Barra Mansa, delegacia de polícia, 21 de outubro de 1942 – 11h45
O telegrama chegara às 09h30. Curto. Urgente. Codificado.
REMETENTE: DOPS RIO – CORONEL CORIOLANO
DESTINATÁRIO: DELEGADO SEBASTIÃO PRADO – BARRA MANSA
DATA: 21.OUT.1942 – 08h15
DOSSIÊ OSWALDO RICHTER SEGUE MALA DIRETA TREM 07H00 STOP CHEGADA PREVISTA 11H30 STOP FOTOGRAFIA INCLUÍDA STOP PRIORIDADE MÁXIMA STOP CONFIRME RECEBIMENTO STOP MÜLLER
Sebastião Prado estava na plataforma da estação ferroviária quando o trem chegou. Pontual. Sempre pontual. O mala direta desceu do vagão de carga. Envelope grosso. Lacrado. Carimbo vermelho: CONFIDENCIAL – DOPS.
Sebastião assinou o recibo. Guardou o envelope sob o braço. Não abriu ali. Muita gente. Muitos olhos. Voltou para a delegacia a pé. Quinze minutos de caminhada sob sol forte de meio-dia.
Delegacia de Polícia de Barra Mansa ocupava prédio austero na rua da Santa Casa de Misericórdia. Grades nas janelas. Viatura Ford preta estacionada em frente. Guarda na porta. Lugar que irradiava autoridade e medo em doses iguais.
Sebastião foi diretamente para sala de investigações do DOPS. Fundos. Sem janelas para rua. Mesa grande. Cadeiras de madeira. Arquivo metálico. Máquina de escrever Remington. Telefone preto.
Venâncio Ayres estava lá, fumando, estudando mapa da CSN pela décima vez. Levantou-se quando Sebastião entrou:
– Chegou?
– Chegou.
Sebastião colocou o envelope sobre a mesa. Os dois homens olharam para ele como arqueólogos diante de artefato precioso. Porque era. Aquele envelope continha verdade. Ou pelo menos, fragmento de verdade que transformaria suspeita em certeza.
Venâncio pegou canivete. Cortou lacre cuidadosamente. Abriu. Dentro, pasta de papelão marrom. Grossura de três centímetros. Peso considerável.
Na capa, etiqueta datilografada:
CASO Nº 1847/1940
OSWALDO RICHTER
SUSPEITO ESPIONAGEM – REDE ALEMÃ
STATUS: FORAGIDO (PRESUMIDO MORTO – INCÊNDIO 02.01.1941)
INVESTIGADORES: DEL. VENÂNCIO AYRES / DEL. SEBASTIÃO PRADO
DOPS SÃO PAULO
Sebastião abriu a pasta. Primeiro documento: relatório inicial. Datilografado. Três páginas. Resumo do caso. Leu em voz alta para Venâncio:
“Oswaldo Richter. Brasileiro. Nascimento: 15.03.1905, Blumenau-SC. Pais: Wilhelm e Greta Richter (alemães naturalizados). Formação: Engenharia, São Paulo. Profissão declarada: importador/exportador. Escritório: Santos-SP. Atividade suspeita desde novembro 1940…“
Sebastião pulou parágrafos. Chegou ao trecho crucial:
“Investigação revelou inconsistências na identidade. O verdadeiro Oswaldo Richter faleceu em 1935 (acidente automobilístico, corpo cremado). Indivíduo usando nome ‘Richter’ desde 1936 é impostor. Identidade real: desconhecida. Possível agente Abwehr…“
Continuou lendo:
“05.12.1940: Richter recebeu visita de Friedrich Adler (adido cultural Embaixada Alemã, identificado posteriormente como coordenador Abwehr no Brasil). Reunião durou 30 minutos. Fotografia anexa…“
Sebastião virou página. E ali estava.
Fotografia. Preto e branco. Granulada. Tirada de longe com teleobjetiva. Mas clara o suficiente.
Dois homens saindo de edifício comercial em Santos. Rua XV de Novembro. Placa visível: “Oswaldo Richter – Importação e Exportação – 3º Andar”.
Friedrich Adler à esquerda. Quarenta e sete anos. Terno branco. Chapéu panamá. Óculos escuros. Inconfundível.
E à direita…
Sebastião segurou a fotografia. Estudou. Memorizou cada detalhe.
