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Capítulo 31 – O Rosto que Voltou dos Mortos

Barra Mansa, estação ferroviária, 20 de outubro de 1942 – 10h30

O trem apitou duas vezes antes de parar completamente. Venâncio Ayres desceu primeiro, pisando com cuidado nos degraus de ferro ainda quentes do sol matinal. Cinquenta anos, ex-militar, postura ereta que nunca relaxava. Terno escuro já mostrando manchas de suor nas axilas. Três horas de viagem desde o Rio em vagão de segunda classe sem ventilação adequada.

Sebastião Prado desceu atrás dele. Quarenta anos, bigode grisalho aparado com precisão, olhos que viam tudo sem parecer ver nada. Carregava duas maletas de couro – uma com documentos, outra com “ferramentas” que o DOPS preferia não nomear em relatórios oficiais.

A estação de Barra Mansa fervilhava com movimento de terça-feira. Operários da CSN chegando e partindo em turnos. Comerciantes carregando mercadorias. Famílias viajando. Vida normal de cidade do interior que crescia rápido demais para sua própria infraestrutura.

Mas para Venâncio e Sebastião, nada era normal. Cada rosto era suspeito potencial. Cada movimento, possível ameaça. Cada sombra, esconderijo de traidor.

– Ali – disse Venâncio, apontando com o queixo.

Ford preto estacionado junto ao meio-fio. Motorista uniformizado encostado no capô, fumando. Quando viu os dois homens de terno aproximando-se, jogou o cigarro no chão, esmagou com a bota, endireitou a postura.

– Delegados? – perguntou, voz tensa.

– Somos – respondeu Venâncio, sem mostrar identificação. Não precisava. O DOPS não mostrava credenciais. Apenas chegava. E todos sabiam.

O motorista abriu a porta traseira. Venâncio e Sebastião entraram. O carro arrancou imediatamente.

Durante o trajeto até a delegacia, nenhum dos dois falou. Venâncio observava a cidade pela janela. A cidade era velha conhecida. Barra Mansa crescera desde sua última visita, em 1938. Mais casas. Mais comércio. Mais gente. Tudo por causa da CSN. A siderúrgica era coração pulsante que bombeava vida – e dinheiro – para a cidade centenária.

Mas também bombeava perigo. Porque onde havia indústria estratégica, havia espionagem. Sempre havia.

Barra Mansa, delegacia de polícia, 20 de outubro de 1942 – 10h55

O edifício ficava na rua da Santa Casa de Misericórdia. Paredes caiadas de branco já descascando. Janelas com grades de ferro. Bandeira nacional tremulando no mastro da entrada.

Álvaro Moreira os esperava na porta. Delegado local do DOPS. Quarenta e cinco anos. Barriga pronunciada de quem bebia cerveja demais e fazia exercício de menos. Rosto avermelhado. Terno amarrotado. Mas olhos atentos. Perigosos quando necessário.

– Senhores – disse Álvaro, estendendo mão suada. – Bem-vindos a Barra Mansa.

Venâncio apertou a mão. Firme. Rápido. Sebastião apenas acenou. Não gostava de apertar mãos.

– Delegado Moreira – disse Venâncio. – Obrigado por nos receber. Imagino que esteja ocupado com o caso.

– Ocupadíssimo – confirmou Álvaro, conduzindo-os para dentro. – Desde domingo, dezoito de outubro. A sabotagem. As bombas. Tem sido… intenso.

O interior da delegacia cheirava a mofo, café requentado e cigarro velho. Corredor estreito. Portas de madeira com placas: “Delegado”, “Arquivo”, “Carceragem”, “Interrogatório”. Tudo funcional. Nada elegante.

Álvaro conduziu-os até sua sala. Pequena. Mesa atulhada de papéis. Arquivo metálico no canto. Duas cadeiras de madeira para visitantes. Ventilador de teto girando lentamente, apenas movendo o ar quente sem refrescá-lo.

