A última luz do dia morria sobre o Vale do Paraíba. Adler estava imóvel havia tempo demais, escondido atrás do depósito de lenha coberto pela lona verde. A mangueira velha projetava sombra suficiente. Dali, via perfeitamente a porta dos fundos da casa dos Azevedo e a janela da cozinha.
O pomar se estendia entre o depósito e o Rio Paraíba do Sul. Árvores frutíferas esparsas. Goiabeiras. Jabuticabeiras. Espaço suficiente para alguém se mover sem ser visto da rua. Mas não dos fundos.
Adler respirava devagar. Controlado. A Walther PPK pesava sob o paletó. Silenciador rosqueado. Sete balas no carregador. Precisaria de apenas uma.
Ouviu vozes. Aproximando-se pela Rua Eduardo Junqueira. Reconheceu imediatamente: Hans e Isabel.
Adler não se mexeu. Apenas observou.
Eles pararam no portão de ferro. Hans vestia o mesmo terno cinza claro da tarde. Isabel, o vestido azul que realçava seus olhos. Estavam próximos. Mãos entrelaçadas. Ela sorria. Ele não.
Hans olhou ao redor. Movimento rápido. Profissional. Verificando.
Bom instinto. Insuficiente.
Isabel abriu o portão. Entraram no jardim frontal. Caminharam até a porta.
— Obrigada por hoje — disse Isabel, voz suave. — Pelo cinema. Por estar comigo. Por… tudo.
Hans não respondeu imediatamente. Apenas olhou para ela. Longa. Intensamente.
Depois a puxou. Beijou-a. Não foi beijo de despedida educado. Foi beijo urgente. Desesperado. Como homem que sabe que pode ser o último.
Isabel correspondeu. Abraçou-o forte. Quando se separaram, ela estava sem fôlego:
— Henrique… está tudo bem?
— Está — mentiu Hans. — Apenas… te amo. Muito.
— Eu também te amo.
Hans beijou sua testa. Depois a bochecha. Depois os lábios novamente. Rapidamente desta vez.
— Preciso ir. O ônibus sai às sete.
— Eu sei.
Ele a soltou. Caminhou até o portão. Virou-se uma última vez:
— Tranque a porta. Janelas também. Promete?
Isabel riu suavemente:
— Prometo. Está se tornando paranóico, engenheiro Weissmann.
Hans forçou um sorriso. Depois saiu. O portão fechou-se atrás dele.
Isabel ficou parada por alguns segundos. Observando-o se afastar. Depois entrou na casa. A porta fechou-se.
Adler esperou.
Através da janela lateral da sala, viu Isabel acender as luzes. Viu-a tirar o chapéu. Pendurar a bolsa. Caminhar até o fundo da casa.
A cozinha.
Adler moveu-se. Silencioso. Profissional. Atravessou o pomar. Vinte metros. Trinta. Chegou à parede lateral da casa. Encostou-se. Esperou.
Ouviu água correndo. Isabel lavando as mãos. Depois passos. Aproximando-se da janela dos fundos.
A janela abriu-se. Madeira rangendo suavemente. Isabel apenas queria ar fresco. Noite agradável de outubro. Brisa vinda do rio.
Mas para Adler, era convite.
Guardou a Walther. Puxou a faca. Quinze centímetros. Lâmina afiada. Mais silenciosa. Menos arriscada.
Verificou ao redor. Ninguém. O pomar estava escuro. A rua, vazia. Os vizinhos, longe.
Aproximou-se da janela. Um metro. Meio metro.
Isabel estava de costas. Enchendo chaleira. Para chá, provavelmente. Movimento doméstico. Inocente. Último movimento que faria.
Adler colocou a mão no parapeito da janela. Preparou-se para pular.
E então sentiu.
Não viu. Não ouviu. Apenas sentiu.
Presença atrás dele.
Tentou virar-se. Tarde demais.