Homem de aproximadamente trinta e cinco anos. Altura: um metro e oitenta, talvez um metro e oitenta e dois. Constituição: atlética, mas magra. Cabelos: castanhos escuros, penteados para trás. Rosto: angular, pômulos altos, nariz reto. Olhos: não era possível ver cor na foto P&B, mas formato era distintivo – levemente fundos, europeus.
Sebastião colocou a fotografia ao lado de outra que tirara do dossiê de Henrique Weissmann que viera junto da pasta do caso Richter. Fotografia menor. Menos nítida. Mas suficiente.
Henrique Weissmann de Almeida. Tirada em abril de 1941 quando solicitara atestado ideológico no DOPS Rio. Foto de documentação. Frontal. Neutra.
Mesmo homem.
Não havia dúvida possível. O formato do rosto. A linha da mandíbula. O jeito como cabelos cresciam na testa. A orelha esquerda – ligeiramente mais proeminente que direita. Detalhe pequeno. Mas identificador único.
Venâncio aproximou-se. Olhou ambas as fotografias lado a lado. Depois olhou para Sebastião.
– É ele.
– É ele – confirmou Sebastião, a voz sem emoção. Mas por dentro, adrenalina. Caçadores sentiam isso. Momento em que presa é localizada. Identificada. Cercada.
Venâncio sentou-se pesadamente.
– Então Henrique Weissmann de Almeida não existe. É Oswaldo Richter. Que também não existe. Que na verdade é… quem?
Sebastião folheou resto da pasta. Relatórios de vigilância. Dezembro 1940. Viagens mensais ao Rio. Dead drops suspeitos. Contatos com alemães conhecidos. E então, final:
“02.01.1941: Incêndio no escritório de Richter. Corpo carbonizado encontrado. Identificação preliminar: Oswaldo Richter. Investigação arquivada como ‘morte acidental’. NOTA INVESTIGADOR PRADO: Corpo muito danificado para identificação conclusiva. Suspeito de encenação. Recomendo continuidade investigação. DECISÃO MÜLLER: Arquivar por falta de recursos. Guerra iminente. Priorizar casos ativos.“
Sebastião lembrou. Janeiro de 1941. Ele insistira. Queria continuar investigando. Mas Filinto Müller cortara. Recursos limitados. Dezenas de casos simultâneos. E Richter, aparentemente morto, não era mais prioridade.
Erro, pensou Sebastião agora. Grande erro. Porque Richter não morrera. Apenas mudara de nome. De Oswaldo Richter para Henrique Weissmann. E infiltrara-se na maior obra industrial do Brasil.
Venâncio interrompeu devaneio:
– E o nome real? Hans Krueger. Kohler falou. Hans Krueger é o nome verdadeiro.
– Provavelmente – concordou Sebastião. – Mas não temos certeza. Kohler estava sob tortura. Poderia ter inventado. Ou confundido. Precisamos de confirmação.
– Como?
Sebastião olhou para relógio de parede. 12h15. Weissmann retornaria de Angra dos Reis hoje à tarde. Trem das 17h00. Chegada prevista às 19h30 em Barra Mansa. Heitor Carneiro confirmara por telefone ontem à noite.
– Amanhã – disse Sebastião, calmamente – Weissmann virá depor. Aqui. Nesta sala. E eu vou olhar nos olhos dele. E vou saber.
– Como vai saber?
– Porque – Sebastião acendeu cigarro, primeira vez desde chegada da pasta – eu o segui durante dois meses em 1940. Estudei cada movimento. Cada gesto. Cada maneirismo. Conheço Oswaldo Richter melhor que ele pensa. E quando Henrique Weissmann entrar por aquela porta…
Apontou para porta de madeira maciça.
– …vou reconhecê-lo. Não apenas pela fotografia. Mas pelo jeito de andar. De sentar. De segurar cigarro. Pequenos detalhes que ninguém consegue mudar completamente. Porque identidade pode ser forjada. Mas corpo tem memória. E memória trai.
Venâncio não respondeu. Apenas fumou. Processando.
Sebastião continuou, voz baixa, quase falando para si mesmo:
– A questão não é mais SE Weissmann é impostor. É QUEM ele realmente é. Hans Krueger? Possível. Provável. Mas precisamos de prova definitiva. Confissão. Ou flagrante.
– E como conseguimos?
Sebastião sorriu. Sorriso de predador.
