Tudo que aprendi sobre como se escreve um romance pode ser resumido assim: primeiro você pensa a história, cria os personagens, planeja os capítulos. Só então escreve. Depois de escrito, você revisa, desconstrói, reconstrói, cria novas estruturas, revisa de novo. Um leitor crítico. Depois um leitor beta. Nova revisão, novas demolições, restaurações de estruturas que você mesmo havia derrubado. Só aí, talvez, o livro esteja pronto.
Rios de Sangue e Ouro segue esse caminho. Já são meses de trabalho sobre um manuscrito que passou por camadas de revisão, que tem leitores críticos, que revelou erros estruturais graves que precisaram ser corrigidos antes de qualquer publicação. É um processo lento, exigente, e às vezes extenuante. Mas é o processo certo para o que aquele romance precisa ser.
O Último Trem não passou por nenhuma dessas etapas. Eu tinha um texto, conhecimento sobre o Estado Novo, personagens centrais e um cenário. Comecei a escrever para preencher uma seção do projeto. O objetivo era apresentar minha escrita aos leitores em formato mais longo. E publicava um capítulo por semana, direto no blog, sem rede.
Uma técnica kamikaze. Escrever e publicar ao mesmo tempo, sem revisão, sem plano, sem a possibilidade de voltar atrás.
O romance não tinha ambição declarada. Era um cartão de visitas. Uma forma de mostrar como escrevo antes de entregar o trabalho maior. Mas foi só quando o completei, com oitenta e cinco mil palavras na tela, que comecei a olhá-lo com seriedade. E o que vi me desconfortou.
O protagonista, Hans Krueger, só aparece no capítulo seis. Antes dele, uma apresentação histórica extensa sobre o Estado Novo, sobre Getúlio Vargas, sobre o Brasil dos anos 1930. Confesso que essa escolha tinha uma lógica: queria atrair o leitor que ama história, dar-lhe o contexto que tornaria a ficção mais rica. Mas o efeito colateral foi severo: quando Hans finalmente chega, o leitor já está numa outra história. E Hans entra como intruso na própria narrativa que deveria protagonizar.
Quando olhei francamente, o romance tinha dois protagonistas. E o primeiro engolia o segundo.
Getúlio Vargas e Hans Krueger dividiam o espaço narrativo, mas não com o mesmo peso. Getúlio era maior, mais vívido, mais presente. Havia uma razão para isso: a reação dos leitores do blog me fez aprofundar as narrativas históricas, e cada aprofundamento aumentava Getúlio e diminuía Hans. Em algum ponto da história, Getúlio sumia e Hans se tornava a estrela, mas a transição era abrupta, e os dois primeiros atos haviam sido contados do ponto de vista do personagem mais fraco.
Não há problema em ter dois protagonistas de peso desigual. Há problema em narrar a história inteira pelo ângulo do mais fraco e esperar que o mais forte não ofusque tudo. A escolha de perspectiva é uma decisão de poder. Define quem o leitor acompanha, em quem investe, de quem sente a perda. Quando essa escolha fica ambígua, o leitor sente, mesmo sem saber nomear. A narrativa oscila. A tensão vaza.
Era preciso uma escolha. Se eu escolhesse Getúlio como centro absoluto, a história de Hans com Isabel tornava-se irrelevante e não era isso que eu queria. Hans e Isabel não são ornamento. São o coração emocional do romance, o que transforma um período histórico em experiência humana concreta. Então a solução era outra: diminuir o protagonismo de Getúlio sem apagá-lo, e dar carne às motivações e aos movimentos de Hans.
Há algo que a publicação serializada faz que o manuscrito guardado numa gaveta não faz: ela cria um interlocutor em tempo real.
Escrever O Último Trem semana a semana, direto para os leitores do blog, foi um experimento involuntário de escrita responsiva. Quando determinada cena ou personagem gerava reação, eu aprofundava. Quando o silêncio sugeria desinteresse, eu ajustava. O romance foi sendo moldado pela leitura enquanto estava sendo escrito, o que tem uma energia que o método planejado raramente alcança, mas que cobra um preço estrutural alto.
O preço foi Hans virando testemunha. A história acontecia diante dele. Getúlio governava, o Estado Novo se consolidava, o Brasil mudava, e Hans observava. Ele reagia, sofria, amava. Mas a iniciativa narrativa estava sempre nos eventos históricos, não nele. Um protagonista que apenas reage à história que o cerca é, em termos práticos, um personagem secundário com mais páginas.
O romance que chegará às editoras será muito diferente do que os leitores do blog acompanharam. Não apenas corrigido; reconfigurado. Hans precisará entrar mais cedo, com mais peso, com mais agência. Getúlio precisará continuar presente. Sua figura é incontornável para o período e para a história, mas como força que age sobre Hans, não como narrador paralelo que concorre com ele.
A apresentação histórica que ocupa os primeiros capítulos precisará ser desmontada e redistribuída. O contexto do Estado Novo não pode preceder o drama humano. Precisa emergir dele, ser sentido através dos personagens que o vivem, não exposto antes que eles apareçam.
Isso não é ruim. Aliás, há algo interessante nisso: quem acompanhou a versão do blog e depois ler o romance publicado vai ler a mesma história sob um ponto de vista diferente. Vai reconhecer cenas, vai notar o que mudou, vai entender por que mudou. É quase uma conversa entre duas versões do mesmo livro.
Não recomendo escrever e publicar ao mesmo tempo sem revisão. Não é um método. é uma forma de aprender o que não se deve fazer enquanto já se faz. Mas tampouco me arrependo do experimento.
Escrever O Último Trem sem rede me ensinou coisas que meses de leitura sobre método não haviam ensinado. Aprendi onde minha escrita naturalmente vai quando não há plano que a discipline. E o que vai é revelador. Aprendi que minha tendência ao contexto histórico, que em Rios de Sangue e Ouro já havia sido diagnosticada como problema, não é acidental. É um impulso que precisa ser conscientemente contido, porque senão expande e ocupa o espaço que pertence ao drama humano.
Aprendi também que escrever para um leitor real, com nome e reação, é diferente de escrever para um leitor imaginado. Os leitores do blog me fizeram escrever mais e melhor do que eu teria escrito sozinho. Foram, sem saber, parte do processo de criação e o romance que surgir daqui carregará, de alguma forma, o rastro dessas leituras. O método existe para proteger o romance do escritor. Quando o método falta, o que aparece é o escritor sem proteção, com todos os seus vícios à mostra, e também com tudo o que ele tem de verdadeiro.