O fio de aço passou ao redor do pescoço. Apertou. Imediatamente. Sem aviso. Sem palavra.
Adler largou a faca. Levou as mãos ao pescoço. Tentou enfiar os dedos sob o fio. Impossível. Estava enterrado na carne. Cortando. Esmagando traqueia.
Tentou chutar para trás. Acertou algo. Canela. Mas o homem atrás não afrouxou. Apenas apertou mais.
Adler não conseguia respirar. Não conseguia gritar. Apenas um som estrangulado. Gutural.
Tentou alcançar a Walther na cintura. As mãos não obedeciam. Oxigênio faltando. Cérebro desligando.
Girou o corpo violentamente. Tentou derrubar o atacante. Mas Hans — porque só podia ser Hans — moveu-se com ele. Pés firmemente plantados. Puxando o fio. Mantendo tensão constante.
Adler sentiu joelhos fraquejarem. Tentou resistir. Mas o corpo não respondia.
Seus olhos encontraram a janela. Isabel ainda de costas. Enchendo chaleira. Inocente. Viva.
As pernas cederam. Caiu de joelhos. Hans desceu com ele. Mantendo o garrote. Inexorável.
Adler tentou uma última vez. Cotovelo para trás. Fraco. Patético. Não acertou nada.
A visão escureceu nas bordas. Som distante. Como debaixo d’água.
E então ouviu.
Vidro quebrando.
Dentro da casa.
Adler forçou os olhos a focarem. Através da janela aberta. Isabel parada. A chaleira no chão. Fragmentos de porcelana. Água espalhada.
Ela olhava diretamente para eles.
Para Adler morrendo.
Para Hans matando.
Os olhos de Isabel — cor de mel, bonitos, inteligentes — arregalados. Boca aberta. Mas sem som.
Adler tentou estender a mão. Tentou avisar. Tentou…
Nada.
Escuridão completa.
O corpo de Friedrich Adler, quarenta e nove anos, veterano da Grande Guerra, mestre de espionagem da Abwehr, caiu para frente. Rosto batendo na terra úmida do pomar.
Hans manteve o garrote apertado por mais dez segundos. Garantindo. Depois soltou.
O fio de aço estava manchado. Vermelho escuro. Hans guardou-o no bolso automaticamente. Treinamento. Nunca deixar evidência.
Colocou dois dedos no pescoço de Adler. Carótida. Nada.
Morto.
Hans levantou-se. Limpou as mãos na calça. Respiração controlada. Batimento cardíaco voltando ao normal. Adrenalina esvaindo.
E então olhou para a janela.
Isabel ainda estava ali. Imóvel. Como estátua. O vestido azul destacando contra a luz amarela da cozinha.
Os olhos deles se encontraram.
Hans não se mexeu. Não falou. Apenas esperou.
Isabel deu um passo para trás. Depois outro. A mão foi até a boca. Sufocando algo. Grito. Choro. Vômito. Hans não sabia.
Ela não gritou.
Isso o surpreendeu. Mulheres gritavam. Era o que normalmente acontecia. Ao ver morte. Ao ver violência. Ao ver homem que amavam matando outro homem com as próprias mãos.
Mas Isabel não gritou.
Apenas olhava. Processando. Entendendo.
Hans deu um passo em direção à janela. Isabel deu um passo para trás. Sinal claro. Não se aproxime.
— Isabel… — começou Hans. Voz rouca. Garganta seca.
— Não — disse ela. Palavra única. Firme. — Não fale.
Silêncio.
O Rio Paraíba do Sul corria ao longe. Som constante. Indiferente.
— Eu posso explicar — tentou Hans.
— Não — repetiu Isabel. A voz tremendo agora. — Não… não sei se quero explicação.
Ela olhou para o corpo. Adler caído de bruços. Imóvel. Definitivamente morto.
— Quem é ele? — perguntou Isabel.
Hans hesitou. Verdade? Mentira? Meia-verdade?
— Alguém perigoso.