– Café? – ofereceu Álvaro, pegando bule esmaltado de cima de fogareiro elétrico improvisado.

– Sim – disse Venâncio. Sebastião balançou a cabeça negativamente.

Álvaro serviu duas xícaras. O café estava forte. Amargo. Requentado pelo menos três vezes. Mas quente. Venâncio bebeu sem reclamar.

Sentaram-se. Venâncio e Sebastião nas cadeiras de madeira. Álvaro atrás da mesa, como anfitrião nervoso recebendo visita indesejada.

– Senhores – começou Álvaro, abrindo gaveta e retirando pasta grossa. – Em que posso ajudar?

– Sabotagem na CSN – disse Venâncio, indo direto ao ponto. Nunca perdia tempo com amenidades. – Precisamos investigar. Todos os funcionários. Especialmente engenheiros e técnicos. Alguém ajudou os alemães. Queremos saber quem.

– Já interrogamos os guardas – disse Álvaro, defensivo. – Oito homens. Faziam ronda na noite da sabotagem. Ninguém viu nada suspeito. Ninguém ouviu nada. As bombas foram plantadas entre rondas. Becker e Kohler conheciam os horários exatos.

– Ou – disse Sebastião, voz suave, mas cortante como lâmina – alguém lhes passou os horários.

Álvaro empalideceu levemente.

– Os guardas são homens honestos. Brasileiros. Pais de família. Não são traidores.

– Todo mundo é traidor – disse Venâncio, calmamente – se o preço for certo. Ou a ameaça for grande o suficiente. Ou o medo for paralisante. Seus guardas honestos têm família? Então têm vulnerabilidade. Os alemães sabem disso. Exploram isso.

Silêncio pesado. Apenas o som do ventilador de teto girando. Creak. Creak. Creak.

– Precisamos acesso total – disse Sebastião, abrindo a maleta e retirando caderneta de couro. – Arquivos de funcionários. Fichas. Atestados ideológicos. Registros de entrada e saída. Tudo.

– A CSN tem seis mil trabalhadores – disse Álvaro, cauteloso. – Vão interrogar todos?

– Se necessário – respondeu Venâncio. Não era blefe. Era promessa. – Mas começaremos pelos que tinham acesso ao alto-forno. Engenheiros. Técnicos de solda. Eletricistas. Quem conhecia a estrutura intimamente.

Ele abriu sua própria maleta. Retirou lista datilografada. Três páginas. Nomes em ordem alfabética. Trinta e cinco ao todo.

– Começamos por eles – disse Venâncio, colocando a lista sobre a mesa de Álvaro. – Hoje. Agora.

Álvaro pegou a lista. Percorreu os nomes. Conhecia muitos. Bons homens. Trabalhadores. Alguns até amigos.

Sebastião acrescentou, voz ainda suave, mas com algo metálico por baixo:

– E Henrique Weissmann de Almeida. Queremos tudo sobre ele. Onde mora. Com quem fala. Aonde vai. Quem visita. Tudo.

Álvaro olhou para cima. Surpreso. Indignado.

– Weissmann? Mas ele é herói. Desarmou as bombas. Salvou vidas. Macedo Soares quer condecorá-lo. Vargas já sabe do feito dele.

– Ou – disse Sebastião, friamente – plantou as bombas e desarmou para parecer herói. Criar problema. Resolver problema. Tornar-se indispensável. Ganhar confiança. E continuar espionando.

Álvaro abriu a boca. Fechou. Não tinha resposta para isso.

– Vocês acham mesmo… – começou ele.

– Não achamos nada – interrompeu Venâncio. – Ainda. Por isso investigamos. E investigação começa com fatos: Weissmann é descendente de alemães. Trabalha na CSN desde abril de 1941. Conhecia perfeitamente a estrutura do alto-forno. Desarmou duas de três bombas em menos de duas horas. Sem medo. Sem hesitação. Como se soubesse exatamente o que encontraria.