– Deixamos ele acreditar que escapou. Que passou no teste. Que somos idiotas que acreditam no atestado ideológico falso e na carta de recomendação. Liberamos. E vigiamos. Vinte e quatro horas. Sete dias por semana. Até ele cometer erro. E vai cometer. Porque agora está sob pressão. Adler foragido. Becker e Kohler presos. Rede desmantelada. Ele está sozinho. Desesperado. E pessoas desesperadas erram.
Venâncio assentiu lentamente.
– E se não errar?
– Vai errar – disse Sebastião, confiante. – Sempre erram.
Barra Mansa, estação ferroviária, 21 de outubro de 1942 – 19h35
O trem chegara com cinco minutos de atraso. Hans Albrecht Krueger – ainda Henrique Weissmann em todos documentos, pensamentos, gestos – desceu do vagão com mala pequena e cansaço imenso.
Angra dos Reis fora extenuante. Dois dias supervisionando descarregamento de trinta toneladas de aço estrutural importado dos Estados Unidos. Vigas. Chapas. Tubos. Material crítico para conclusão do alto-forno. Calor infernal. Estivadores lentos. Burocracia portuária kafkiana.
Mas agora estava de volta. E em alguns dias veria Isabel. Domingo. Dia de folga. Ela já teria superado vê-lo matando Adler. Certeza. Praça da Matriz. Sorvete. Conversas sem fim sobre livros que ela lia e ele fingia entender. Normalidade. Paz. Coisas que Hans aprendera a valorizar apenas após anos fingindo ser outra pessoa.
Heitor Carneiro o esperava na plataforma. Tinha voltado à Barra Mansa antes. Primeiro trem da manhã. Rosto sério. Incomum. Heitor sempre sorria. Sempre otimista. Mas não agora.
– Weissmann – disse Heitor, sem preâmbulos. – Precisamos conversar.
Hans sentiu algo gelado no estômago. Mas manteve rosto neutro.
– O que houve?
– DOPS. Querem você e eu para depor. Amanhã. Dez da manhã. Delegacia. Sobre sabotagem.
Hans processou. DOPS. Departamento de Ordem Política e Social. Polícia política. Torturadores. Aqueles que faziam pessoas desaparecerem.
Mas por quê? Sabotagem fora resolvida. Becker e Kohler presos. Adler… bem, Adler estava morto no fundo do Rio Paraíba, mas DOPS não sabia disso. Oficialmente, Adler era foragido.
– Por que nós? – perguntou Hans, voz controlada.
– Não sei – respondeu Heitor. – Delegado Álvaro Moreira ligou esta tarde. Disse que delegados de Rio estão investigando. Querem falar com todos que tiveram acesso ao alto-forno. E como você desarmou bombas e eu sou gerente de engenharia…
Deixou frase inacabada.
Hans acenou. Fazia sentido. Investigação de rotina. Nada para temer. Henrique Weissmann era inocente. Herói, até. Salvador de duzentas vidas.
Mas Hans Krueger… Hans Krueger era culpado. De tudo. E se DOPS descobrisse…
Não vão descobrir, Hans forçou-se a pensar. A identidade de Weissmann é sólida. Atestado ideológico do DOPS. Carta de recomendação. Trabalho impecável há um ano e meio. Nada o conecta a Adler. Estou seguro.
Mas a voz interna, pequena e insistente, sussurrava: Ninguém está seguro sob o Estado Novo. Especialmente descendentes de alemães em tempo de guerra.
– Está bem – disse Hans, finalmente. – Vou depor. Não tenho nada a esconder.
Heitor pareceu aliviado.
– Ótimo. Passamos lá juntos. Dez da manhã. Não se atrase.
Caminharam até a Praça da Liberdade em silêncio. Ônibus da companhia. Quarenta minutos de estrada de terra. Solavancos. Poeira. Hans olhava pela janela. Noite sem lua. Escuridão total além das poucas luzes esparsas.
Pensou em Adler. No corpo afundando no rio. Nas mãos de Hans ao redor do pescoço. No olhar de surpresa. De traição. De reconhecimento final.
Pensou em Isabel. No beijo. Na promessa. No futuro que talvez pudessem ter se Hans sobrevivesse às próximas vinte e quatro horas.