— Perigoso — repetiu Isabel. Não era pergunta. Era eco. Processamento. — Perigoso para quem?
— Para você.
Isabel piscou. Absorvendo.
— Ele veio me matar?
Hans assentiu.
— Por quê?
Hans não respondeu.
— Por quê, Henrique? — insistiu Isabel. A voz subindo. — Por que alguém quereria me matar? Sou professora. Não tenho inimigos. Não…
Ela parou. Os olhos se arregalaram. Compreensão chegando.
— Não sou eu — disse ela, lentamente. — É você. Ele veio me matar por sua causa.
Hans não negou.
Isabel deu mais um passo para trás. As costas tocaram a parede da cozinha.
— Quem é você? — perguntou. — Quem é você realmente?
Hans abriu a boca. Fechou. Não tinha resposta que não destruísse tudo.
— Henrique Weissmann — disse, finalmente. — Engenheiro. Brasileiro. Homem que te ama.
— Mentira — disse Isabel. Não era acusação. Era certeza. — Tudo mentira.
Ela olhou para o corpo novamente. Depois para Hans.
— Você o matou — disse ela. — Com… com fio. Como profissional. Como alguém que já fez isso antes.
Hans não respondeu.
— Já fez? — perguntou Isabel. — Já matou antes?
Silêncio.
— Responda! — A voz dela quebrou. Lágrimas finalmente começando. — Por favor… responda…
— Sim — disse Hans. Simplesmente. Sem desculpa. Sem justificativa.
Isabel cobriu o rosto com as mãos. Soluçou. Corpo tremendo.
Hans deu um passo em direção à janela. Queria pular. Queria abraçá-la. Queria consolá-la.
— Não! — gritou Isabel, levantando a mão. — Não se aproxime!
Hans parou.
— Isabel…
— Quem é você? — perguntou ela novamente. Mãos caindo. Revelando rosto manchado de lágrimas. Olhos vermelhos. Mas ainda aqueles olhos cor de mel que Hans amava. — Não Henrique. Henrique não mata pessoas. Henrique não… não…
Ela não conseguiu terminar.
Hans respirou fundo. Decisão. Final. Irreversível.
Verdade. Toda verdade. Porque mentira já não era opção.
— Meu nome — disse ele, voz baixa, mas clara — não é Henrique Weissmann.
Isabel ficou imóvel.
— É Hans — continuou ele. — Hans Albrecht Krueger. Alemão. Nascido em Munique. Espião da Abwehr. Infiltrado na CSN desde abril de 1941.
As palavras caíram como chumbo.
Isabel não se mexeu. Não falou. Apenas olhava.
— Henrique Weissmann existiu — continuou Hans. — Morreu em 1941. Eu assumi sua identidade. Documentos falsos. Atestado ideológico comprado. Tudo falso.
Silêncio.
— Vim para sabotar — disse Hans. — Para coletar informações. Para destruir a usina se necessário. Mas…
Ele parou.
— Mas? — repetiu Isabel. Voz vazia.
— Mas te conheci — disse Hans. — E tudo mudou.
Isabel riu. Som amargo. Sem alegria.
— Mudou? — disse ela. — Você é espião alemão. O Brasil está em guerra com a Alemanha. Você… você me enganou. Durante meses. Fingiu. Mentiu. Sobre tudo.
— Não sobre te amar — disse Hans. — Isso nunca foi mentira.
— Como posso acreditar? — explodiu Isabel. — Como posso acreditar em qualquer coisa que você diga? Seu nome é mentira! Sua vida é mentira! Você… você…
Ela soluçou novamente. Escorregou pela parede. Sentou-se no chão da cozinha. Cabeça entre as mãos.
Hans observou. Impotente. Pela primeira vez em anos, não sabia o que fazer.
— Isabel — disse ele, suavemente. — Eu traí a Alemanha. Desarmei as bombas. Salvei os trabalhadores. Matei este homem para te proteger. Tudo por você. Porque te amo. Porque…
— Pare — sussurrou Isabel. — Por favor… pare.