Álvaro queria defender Weissmann. Queria gritar que era injustiça. Mas era policial há vinte anos. Sabia que Venâncio tinha razão: coincidências demais eram evidência.

– O que precisam? – perguntou, resignado.

– Sala para interrogatórios – disse Venâncio. – Privada. Sem janelas de preferência. Mesa. Três cadeiras. Café. Muitos cigarros. E todos os arquivos da CSN que tiver. Hoje à tarde começamos.

– Weissmann está aqui? – perguntou Sebastião.

Álvaro ligou para chefia da CSN. Retornou com resposta.

– Não. Viajou hoje cedo para Angra dos Reis. Vistoria de carga importada. Aço estrutural que chegou ontem de navio. Foi com Heitor Carneiro, gerente de engenharia. Voltam amanhã à tarde.

– Perfeito – disse Venâncio. Não era sarcasmo. Era planejamento. – Dá tempo de interrogarmos os outros primeiro. Quando chegarmos em Weissmann, já teremos quadro completo. Saberemos exatamente o que perguntar. E como.

A caçada começara. E Hans Albrecht Krueger, sem saber, estava na mira.

Barra Mansa, delegacia de polícia, sala de interrogatório, 20 de outubro de 1942 – 14h30

A sala não tinha janelas. Apenas uma lâmpada pendurada no teto por fio descascado. Paredes pintadas de verde-hospital descascando. Mesa de madeira riscada. Três cadeiras de madeira com assento duro.

Venâncio e Sebastião sentavam-se de um lado. Do outro, o primeiro interrogado: Paulo Guimarães, engenheiro civil, paulista, vinte e oito anos. Trabalha na CSN desde maio de 1941.

O rapaz estava nervoso. Mãos tremendo levemente. Suor na testa apesar da sala estar fria.

– Senhor Guimarães – começou Sebastião, voz amigável, quase paternal. Boa polícia. Sempre começava com boa polícia. – Obrigado por vir. Sabemos que está ocupado. Não tomaremos muito tempo.

– Claro – disse Paulo, voz um pouco aguda. – Quero ajudar. Qualquer coisa que precisarem.

– Ótimo – sorriu Sebastião. – Então vamos direto ao ponto. Na noite de dezesste para dezoito de outubro, onde você estava?

– Dormindo. No alojamento. Quarto número doze. Divido com três colegas. Roberto Alcântara, Mário Silva e… e Henrique Weissmann.

Venâncio e Sebastião trocaram olhar rápido.

– Weissmann é seu colega de quarto? – perguntou Venâncio.

– Sim. Há um ano e meio. Desde que eu cheguei.

– Como ele é? – Sebastião fez a pergunta parecer casual. Conversa de botequim. – Como pessoa?

Paulo hesitou. Pensou.

– Quieto. Muito quieto. Trabalha demais. Lê muito. Livros alemães sobre metalurgia. Não fala muito sobre si mesmo. Mas é… bom homem. Confiável. Me ajudou várias vezes com cálculos estruturais. É muito inteligente.

– Amigos? – perguntou Venâncio. – Weissmann tem muitos amigos?

– Não muitos – admitiu Paulo. – No começo era mais isolado. Mas depois que jogou futebol com a gente, melhorou. Batistão – João Batista da Silva, operário – gostava muito dele. E Roberto, claro. E Heitor Carneiro, o gerente.

– Batistão – repetiu Sebastião, consultando anotações. – O operário que foi preso por organizar greve?

– Sim – Paulo baixou voz. – Nunca mais soubemos dele. Dizem que está no Rio. Mas… ninguém sabe ao certo.

Venâncio anotou em caderneta. Depois:

– Na noite de dezessete para dezoito, Weissmann estava no quarto?

Paulo pensou. Depois:

– Acho que sim. Chegou por volta da meia noite, depois de terminar o último turno. Eu estava meio acordado. Ele deitou. Dormiu. Ou fingiu dormir. Não sei.