Pensou em Greta. Pela primeira vez em meses. Não com dor. Não com raiva. Apenas com curiosidade distante. Quem seria ele se Greta não o tivesse destruído? Se não tivesse escolhido Samuel? Se Hans nunca tivesse se tornado espião?
Questões sem respostas. Vida não tinha como voltar e apagar. Apenas copiar erros. Colar em novas identidades. E continuar.
O ônibus parou no canteiro da CSN. Hans desceu. Despediu-se de Heitor. Foi ao refeitório. Jantou sozinho. Caminhou até o alojamento. Quarto escuro. Roberto roncando. Dois outros engenheiros dormindo. Rotina. Normalidade.
Hans deitou-se no beliche superior sem tirar roupa. Apenas os sapatos. Olhou para o teto rachado iluminado pela lua que finalmente aparecera por trás de nuvens.
Amanhã era dia da verdade. Delegacia. DOPS. Interrogatório.
Sairia livre ou preso. Vivo ou morto. Henrique Weissmann confirmado ou Hans Krueger revelado.
Não há meio-termo sob ditadura, pensou Hans. Apenas vencedores e cadáveres.
Fechou olhos. Forçou-se a dormir. Precisava estar descansado. Alerta. Porque amanhã jogaria partida mais importante de sua vida.
E perder não era opção.
Barra Mansa, delegacia de polícia, 22 de outubro de 1942 – 09h50
Heitor Carneiro e Henrique Weissmann chegaram dez minutos adiantados. Pontualidade militar. Heitor usava terno cinza claro impecável. Gravata azul marinho. Sapatos engraxados. Aparência de gerente competente.
Hans – Henrique – trajava seu melhor terno. O único realmente bom que possuía. Cinza escuro. Camisa branca recém passada. Gravata preta discreta. Sapatos polidos até brilharem. Aparência de engenheiro sério. Respeitável. Inocente.
Delegado Álvaro Moreira os recebeu no térreo. Cordial, mas formal.
– Senhores. Obrigado por comparecerem. Os delegados Venâncio Ayres e Sebastião Prado aguardam. Primeiro, senhor Carneiro. Depois, senhor Weissmann.
Heitor assentiu. Olhou para Hans.
– Nos vemos depois.
– Nos vemos – confirmou Hans.
Heitor se dirigiu à sala de interrogatório acompanhado de Álvaro. Hans ficou na sala de espera. Janela gradeada. Três cadeiras de madeira. Mesa com revistas velhas. Relógio de parede marcando 09h55.
Hans sentou-se. Pegou revista. Cruzeiro, edição de agosto. Matéria sobre FEB – Força Expedicionária Brasileira. Brasil enviaria tropas para Europa. Lutar ao lado dos Aliados. Contra Alemanha.
Contra minha pátria, pensou Hans. Ou ex-pátria. Porque Hans Krueger morrera. Apenas Henrique Weissmann permanecia. E Henrique era brasileiro. Sempre fora.
A ironia não lhe escapava. Espião alemão lendo sobre Brasil declarando guerra à Alemanha. Sentado em delegacia de polícia política. Prestes a ser interrogado sobre sabotagem que ele próprio ajudara a plantar e depois desarmara.
Vida era teatro dentro de teatro. Sempre fora.
10h15. Heitor desceu. Rosto tranquilo. Acenou para Hans.
– Rápido. Apenas confirmação de rotina. Não se preocupe.
Hans levantou-se. Álvaro à frente. Sala de interrogatório. Corredor estreito. Porta de madeira maciça no final.
Álvaro bateu. Três vezes.
– Entre – voz de dentro. Masculina. Firme.
Álvaro abriu a porta. Gesticulou para Hans entrar.
Hans respirou fundo. Uma vez. Duas. Entrou.
Sala de interrogatório. Sem janelas. Apenas luminária no teto. Mesa grande no centro. Três cadeiras de um lado. Uma do outro.
Dois homens sentados. Ambos de terno escuro. Ambos com olhos de quem vira coisas que não se esqueciam.
À esquerda, homem mais corpulento. Ombros largos. Bigode grisalho. Postura militar. Venâncio Ayres.
À direita, homem mais magro. Rosto angular. Olhos penetrantes. Cigarro queimando entre dedos amarelados de nicotina. Sebastião Prado.
Venâncio levantou-se. Estendeu mão.
– Senhor Weissmann. Delegado Venâncio Ayres, DOPS Rio de Janeiro. Obrigado por comparecer.