Hans parou.
Silêncio longo. Apenas o rio ao longe. E Isabel chorando.
Depois, ela levantou a cabeça. Olhou para Hans através da janela. Os olhos vermelhos. Mas secos agora.
— Quem é você? — perguntou pela terceira vez.
Mas desta vez, Hans entendeu.
Não perguntava seu nome. Não perguntava sua nacionalidade. Perguntava algo mais profundo. Mais fundamental.
Quem é você? Espião ou homem? Alemão ou brasileiro? Hans ou Henrique? Assassino ou amante?
E Hans, pela primeira vez em dezesseis anos — desde Greta, desde Munique, desde tudo desmoronar — não sabia responder.
Porque não sabia mais quem era.
— Não sei — disse ele, honestamente. — Não sei mais.
Isabel olhou para ele. Longa. Intensamente.
Depois levantou-se. Lentamente. Caminhou até a janela. Parou.
Estava a um metro de Hans. Janela aberta entre eles. Barreira invisível. Intransponível.
Hans olhou nos olhos dela. Olhos cor de mel que viam através de todas as máscaras. Que sempre viram.
Hans então disse com a única verdade que restava:
— Não sei. Quero tentar ser alguém que não te destrua. Mesmo que nunca consiga.
Isabel não respondeu.
Apenas olhou para o corpo de Adler. Depois para Hans.
Quem é você?
Barra Mansa, fundos da casa dos Azevedo, 18 de outubro de 1942 – 18h47
Hans não esperou resposta. Não havia resposta possível.
Virou-se. Ajoelhou-se ao lado do corpo de Adler. Trabalho a fazer. Sempre havia trabalho.
Revirou os bolsos metodicamente. Treinamento antigo. Nunca deixar evidência que conecte vítima a assassino.
Bolso interno do paletó: passaporte argentino. Roberto Mendoza, comerciante de Buenos Aires. Falso, obviamente. Guardou.
Bolso direito: carteira de couro. Três mil cruzeiros. Mil dólares americanos. Guardou o dinheiro. Deixou a carteira vazia.
Bolso esquerdo: maço de cigarros. Fósforos. Guardou.
Cintura: Walther PPK. Silenciador rosqueado. Hans desrosqueou, separou. Guardou a arma no cós das calças, nas costas. Silenciador no bolso.
Tornozelo direito: faca de combate. Quinze centímetros. Lâmina ainda limpa. Guardou na bota.
Bolso interno do casaco: envelope. Abriu. Fotografias de Isabel. Três ângulos diferentes. Hans sentiu algo gelado no estômago. Adler a estudara. Planejara meticulosamente.
Queimou as fotografias com os fósforos de Adler. Uma a uma. Assistiu o rosto de Isabel desaparecer em chamas. Depois esmagou as cinzas na terra.
Verificou novamente. Nada mais. Corpo limpo.
Olhou para a janela da cozinha. Isabel não estava mais ali. Luz ainda acesa. Mas vazia.
Entrou na casa. Longe da janela. Longe de mim.
Hans pegou Adler pelos ombros. Arrastou. Corpo pesado. Setenta quilos de músculo e osso mortos. Através do pomar. Em direção ao rio.
Trinta metros. Quarenta. As árvores frutíferas forneciam cobertura. Ninguém veria da rua. Ninguém veria das casas vizinhas.
Chegou à margem. Rio Paraíba do Sul correndo negro sob céu escurecido. Largura de cinquenta metros naquele ponto. Profundidade desconhecida. Mas suficiente.
Hans procurou pedras. Grandes. Pesadas. Encontrou três. Rasgou a camisa de Adler. Amarrou as pedras ao corpo. Peito. Cintura. Tornozelos.
Profissional. Eficiente. Como fizera com Henrique Weissmann verdadeiro. Como fizera com outros.
