Petrópolis, Palácio Rio Negro, 15 de dezembro de 1939 – 19h00
Getúlio Vargas passaria todos os verões em Petrópolis durante os 15 anos que esteve à frente do país. O Palácio Rio Negro, residência oficial de verão dos presidentes desde 1903, oferecia refúgio do calor sufocante do Rio de Janeiro e, mais importante, discrição para reuniões que não poderiam acontecer no Catete.
Naquela noite de dezembro, três homens aguardavam Getúlio no salão principal. Ernani do Amaral Peixoto, interventor do Estado do Rio de Janeiro desde 1937 e genro de Vargas desde 1939, estava sentado em poltrona de couro, nervoso. Ao seu lado, Sávio Cotta de Almeida Gama – engenheiro, empresário, dono da Fazenda Retiro em Barra Mansa – fumava charuto cubano com a tranquilidade de quem conhecia o poder.
Sávio Gama considerava-se amigo pessoal de Getúlio Vargas. Pertencia ao grupo dos “meninos de ouro” do Jockey Clube do Rio de Janeiro, junto com Assis Chateaubriand e outros membros da elite carioca.
Getúlio entrou na sala sem pressa, trajando terno de linho branco – concessão ao calor petropolitano. Acendeu um charuto, serviu-se de uísque, sentou-se.
– Cavalheiros – disse ele, simplesmente.
Amaral Peixoto levantou-se, respeitoso. Era genro, mas também subordinado. Aprendera a nunca esquecer a hierarquia.
– Senhor presidente, obrigado por nos receber. Sei que o verão é seu momento de descanso, mas…
Getúlio fez um gesto com a mão, interrompendo.
– Amaral, você não me traz problemas. Você me traz soluções. Por isso está aqui. – Virou-se para Sávio Gama. – E você, meu amigo, não vem a Petrópolis apenas para admirar a paisagem.
Sávio sorriu, aquele sorriso de quem conhece todos os segredos e guarda alguns.
– Vim falar de aço, Getúlio. E de futuro.
– Fale.
Sávio abriu uma pasta de couro, retirou um mapa rodoviário do Estado do Rio de Janeiro, desdobrou-o sobre a mesa de centro. Com o dedo, traçou uma linha imaginária.
– Barra Mansa – disse ele. – Mais especificamente, o distrito de Santo Antônio da Volta Redonda. Às margens do Rio Paraíba do Sul.
Getúlio estudou o mapa com aqueles olhos pequenos e astutos que nada perdiam.
– Continue.
– A Fazenda Santa Cecília pertence ao Sr. Nelson Marcondes Godoy. Fica na margem direita do Paraíba do Sul. Duzentos e onze hectares de terras planas, água abundante, acesso ferroviário direto. – Sávio fez uma pausa. – Minha Fazenda Retiro fica na margem esquerda. Entre as duas, o rio. E entre o rio e o futuro… uma usina siderúrgica.
Amaral Peixoto interveio, voz controlada, mas entusiasmada:
– Edmundo de Macedo Soares trouxe-me um mapa mês passado. Disse que a Comissão de Siderurgia chegou a uma conclusão: a usina tem que ficar entre Cruzeiro e Barra do Piraí. Traçou um risco vermelho no mapa.
– E Barra Mansa está exatamente nesse risco – completou Sávio.
Getúlio bebeu o uísque lentamente, saboreando tanto o líquido quanto as possibilidades.
– Por que Barra Mansa? – perguntou ele, embora já soubesse a resposta. – Itabira tem minério. Santa Cruz tem porto. São Paulo tem indústria.
– Barra Mansa tem localização – respondeu Sávio. – Ferrovia conectando Rio, São Paulo e Minas. Rio Paraíba para refrigeração dos fornos. Terras planas para expansão. E…
Ele fez uma pausa dramática.
– E fica no Estado do Rio de Janeiro. Sob jurisdição do seu genro. Em terras que posso facilitar a aquisição. Com apoio político garantido.
Silêncio. Apenas o som distante de grilos no jardim do palácio.
Amaral Peixoto acrescentou, cuidadosamente:
– O Estado do Rio precisa disso, senhor presidente. Estamos em crise financeira. Iniciei reforma fazendária, mas precisamos de investimento federal. Uma siderúrgica transformaria a economia fluminense.
Getúlio levantou-se, caminhou até a janela. Lá fora, Petrópolis dormia sob as estrelas. Cidade imperial que se tornara republicana. História que se tornara futuro.
– Os americanos ainda hesitam – disse ele, mais para si mesmo. – Os alemães oferecem, mas a guerra torna qualquer acordo com eles… problemático. Precisamos decidir logo. E quando decidirmos, precisamos de local perfeito.
– Barra Mansa é perfeito – insistiu Sávio.
Getúlio virou-se.
– Mostre-me.
– Como?
– Pessoalmente. Leve-me lá. Quero ver essas terras. Quero ver o rio. Quero ver o futuro que você promete.
Sávio e Amaral trocaram olhares rápidos.
– Quando? – perguntou Sávio.
– Março. Depois do carnaval. Discretamente. Sem alarde. Apenas nós três, Góis Monteiro e Macedo Soares. Cinco homens decidindo o destino de milhões.
Ele apagou o charuto, bebeu o resto do uísque.
– Se me convencerem que Volta Redonda é o lugar certo, farei acontecer. Mas preciso ver. Preciso sentir. Preciso… acreditar.
Sávio Gama sorriu. Sabia que já vencera.