Hans apertou mão. Firme. Segura. Sem tremor.
– É um prazer, delegado. Sempre à disposição das autoridades.
– Este é meu colega, delegado Sebastião Prado.
Sebastião não se levantou. Apenas acenou. Fumou. Olhos fixos em Hans. Estudando. Avaliando. Memorizando.
Hans sentiu algo. Desconforto difuso. Não ameaça direta. Apenas… sensação de ser observado. Dissecado. Como inseto sob microscópio.
Mas não havia reconhecimento. Hans nunca vira aqueles homens. Nunca cruzara com eles. Tinha certeza. E eles, aparentemente, também não o reconheciam.
Seguro, Hans pensou. Estou seguro.
– Sente-se, por favor – disse Venâncio, indicando cadeira solitária do outro lado da mesa.
Hans sentou-se. Postura ereta. Mãos sobre joelhos. Rosto neutro. Henrique Weissmann. Engenheiro. Brasileiro. Inocente.
Venâncio abriu a pasta. Folheou. Depois olhou para Hans.
– Senhor Weissmann, esta é apenas formalidade. Investigação de rotina sobre sabotagem frustrada. Nada para se preocupar. Apenas precisamos confirmar alguns detalhes.
– Claro – disse Hans. – O que precisarem.
Sebastião não falava. Apenas fumava. Observava. Caderneta pequena na mesa à sua frente. Caneta ao lado. Mas não tomava notas. Apenas olhava.
Venâncio começou. Tom cordial. Quase entediado.
– Confirme, por favor: nome completo?
– Henrique Weissmann de Almeida.
– Nascimento?
– Quinze de março de 1906, Florianópolis, Santa Catarina.
– Formação?
– Engenharia Metalúrgica. Carnegie Institute of Technology, Estados Unidos. Especialização em Metalurgia na École des Mines de Nancy, França.
Sebastião observou. Hans não hesitou. Não piscou. Recitava currículo como quem conta verdade absoluta. Porque para todos os efeitos práticos, era verdade. Documentação existia. Diplomas existiam. Carta de recomendação existia.
Tudo falso. Mas perfeitamente falso.
– Trabalhou onde antes da CSN? – continuou Venâncio.
– Metalúrgica Nestor de Goes. Santo André. Três anos.
– E entrou na CSN quando?
– Abril de 1941.
– Como soube da vaga?
– Anúncio no Jornal do Comércio. Enviei currículo. Fui aprovado após entrevista.
Venâncio folheou documentos. Confirmava informações. Tudo batia. Perfeitamente.
Sebastião finalmente falou. Voz baixa. Quase casual.
– E antes da Metalúrgica Nestor de Goes? Onde trabalhou?
Hans virou-se para Sebastião. Encontrou olhos penetrantes. Castanhos. Frios. Inteligentes.
Sentiu aquele desconforto novamente. Mais forte agora. Mas não identificava causa.
– Obras diversas – respondeu Hans, mantendo tom neutro. – Construção civil em São Paulo. Projetos menores. Nada relevante comparado à CSN.
– Que período?
– 1930 a 1937, aproximadamente.
– Aproximadamente?
– Trabalhei em vários lugares. Algumas vezes como freelancer. Registros não são completos.
Sebastião acenou. Fumou. Não pressionou. Mas Hans sentiu: aquela pergunta não fora aleatória. Tinha propósito. Testar algo. Mas o quê?
Venâncio retomou controle:
– Sobre a viagem a Angra dos Reis. Quando partiu?
– Dezenove de outubro. Segunda-feira. Trem das onze da manhã.
– E voltou ontem à noite.
– Sim. Trem das cinco da tarde. Chegada às sete e meia em Barra Mansa.
– Propósito da viagem?
– Supervisionar descarregamento de aço estrutural importado dos Estados Unidos. Trinta toneladas. Material crítico para alto-forno.
– Foi sozinho?
– Não. Com gerente Heitor Carneiro e três técnicos americanos.
– Hospedaram-se onde?
– Hotel Porto Imperial. Angra dos Reis. Quarto compartilhado com senhor Carneiro. Ele retornou na manhã antes do meu retorno.
Venâncio tomava notas agora. Confirmaria tudo. Telegrafaria para Angra. Verificaria hotel. Falaria com técnicos americanos. Rotina policial. Mas rotina eficaz.