– Fingiu dormir? – Sebastião levantou sobrancelha.

– Não sei – Paulo corrigiu rapidamente. – É que Weissmann… às vezes parece que está dormindo, mas está pensando. Sabe? Fica muito quieto. Imóvel demais.

– Ele saiu durante a noite?

– Não sei dizer. Apaguei depois que ele se deitou. Quando acordei, às duas, com o chamado de emergência, ele estava lá. No beliche superior.

– Então entre meia-noite e duas da manhã, ele pode ter saído?

Paulo hesitou.

– Pode. Mas… não acho que saiu. Roberto ronca muito. Acorda quando alguém se move. E ele não acordou.

Venâncio e Sebastião trocaram outro olhar. Roberto seria interrogado também.

– Weissmann tem namorada? – perguntou Sebastião, mudando de assunto.

Paulo sorriu pela primeira vez:

– Tem. Isabel de Azevedo. Professora. Linda moça. Família tradicional de Barra Mansa. Eles namoram há meses. Weissmann está apaixonado. Nunca vi ele assim. Está… diferente. Mais leve. Menos fechado.

– Ele vai à casa dela?

– Aos domingos. Todo domingo. Passa a tarde lá. Volta feliz. É a única vez que vejo ele realmente feliz.

– E aos sábados? – Venâncio folheou anotações. – Alguém mencionou que ele viaja aos sábados. Primeiro sábado de cada mês.

Paulo franziu a testa:

– Sim. Ao Rio. Busca livros técnicos, ele diz. Na Biblioteca Municipal. Ou em sebos. Volta sempre com algum livro alemão velho.

– Sempre primeiro sábado?

– Sempre – confirmou Paulo. – Como ritual. Roberto brinca que ele tem amante no Rio. Mas não tem. Weissmann não é assim. É… fiel. Leal.

Sebastião anotou: “Primeiro sábado cada mês. Rio. Padrão suspeito.”

O interrogatório continuou por mais trinta minutos. Detalhes sobre rotina de trabalho. Horários. Colegas. Hábitos. Tudo anotado. Catalogado. Processado.

Quando Paulo saiu, aliviado, Venâncio olhou para Sebastião:

– Opinião?

– Inocente – disse Sebastião. – Mas útil. Confirmou o padrão: Weissmann viaja ao Rio primeiro sábado de cada mês. Isso é dead drop. Clássico.

– E a namorada?

– Pode ser disfarce. Ou vulnerabilidade. Veremos.

Barra Mansa, delegacia de polícia, 20 de outubro de 1942 – 17h45

Sete interrogatórios. Sete engenheiros e técnicos. Todos disseram variações da mesma coisa: Weissmann era quieto, competente, confiável. Nenhum viu nada suspeito. Nenhum sabia de qualquer envolvimento com alemães.

Ou mentiam muito bem. Ou realmente não sabiam.

Álvaro Moreira entrou na sala com pasta grossa:

– Senhores. A ficha completa de Henrique Weissmann de Almeida. Tudo que temos.

Venâncio pegou. Abriu. Folheou:

NOME COMPLETO: Henrique Weissmann de Almeida

NASCIMENTO: 15/03/1906 – Florianópolis, Santa Catarina

PAIS: Wilhelm Weissmann e Greta Weissmann (falecidos 1928)

FORMAÇÃO: Engenharia Metalúrgica, Carnegie Institute of Technology (EUA), 1924-1928. Especialização École des Mines de Nancy (França), 1928-1929

EMPREGO ANTERIOR: Metalúrgica Nestor de Goes Ltda, Santo André, 1935-1941 ADMISSÃO CSN: Abril 1941

ATESTADO IDEOLÓGICO: Expedido DOPS Rio de Janeiro, 18/04/1941. Sem antecedentes.

