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A Última Fronteira

Voltei a treinar faz pouco tempo. E logo na segunda semana aconteceu o que eu já sabia que aconteceria.

Estava na cadeira abdutora quando uma jovem de talvez vinte anos entrou na sala e se posicionou exatamente no meu ângulo de visão. O short era, digamos, desproporcional ao ambiente. E imediatamente comecei a fazer o que qualquer homem casado de meia idade com algum resíduo de senso faz nessa situação: uma ginástica discreta para garantir que ela não estivesse no meu campo visual, e que ninguém ao redor pudesse imaginar que estava.

A razão? Minha esposa, que treina na mesma academia, no mesmo horário. Verdade. Mas não só ela. Havia outra razão, mais antiga e mais interessante: a vergonha. A vergonha de ser confundido com aquele homem: o de meia idade, casado, que fica lançando olhares para meninas jovens como se ninguém estivesse vendo. Tenho uma imagem a zelar. E a vergonha me lembrou disso antes que eu precisasse pensar.

Fiquei um tempo pensando nesse episódio trivial depois. Porque algo nele me incomodou. Não a situação em si, mas o fato de eu ter reconhecido imediatamente o mecanismo que estava operando. E de ter percebido o quanto esse mecanismo está, sistematicamente, sendo desmontado.

A vergonha sempre foi uma das tecnologias morais mais importantes da civilização. O que estamos vivendo, talvez, seja justamente a erosão dessa tecnologia.

Hoje, a vergonha costuma aparecer no vocabulário clínico e terapêutico como sinônimo de trauma, repressão, dano psicológico. E há casos em que isso é inteiramente correto. A vergonha patológica, aquela que paralisa, que corrói a identidade, que nasce da humilhação e não da consciência moral, é genuinamente destrutiva. Não há dúvida.

Mas a discussão contemporânea, ao tratar toda vergonha como disfunção, jogou fora algo que as sociedades levaram milênios para construir: a vergonha saudável. Aquela que não destruía a identidade, mas a formava. Que não paralisava, mas continha. Que não era sofrimento gratuito, mas limite interiorizado.

Sociedades estáveis nunca foram reguladas apenas por leis. Leis chegam depois. O que vem antes, o que torna a lei menos necessária, é o conjunto de freios internos que as pessoas desenvolvem ao longo da formação: a noção de que certos comportamentos são indignos, não apenas ilegais. Que há coisas que não se faz não por medo da punição, mas por não suportar ser o tipo de pessoa que as faz.

A escola e a família foram, durante séculos, os principais espaços de transmissão desse repertório. Não apenas de conteúdos, mas de contenção. Ensinava-se o limite não como opressão, mas como forma: aquilo que dá forma ao caráter, que distingue o impulso da ação, o desejo da conduta. A pedagogia pressupunha que a criança não nasce pronta para viver em sociedade e que parte da tarefa de formá-la é justamente cultivar freios internos suficientemente sólidos para que o controle externo seja necessário o menos possível.

Isso não era ingenuidade. Era uma compreensão bastante lúcida de como a convivência funciona. Aristóteles chamava de “aidos”, a reverência, o pudor, a consciência do olhar do outro como regulador da própria conduta. Não a servidão ao olhar alheio, mas a interiorização de que não vivemos sozinhos, e que esse fato impõe obrigações.

A promessa era que, sem a vergonha, seríamos mais livres. Não ficamos mais livres. Ficamos mais dependentes do olhar alheio.

A cultura digital fez algo sofisticado e perigoso: inverteu o valor da exposição. Durante séculos, a vergonha operava justamente pela delimitação entre o público e o privado. Havia coisas que pertenciam ao domínio íntimo, ao sagrado pessoal, poderíamos dizer, e que perderiam algo essencial ao serem exibidas. Nem tudo precisava ser narrado. Nem tudo precisava ser mostrado.

As redes sociais transformaram essa lógica em seu oposto: a exposição virou capital simbólico. Quanto mais visível, mais validado. Comportamentos que antes produziriam vergonha agora produzem engajamento. A humilhação vira conteúdo. A degradação vira entretenimento. A intimidade vira performance. E os algoritmos que governam essa dinâmica não foram projetados para recompensar a contenção; foram projetados para recompensar a desinibição, porque a desinibição gera reação, e reação gera dados.

O sujeito que emerge desse ambiente não teme a reprovação. Teme a irrelevância. Não sente vergonha de agir indignamente. Sente vergonha de não ser visto. E esse deslocamento; da vergonha moral para a vergonha da invisibilidade, é uma mudança civilizacional de primeira ordem, cujos efeitos sobre a formação das novas gerações ainda estamos apenas começando a compreender.

Na prática, isso se traduz em algo que qualquer educador reconhece imediatamente: adultos com medo de corrigir. Pais que hesitam em impor limites porque qualquer limite é rapidamente lido como autoritarismo, repressão, violação da autonomia da criança. Professores que evitam a tensão pedagógica necessária porque a tensão pode ser filmada, editada e convertida em denúncia nas redes. Gestores que administram o conflito com a lógica da visibilidade, não da formação.

O resultado é uma geração que cresce sem desenvolver freios internos suficientemente sólidos. Não por maldade dos pais ou incompetência dos professores, mas porque o ambiente cultural que envolve essa formação trabalha sistematicamente contra ela. Uma criança que nunca experimentou a contenção interiorizada, que nunca sentiu o desconforto regulador da vergonha saudável, não aprendeu a se governar. E uma sociedade composta por pessoas que não sabem se governar precisa, progressivamente, de mais controle externo para funcionar. Mais normas. Mais vigilância. Mais aparato. Menos liberdade.

Voltando à academia: o pequeno gesto de reposicionar a cadeira para não parecer o que eu não quero ser foi, no fundo, um ato de autorregulação. Ninguém me obrigou. Não havia lei. Não havia câmera apontada para mim, ou havia, mas não era essa a razão. A razão era mais antiga e mais interna: a consciência de que há um tipo de homem que não quero ser, e que essa consciência me cabe custodiar.

Isso é o que a vergonha saudável faz. Não nos diminui. Nos lembra quem queremos ser. E talvez o maior desafio da educação contemporânea não seja ensinar mais conteúdo, desenvolver mais competências ou acompanhar mais tecnologia. Seja recuperar, com honestidade e sem nostalgia, o que significa formar pessoas capazes de sentir a vergonha certa.

Uma civilização que perdeu a vergonha não encontrou a liberdade. Encontrou apenas um controle que ainda não reconhece como tal.

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