Hans sabia: se mentisse em qualquer detalhe, seria descoberto. Por isso não mentia. Tudo que falava era verificável. Comprovável. Verdadeiro.
Exceto identidade. Mas identidade não era verificável sem tecnologias que ainda não existiam. Impressões digitais? Henrique Weissmann tinha. Corretas. Porque eram de Hans, que assumira documentos de Weissmann morto. Fotografias? Batiam. DNA? Não existia. Testemunhas? Todas mortas ou compradas.
A identidade era impermeável. A menos que alguém reconhecesse Hans pessoalmente. Mas ninguém poderia. Hans nunca trabalhara no Brasil antes de virar Richter em 1937. E Richter morrera em janeiro de 1941.
Não há elo, Hans tranquilizou-se. Nenhuma conexão entre Hans Krueger e Henrique Weissmann.
Sebastião interveio novamente. Voz ainda baixa. Mas com algo mais. Curiosidade? Suspeita?
– Senhor Weissmann, você fala alemão?
Pergunta perigosa. Mas Hans esperava. Haviam perguntado antes, meses antes.
– Não fluentemente – respondeu, usando resposta ensaiada. – Meus pais falavam em casa quando criança. Entendo um pouco. Mas não pratico há anos.
– Diga algo em alemão – pediu Sebastião.
Hans hesitou. Dramaticamente. Como quem tenta lembrar. Depois, em alemão com sotaque brasileiro exagerado:
– Mein Name ist Henrique. Ich arbeite bei CSN. (Meu nome é Henrique. Trabalho na CSN.)
Gramática correta. Mas pronúncia propositalmente imperfeita. Sotaque brasileiro óbvio. Como alguém que aprendeu na infância mas esqueceu com tempo.
Sebastião não reagiu. Apenas fumou. Hans não percebeu: mas Sebastião registrara mentalmente. Weissmann falava alemão melhor do que fingia. Sotaque era forçado. Exagerado. Performático.
Mais uma peça confirmando quebra-cabeça.
Venâncio voltou à sabotagem:
– Sobre a noite de dezessete para dezoito de outubro. Você estava no terceiro turno?
– Sim. Das seis da tarde à meia-noite.
– E depois?
– Fui ao alojamento. Dormi.
– Alguém pode confirmar?
– Roberto Alcântara. Divide quarto comigo. Acordou quando cheguei. Reclamou do barulho. Disse que eu deveria ter mais cuidado.
Mentira. Roberto não acordara. Mas Hans sabia: se perguntassem a Roberto, ele confirmaria. Não lembraria exatamente, mas confirmaria. Porque era plausível. Hans sempre chegava tarde quando trabalhava no terceiro turno.
– E quando soube das bombas?
– Por volta das duas da manhã. Guardas bateram na porta do alojamento. Disseram: emergência. Todos ao pátio.
– E você desarmou duas de três bombas.
– Sim.
– Como sabia fazer isso?
Pergunta crucial. Hans respirou normalmente. Resposta ensaiada.
– Estudei na França. École des Mines. Tivemos aula sobre explosivos industriais. Demolição controlada. Segurança em mineração. Aprendi princípios básicos.
– E isso foi suficiente para desarmar bombas militares alemãs?
– Não eram complexas – disse Hans, modesto. – Temporizador mecânico simples. Espoleta com dois fios. Vermelho e preto. Cortei o preto. Circuito desativado. Sorte, talvez. Mas funcionou.
Sebastião fumava. Observava. Hans não via, mas Sebastião pensava: Ele é bom. Muito bom. Respostas perfeitas. Tom perfeito. Linguagem corporal perfeita. Se não soubesse que é impostor, acreditaria completamente.
Mas eu sei. E isso muda tudo.
Venâncio folheou mais documentos. Depois fechou pasta.
– Senhor Weissmann, agradeço sua colaboração. Não temos mais perguntas por enquanto. Está liberado.
Hans não demonstrou alívio. Apenas assentiu. Educadamente.
– Foi um prazer ajudar. Se precisarem de mais informações, estou à disposição.
Levantou-se. Virou-se para sair.
– Senhor Weissmann – voz de Sebastião. Pela primeira vez, mais alta. Firme.
Hans parou. Virou-se.
– Sim?
Sebastião apagou cigarro. Acendeu outro. Olhos fixos em Hans.