RESIDÊNCIA ATUAL: Alojamento CSN, Quarto 12

ESTADO CIVIL: Solteiro

OBSERVAÇÕES: Desarmou duas bombas em 18/10/1942. Recomendado para condecoração.

Havia fotografia anexada. Perfil lateral. Não frontal. Homem de aproximadamente trinta e oito anos. Cabelos escuros. Estrutura óssea europeia. Mas a foto era má. Desfocada. Tirada de longe.

Venâncio estudou a foto. Algo incomodava. Não conseguia identificar o quê. Sensação de déjà-vu. Como se já tivesse visto aquele rosto. Mas onde?

– Conhece ele? – perguntou Sebastião, notando expressão de Venâncio.

– Não sei – admitiu Venâncio. – Mas… algo está errado. Não consigo dizer o quê.

Sebastião pegou a ficha. Leu também. Depois olhou para fotografia.

E congelou.

Não pode ser, pensou. Impossível.

Mas quanto mais olhava, mais certeza tinha.

– Venâncio – disse ele, voz estranhamente controlada. – Você se lembra de Oswaldo Richter?

Venâncio levantou olhos:

– Richter? O comerciante de Santos que investigamos em 1940? Identidade falsa. Espião alemão. Morreu em incêndio em janeiro de 1941?

– Morreu – repetiu Sebastião. – Ou fingiu que morreu?

Ele colocou fotografia de Weissmann sobre a mesa.

– Henrique Weissmann é Oswaldo Richter. Noventa por cento de certeza – disse Sebastião. – Preciso ver ele pessoalmente para ter cem. Mas noventa por cento já é suficiente.

Álvaro Moreira, que assistia sem entender, perguntou:

– Do que estão falando?

Sebastião virou-se para ele:

– Henrique Weissmann de Almeida não existe. Ou melhor, existiu. Mas morreu. E quem está usando seu nome é Oswaldo Richter. Que também não existe. Ou morreu. Ou fingiu morrer. E quem está usando o nome de Richter – ou Weissmann – é Hans Krueger. Espião alemão. Abwehr. O nome que Kohler mencionou antes de morrer.

O silêncio que desceu sobre a sala tinha peso físico.

– Tem certeza? – perguntou Álvaro, voz rouca.

– Quase absoluta – respondeu Sebastião. – E saberemos com certeza amanhã. Quando Weissmann voltar de Angra. Vou reconhecê-lo imediatamente. Passei três meses vigiando Richter em 1940. Conheço cada movimento. Cada gesto. Cada tique nervoso.

Venâncio pegou a fotografia. Olhou novamente. Depois:

– Se estiver certo… se Weissmann for mesmo Richter… então ele não plantou as bombas para parecer herói. Ele era o guia. O infiltrado. O homem de dentro que Becker e Kohler precisavam. E depois traiu Adler. Por quê?

– A namorada – disse Sebastião imediatamente. – Isabel de Azevedo. Paulo disse que Weissmann mudou depois que conheceu ela. Ficou “mais leve”. “Menos fechado”. Adler deve ter ameaçado a moça. E Weissmann escolheu ela sobre o Reich.

– Romântico – disse Venâncio, sem humor. – E patético. Espião que trai por amor é espião morto.

Ele olhou para Álvaro:

– Preciso telegrafar para a sede. Urgente. Quero a pasta completa do caso Oswaldo Richter. Tudo. Investigação de 1940. Relatórios de vigilância. Fotografias. Conexões. Tudo que temos.

– Agora? – Álvaro olhou para relógio. 17h55.

– Agora – confirmou Venâncio. – E quero resposta até amanhã de manhã. Antes de Weissmann voltar. Quando ele chegar, quero estar preparado. Com provas. Com dossiê completo. E com plano para pegá-lo.

Álvaro assentiu. Saiu rapidamente.

Venâncio e Sebastião ficaram sozinhos na sala. Olhando para a fotografia. Richter e Weissmann. Ou a mesma pessoa com dois nomes. Ou três.