Empurrou o corpo para água. Adler afundou imediatamente. Bolhas subiram. Depois nada. Apenas rio correndo. Indiferente.
Hans ficou parado na margem. Limpou as mãos na calça. Respirou fundo. Três vezes.
Adler estava morto. Isabel estava viva.
Nada daquilo parecia uma missão concluída.
Olhou para casa dos Azevedo. Luz da cozinha ainda acesa. Depois luz da sala. Isabel movendo-se. Viva. Chocada. Mas viva.
Hans virou-se. Caminhou ao longo da margem. Afastando-se. Não voltaria pela casa de Isabel. Não agora. Talvez nunca mais.
Subiu a margem cem metros adiante. Atravessou terreno baldio. Chegou à Rua Eduardo Junqueira. Verificou o relógio. 19h05.
Perdera o ônibus.
Barra Mansa, Praça da Liberdade, 18 de outubro de 1942 – 19h15
A praça estava vazia. O ônibus da CSN partira há quinze minutos. Apenas alguns operários que perderam o transporte. Conversavam. Fumavam. Esperando táxi ou carona.
Hans aproximou-se de homem de quarenta anos. Magro. Boné sujo.
— Sabe onde posso alugar carro? — perguntou Hans.
O homem estudou-o. Reconheceu.
— Você é Weissmann. O herói.
Hans não respondeu.
— Zé Maria tem Ford — disse o homem. — Aluga por dez cruzeiros até Volta Redonda. Mora ali. — Apontou para casa modesta três quadras adiante.
Hans assentiu. Caminhou.
Encontrou Zé Maria. Cinquenta anos. Barrigudo. Dono de Ford 1936. Preto. Amassado. Mas funcionando.
— Quinze cruzeiros — disse Zé Maria. — Volta Redonda e retorno.
— Dez — disse Hans.
— Doze. Final.
Hans pagou. Entrou. Zé Maria dirigiu.
Durante o trajeto, falou incessantemente:
— Você salvou meu sobrinho. Trabalha no alto-forno. Turno das seis. Teria morrido. Obrigado. Muito obrigado.
Hans não respondeu. Apenas olhava pela janela. Noite completa agora. Estrada de terra. Buracos. Solavancos.
Chegaram à Volta Redonda às 20h30. Hans desceu. Zé Maria partiu.
Alojamento dos engenheiros estava silencioso. Alguns já dormiam. Outros jogavam cartas no refeitório.
Hans entrou no quarto. Roberto dormia. Roncos altos. Outros dois engenheiros também.
Hans deitou-se no beliche superior. Não tirou a roupa. Não tirou as botas. Apenas deitou. Olhando para o teto rachado.
Adler estava morto. Afundado no Paraíba. Ninguém encontraria. Não por semanas. Talvez nunca.
Mas o DOPS viria. Obviamente viria.
Becker e Kohler estavam presos. Sob tortura. Eventualmente falariam. Mencionariam Weissmann. Conexão com sabotagem. E então investigação começaria.
Quanto tempo tinha? Dias. Talvez semana. Não mais.
Precisava fugir.
Argentina. Fronteira a mil quilômetros. Documentos falsos. Dinheiro suficiente. Rota conhecida. Abwehr mantinha safe houses em Buenos Aires. Poderia chegar lá. Esconder-se. Esperar guerra terminar.
Depois? Alemanha. Voltar. Enfrentar consequências da traição. Ou não voltar. Desaparecer. Novo nome. Nova vida. Nova mentira.
Mas Isabel.
Hans fechou os olhos. Viu rosto dela. Olhos arregalados. Boca aberta. Choque. Horror. Compreensão.
Quem é você?
Ela perguntara três vezes. E Hans não soubera responder.
Ela não gritara. Não chamara a polícia. Não denunciara.
Isso podia significar muitas coisas. Hans escolheu acreditar em apenas uma.