– Apenas curiosidade. Em dezembro de 1940, onde estava?
Hans sentiu algo. Não medo. Não pânico. Apenas… alerta. Pergunta estranha. Fora de contexto. Por quê dezembro de 1940 especificamente?
– Trabalhando – respondeu Hans, cauteloso. – Santo André. Por quê?
– Apenas confirmando cronologia – disse Sebastião, desinteressado. – Obrigado. Pode ir.
Hans acenou. Saiu. A porta fechou-se atrás dele.
No corredor, respirou. Uma vez. Duas. Três.
Passou.
Heitor o esperava.
– E aí?
– Rotina – disse Hans. – Perguntas sobre Angra. Sobre sabotagem. Nada demais.
– Ótimo. Vamos. Temos trabalho.
Saíram da delegacia. Sol forte de quase meio-dia. Calor sufocante. Hans olhou para trás uma vez. Edifício austero. Grades. Viatura Ford preta.
Lugar de onde muitos entravam e poucos saíam. Mas ele saíra. Livre. Confirmado. Henrique Weissmann de Almeida. Engenheiro. Brasileiro. Herói.
Hans Krueger permanecia enterrado. Seguro. Morto para o mundo.
Ou assim Hans acreditava.
Barra Mansa, delegacia de polícia, 22 de outubro de 1942 – 12h30
Sebastião Prado e Venâncio Ayres permaneceram na sala de interrogatório. Silêncio pesado. Fumaça de cigarro preenchendo espaço.
Finalmente, Venâncio falou:
– E então?
Sebastião abriu pasta. Retirou duas fotografias. Colocou lado a lado sobre mesa.
Oswaldo Richter, dezembro 1940, Santos. Henrique Weissmann, abril 1941, Rio de Janeiro.
Mesmo homem. Sem dúvida possível.
– É ele – disse Sebastião, simplesmente.
– Certeza?
– Absoluta. Reconheci no momento em que entrou. Jeito de andar. Levemente inclinado para frente. Ombros ligeiramente tensos. Postura de quem carrega peso invisível. Vi isso durante dois meses seguindo Richter.
Venâncio estudou fotografias.
– E agora?
Sebastião acendeu novo cigarro. Vigésimo do dia. Talvez trigésimo. Perdera conta.
– Agora vigiamos. Vinte e quatro horas. Sete dias por semana. Ele não pode saber que sabemos. Precisa acreditar que passou. Que está seguro.
– E quando errar?
– Quando errar – Sebastião soprou fumaça – prendemos. E fazemos falar. Sobre Adler. Sobre rede. Sobre tudo.
Venâncio assentiu. Depois:
– E se ele for inocente? Se Weissmann for real e Richter for outra pessoa?
Sebastião olhou para fotografias. Depois para Venâncio.
– Não é. Essas orelhas não mentem. Formato da mandíbula não mente. E mais importante: ele falou alemão bem demais. Fingiu sotaque ruim. Mas eu ouvi. Pronúncia era perfeita embaixo da performance. Fluente nativo. Não aprendizado de infância.
Silêncio.
– Henrique Weissmann de Almeida – disse Sebastião, voz baixa, mas carregada de certeza – é espião alemão infiltrado na CSN. Não sei seu nome verdadeiro. Pode ser Hans Krueger como Kohler disse. Pode ser outro. Mas é espião. Disso não tenho dúvida.
Pegou telefone preto. Discou. Esperou. Três toques.
– Delegado Álvaro Moreira? Sebastião Prado. Preciso de equipe de vigilância. Alvo: Henrique Weissmann de Almeida. Engenheiro da CSN. Vigilância contínua. Relatórios diários. Começando imediatamente. Sim. Prioridade máxima. Autorização de Coronel Coriolano.
Desligou.
Olhou para Venâncio.
– Agora esperamos. Pacientemente. Como caçadores. Porque a presa está na mira. Não sabe. Mas está.
E Hans Albrecht Krueger – Oswaldo Richter – Henrique Weissmann – enquanto caminhava sob sol de Barra Mansa em direção ao canteiro da CSN, pensando em Isabel, em domingo, em futuro possível…
…não sabia que acabara de entrar na jaula.
Jaula invisível. Mas jaula.
E que caçadores nunca piscavam.
Nunca dormiam.
E nunca, jamais, perdiam presa que identificavam.