– Hans Krueger – disse Venâncio, experimentando o nome. – Quem é você?

Sebastião acendeu cigarro. Fumou. Pensou.

– Quem quer que seja – disse ele, finalmente –, amanhã descobriremos. E quando descobrirmos…

Não terminou. Não precisava. Ambos sabiam o que o DOPS fazia com espiões capturados em tempo de guerra.

Não havia julgamento. Não havia advogado. Não havia habeas corpus.

Apenas interrogatório. Tortura. E…

Barra Mansa, 20 de outubro de 1942 – 19h30

Venâncio e Sebastião jantavam em silêncio numa pensão da cidade. Bife com batatas. Arroz. Feijão. Cerveja Antarctica. Comida simples de interior.

Mas nenhum dos dois tinha apetite. Comiam mecanicamente. Processando. Planejando.

– Como faremos? – perguntou Venâncio, finalmente.

– Deixe-o voltar – disse Sebastião. – Deixe-o achar que está seguro. Que é herói. Que o perigo passou. Depois, quando menos esperar, pegamos. Rápido. Violento. Sem chance de fuga. Sem chance de aviso.

– E a namorada?

Sebastião pensou.

– Pode ser cúmplice. Ou vítima. Precisamos saber. Interrogá-la também. Separadamente. Ver se histórias batem.

– E se Weissmann perceber que estamos aqui? Se alguém avisar?

– Então foge – admitiu Sebastião. – Por isso não podemos dar sinais. Nada de interrogar pessoas próximas dele. Nada de vigiar sua namorada. Nada que o alerte. Esperamos. Pacientes. Como caçadores esperando animal voltar para armadilha.

– E se ele não voltar? Se Angra dos Reis for fuga?

Sebastião balançou cabeça:

– Não é. Álvaro confirmou: Weissmann foi com Heitor Carneiro. Viagem oficial. Carga real chegou ontem. Inspeção legítima. E Weissmann não sabe que Kohler falou. Não sabe que o nome “Hans Krueger” está nos nossos arquivos. Não sabe que Sebastião Prado – o homem que o vigiou como Richter em 1940 – está em Barra Mansa.

Ele bebeu cerveja. Continuou:

– Weissmann se sente seguro. É herói. Salvou a usina. Tem namorada. Tem vida. Futuro. Ele pensa que escapou. Que a identidade Weissmann é sólida. Que Richter morreu em 1941 e nunca mais voltará.

– Mas voltou – disse Venâncio.

– Mas voltou – confirmou Sebastião. – Através de mim. Eu sou o fantasma do passado dele. E amanhã, quando eu olhar em seus olhos, saberei. Com cem por cento de certeza.

Terminaram de comer em silêncio. Subiram para os quartos. Separados.

Sebastião trancou a porta. Deitou na cama. Pensou no caso antigo. Oswaldo Richter. Investigação 1940.

Pensou em tudo que conseguia lembrar. Relatórios de vigilância. Anotações de Sebastião e Mário Bento. Fotografias. Encontro com Friedrich Adler em 5 de dezembro de 1940.

E o relatório final: “Incêndio no escritório de Richter. Corpo carbonizado. Identificação por documentos. Morte confirmada. Caso encerrado.”

Caso encerrado, pensou Sebastião. Mas não estava. Porque Richter não morreu. Apenas trocou de pele. Como cobra. Como espião.

Não dormiu. Apenas esperou.

O amanhecer chegaria. E com ele, Hans Krueger/Oswaldo Richter/Henrique Weissmann.

E o passado, finalmente, alcançaria o presente.

Rio de Janeiro, sede do DOPS, 20 de outubro de 1942 – 22h15

O telegrafista de plantão bateu na porta do escritório do Coronel Coriolano:

– Senhor. Telegrama urgente. Barra Mansa. Delegado Venâncio Ayres.