Talvez ela entendesse, pensou Hans. Talvez não. Fizera o que era necessário. Protegera-a. Salvara-a. Matara o homem que viera assassiná-la.
O resto não estava mais sob seu controle.
E se entendesse, fugiriam juntos.
Argentina. Depois Europa. Depois… onde quer que pudessem viver. Longe de guerras. Longe de mentiras. Apenas Hans e Isabel. Verdade finalmente possível.
Hans abriu os olhos. Processou o plano.
Esperaria alguns dias. O choque passaria… ou não.
Depois, teria de encontrá-la. Explicar.
Se aceitasse, havia rotas. Dinheiro. Nomes falsos. Sempre houvera.
Se recusasse… Hans interrompeu o pensamento. Não conseguiu processar essa possibilidade.
Ela aceitará. Precisa aceitar. Porque sem ela, fuga não tem sentido. Sem ela, sobrevivência não tem sentido. Sem ela…
Hans virou-se para parede. Fechou os olhos.
Mas não dormiu.
Mente processando. Planejando. Calculando rotas. Documentos necessários. Timing perfeito.
DOPS viria. Mas quando? Becker e Kohler resistiriam quanto sob tortura? Quarenta e oito horas. Setenta e duas no máximo. Depois falariam. Mencionariam Weissmann. Guia que os ajudara. Homem que os traíra.
Mas evidência? Nenhuma. Plantas roubadas foram queimadas. Caderno cifrado, destruído. Adler, morto e afundado. Bolthole em Laranjeiras, abandonado.
Conexão rompida.
A menos que o DOPS investigasse profundamente. A menos que descobrissem Oswaldo Richter. Comerciante morto em 1941. Identidade assumida por Hans. Conexão com Engels. Com rede alemã.
Improvável. Mas possível.
Preciso agir rápido. Antes que conectem. Antes que investiguem. Antes que descubram.
Hans abriu os olhos novamente. Olhou para relógio no pulso. 23h40.
Seis horas até amanhecer. Seis horas de planejamento. Depois, trabalho normal. Vida que segue. Henrique Weissmann, engenheiro exemplar, herói nacional.
Até não poder mais.
Virou-se novamente. Tentou dormir. Impossível.
Mente não parava. Isabel. Adler. DOPS. Fuga. Argentina. Alemanha. Futuro. Passado. Tudo misturado.
Ela entenderá. Precisa entender. Porque fiz por amor. Tudo por amor. Traí Alemanha por ela. Matei por ela. Fugirei por ela. Tudo por ela.
Ela precisa entender.
Precisa.
Volta Redonda, alojamento dos engenheiros, 19 de outubro de 1942 – 05h00
Apito da fábrica soou. Seis toques. Cinco da manhã.
Hans não dormira. Nem um minuto. Apenas deitado. Processando. Planejando.
Levantou-se. Roberto ainda roncava. Outros engenheiros começavam a despertar.
Hans foi ao banheiro. Lavou o rosto. Água fria. Olhou no espelho rachado.
Olhos vermelhos. Barba por fazer. Rosto pálido.
Mas vivo. E Isabel também.
Voltou ao quarto. Trocou de roupa. Calça de brim limpa. Camisa branca. Botas de trabalho.
Walther PPK guardada no fundo do armário. Sob roupas. Junto com dinheiro de Adler. Três mil cruzeiros. Mil dólares.
Passaporte argentino de Adler também guardado. Roberto Mendoza. Não serviria para Hans. Mas poderia ser adaptado. Fotografia trocada. Documentação alterada.
Conhecia falsificador em São Paulo. Alemão. Confiável. Quinhentos cruzeiros para passaporte perfeito.
Guardaria para quando necessário.
Às 05h50, Hans saiu do alojamento. Caminhou até ponto de registro. Fila de operários. Engenheiros. Todos chegando para turno das seis.
Heitor estava lá. Verificando presença. Viu Hans. Sorriu:
— Weissmann! Pensei que tivesse perdido o ônibus ontem.
— Perdi — disse Hans. — Aluguei carro.
— Dedicado — riu Heitor. — Mesmo sendo herói, não falta trabalho.
Hans não respondeu. Apenas pegou o cartão de ponto. Inseriu na máquina. Clack. 06h00.
Registrado. Presente. Vida que segue.
Caminhou até canteiro de obras. Sol nascendo sobre Vale do Paraíba. Vermelho. Como sempre.
Operários já trabalhavam. Soldando. Carregando. Construindo. Normalidade retomada após sabotagem frustrada.
Hans recebeu ordens de Heitor. Verificar fundações do alto-forno. Relatório técnico para Macedo Soares. Prazo: fim da semana.
Trabalho normal. Rotina normal. Como se nada tivesse acontecido.
Como se Hans não tivesse matado homem ontem à noite.
Como se Isabel não soubesse verdade.
Como se tudo não estivesse prestes a desmoronar.
Mas Hans fez o que sempre fizera. Trabalhou. Concentrou-se. Números não mentiam. Estruturas eram previsíveis. Concreto e aço obedeciam leis físicas. Diferente de pessoas. Diferente de amor. Diferente de Isabel.
Ao meio-dia, pausa para almoço. Refeitório lotado. Hans sentou-se em canto. Sozinho. Comeu sem saborear. Arroz. Feijão. Carne dura.
Roberto aproximou-se:
— Weissmann, você está bem? Parece morto.
Hans olhou para ele.
— Não dormi.
— Por que não?
— Pensando.
— Em quê?
— Em tudo.
Roberto estudou-o. Depois sentou-se:
— É Isabel, não é? Você está preocupado com algo. Aconteceu alguma coisa ontem?
Hans hesitou. Verdade? Mentira?
— Discutimos — disse, finalmente. Meia-verdade. — Sobre… futuro.
— Ah — Roberto acenou, compreensivo. — Casamento. Sempre assusta. Normal. Carmem e eu também discutimos sobre isso. Mas passa. Ela te ama. Você a ama. Resto é detalhe.
Hans não respondeu.
— Vai vê-la domingo? — perguntou Roberto.
— Não sei.
— Vai — disse Roberto, firme. — E conversa. De verdade. Honestamente. É única forma de resolver.
Honestamente, pensou Hans. Se ele soubesse quão honesto fui ontem. Quão verdadeiro. E como destruiu tudo.
Mas assentiu.
— Vou pensar.
Roberto bateu em seu ombro. Levantou-se. Voltou para mesa com outros engenheiros.
Hans terminou de comer. Sozinho. Sempre sozinho.
Tarde passou lentamente. Trabalho mecânico. Verificações. Medições. Relatórios.
Às 18h00, turno terminou. Hans voltou ao alojamento. Deitou-se. Tentou dormir.
Não conseguiu.
Mente não parava. Isabel. DOPS. Fuga. Adler afundado no Paraíba. Corpo deteriorando. Eventualmente surgindo. Eventualmente descoberto.
Quanto tempo tenho?
Dias. Talvez semana.
Preciso ver Isabel. Preciso explicar. Preciso…
Preciso que ela me perdoe.
Hans virou-se. Olhou para teto rachado. Lua entrando pela janela sem cortina.
E pela primeira vez desde Greta, desde Munique, desde tudo desmoronar há dezesseis anos, Hans Albrecht Krueger rezou.
Não a Deus. Não acreditava em Deus. Mas a qualquer força que existisse no universo.
Por favor. Deixe-a entender. Deixe-a me perdoar. Deixe-a fugir comigo. Por favor.
Porque sem ela, a fuga perderia o sentido.
E talvez o futuro também.
Fechou os olhos. E desta vez, finalmente, exausto, dormiu.
Sonhou com Isabel. Olhos cor de mel. Perguntando pela quarta vez:
Quem é você?
E Hans, mesmo em sonho, ainda não sabia responder.