Coriolano pegou o formulário. Leu:

DE: VENÂNCIO AYRES – DOPS BARRA MANSA

PARA: CORONEL CORIOLANO – DOPS RIO

URGENTE – CONFIDENCIAL

POSSÍVEL IDENTIFICAÇÃO POSITIVA STOP HENRIQUE WEISSMANN = OSWALDO RICHTER STOP 90% CERTEZA BASEADO ANÁLISE FOTOGRÁFICA STOP SOLICITO URGENTE PASTA COMPLETA CASO RICHTER ANO 1940 STOP SEBASTIÃO PRADO RECONHECERÁ PESSOALMENTE AMANHÃ STOP SE CONFIRMADO TEREMOS ESPIÃO INFILTRADO NÍVEL MAIS ALTO CSN STOP AGUARDO INSTRUÇÕES PROCEDIMENTO CAPTURA STOP VENÂNCIO

Coriolano releu três vezes. Depois pegou telefone. Discou número interno. Arquivo geral.

– Aqui é o Coronel Lima. Preciso da pasta completa do caso Oswaldo Richter. São Paulo. Ano 1940. Investigação Venâncio Ayres e Sebastião Prado. Tudo. Agora. Mande para Barra Mansa no primeiro trem da manhã. Entregar pessoalmente a Venâncio Ayres.

Desligou. Acendeu cigarro. Fumou. Pensou.

Se Venâncio estava certo, se Weissmann era mesmo Richter, então tinham em mãos o maior espião alemão ainda ativo no Brasil. Infiltrado na obra mais estratégica do país. Com acesso a segredos que poderiam comprometer toda a CSN.

E Coriolano queria isso. Não a captura rápida. A captura lenta. Controlada. Porque Hans Krueger/Richter/Weissmann tinha informações. Conexões. Conhecia a rede. Conhecia Adler. Conhecia outros agentes.

E sob tortura apropriada, falaria. Todos falavam.

Coriolano pegou papel e caneta. Escreveu telegrama de resposta:

DE: CORONEL CORIOLANO – DOPS RIO

PARA: VENÂNCIO AYRES – DOPS BARRA MANSA

URGENTE – CONFIDENCIAL

PASTA RICHTER ENVIADA PRIMEIRO TREM MANHÃ STOP CONFIRME IDENTIFICAÇÃO PESSOALMENTE ANTES CAPTURA STOP SE POSITIVA: NÃO PRENDA IMEDIATAMENTE STOP ESTABELEÇA VIGILÂNCIA 24H STOP IDENTIFIQUE TODOS CONTATOS STOP DEIXE AGIR NORMALMENTE ATÉ NOVA ORDEM STOP QUEREMOS REDE COMPLETA NÃO APENAS UM AGENTE STOP PACIÊNCIA É FUNDAMENTAL STOP CORIOLANO

Chamou o telegrafista. Entregou o texto. O homem saiu correndo.

Coriolano voltou para cadeira. Abriu garrafa de uísque que guardava na gaveta. Serviu dose generosa. Bebeu.

Hans Krueger. Nome que aparecera em interrogatório de Kohler. Nome que ninguém conhecia. Nome que não existia em arquivos.

Mas agora tinha rosto. Tinha história. Tinha identidades múltiplas.

E estava em Barra Mansa. Inconsciente. Confiante. Apaixonado.

Vulnerável.

Coriolano sorriu. Sorriso sem humor. Sem humanidade.

– Hans Krueger – disse ele, erguendo o copo em brinde solitário. – Bem-vindo ao inferno.

Bebeu. O uísque queimou. Mas não tanto quanto o que esperava Hans Krueger quando o DOPS finalmente o pegasse.

Porque espião capturado não tinha direitos. Não tinha proteção. Não tinha futuro.

Tinha apenas dor. E morte. E talvez, se falasse rápido o suficiente, morte rápida em vez de lenta.

Mas mesmo rápida, era morte.

E o cerco, lenta e inexoravelmente, fechava-se.

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