Barra Mansa, Fazenda Retiro, 10 de março de 1940 – 08h00
Sávio Gama acordara às cinco da manhã, supervisionando pessoalmente cada detalhe. Os funcionários da fazenda limparam as estradas de acesso. O casarão colonial fora pintado. Os jardins, podados. Tudo perfeito. Tudo calculado.
Sávio sabia como criar cenários. Sabia como manipular percepções. Era amigo dos maiores artistas da época, frequentador do Jockey Clube, conhecedor de vinhos e alta culinária. E agora, usaria todas essas habilidades para vender um sonho a Getúlio Vargas.
Às 10h00, três carros pretos – Ford V8, discretos, mas imponentes – subiram pela estrada de terra que levava à fazenda. Do primeiro, desceu Getúlio Vargas, trajando terno claro e chapéu panamá. Do segundo, Góis Monteiro e Edmundo de Macedo Soares, ambos em trajes civis – a visita era não-oficial. Do terceiro, Amaral Peixoto e dois seguranças.
Sávio os recebeu na varanda da casa-grande.
– Bem-vindos à Fazenda Retiro – disse ele, estendendo a mão para Getúlio. – A última vez que esteve aqui, lembro-me, foi em 1928. Muito mudou desde então.
– O Brasil mudou – respondeu Getúlio. – E estamos aqui para mudá-lo mais.
Sávio serviu café, pão de queijo, doces caseiros. Conversaram sobre trivialidades por vinte minutos – política gaúcha, safra de café, guerra na Europa. Depois, Sávio conduziu o grupo para fora.
Do alpendre traseiro da casa-grande, tinha-se visão privilegiada do Rio Paraíba do Sul. O rio corria largo e calmo, a frente fazendo a curva característica que dera nome a Volta Redonda. Na margem oposta, as terras planas da Fazenda Santa Cecília estendiam-se até onde a vista alcançava.
Getúlio ficou parado, em silêncio, observando.
Sávio aproximou-se, voz baixa, quase reverente:
– Imagine, Getúlio. Ali – apontou para a várzea na margem direita – fornos gigantescos. Chaminés fumegando dia e noite. Trens carregados de minério chegando de Minas. Aço saindo para todo o Brasil. Uma usina maior que qualquer coisa que já construímos. Uma usina que nos tornará potência.
Góis Monteiro juntou-se a eles, estudando o terreno com olhos de militar:
– Defesa natural pelo rio. Acesso ferroviário protegido pelas colinas. Espaço para expansão praticamente ilimitado. Estrategicamente, é perfeito.
Macedo Soares, sempre pragmático, acrescentou:
– Água abundante para refrigeração. Terreno plano para construção dos fornos. Distância equidistante de Rio, São Paulo e Minas. Logisticamente, é ideal.
Amaral Peixoto, percebendo o momento, disse:
– E politicamente, senhor presidente, é vantajoso. Valoriza o Estado do Rio. Fortalece sua base de apoio. E…
Ele hesitou, mas Getúlio completou por ele:
– E mantém o controle nas mãos de quem confio.
– Exatamente.
Getúlio Vargas permaneceu na varanda por quase uma hora, em silêncio, observando o rio. Os outros respeitaram o silêncio. Conheciam Getúlio. Sabiam que ele pensava melhor sozinho.
Finalmente, ele falou:
– Vejo os fornos. – Sua voz era distante, quase mística. – Vejo o fogo. Vejo o aço derretido correndo em canais incandescentes. Vejo operários – milhares deles – construindo o futuro. Vejo trens chegando carregados de minério e partindo carregados de aço. Vejo uma cidade nascendo ao redor da usina. Casas. Escolas. Hospitais. Uma cidade inteira dedicada à produção de aço.
Sávio Gama sorriu discretamente. Funcionara. A encenação funcionara.
– Vejo – continuou Getúlio – o Brasil deixando de ser país agrário e tornando-se potência industrial. Vejo navios de guerra construídos com nosso aço. Pontes. Ferrovias. Fábricas. Tudo nosso. Tudo brasileiro.
Ele virou-se para os quatro homens.
– Será aqui – disse ele, simplesmente. – A Companhia Siderúrgica Nacional será construída em Barra Mansa. Nessas terras. Às margens deste rio.
Amaral Peixoto quase deixou escapar a emoção. Góis Monteiro acenou com aprovação militar. Macedo Soares fez cálculos mentais sobre prazos e custos.
Mas Sávio Gama apenas sorriu. Porque ele sempre soubera. Desde o início. Que venceria.
– Quando? – perguntou Macedo Soares, prático.
– Logo – respondeu Getúlio. – Preciso forçar a mão dos americanos. Eles hesitam porque acham que tenho tempo. Vou mostrar que não tenho. Vou fazer eles pensarem que escolheremos a Alemanha.
– E escolheremos? – perguntou Góis Monteiro.
– Não – respondeu Getúlio, calmamente. – Mas eles precisam acreditar que sim. E quando acreditarem, oferecerão o financiamento. E quando oferecerem…
Ele apontou para as terras da Fazenda Santa Cecília.
– Construiremos ali a maior usina siderúrgica da América Latina.
No retorno para a Estação Ferroviária de Barra Mansa, dentro do Ford V8, Getúlio manteve-se calado durante a maior parte da viagem. Góis Monteiro, sentado ao seu lado, fumava cigarro atrás de cigarro.
– Acredita mesmo na visão? – perguntou Góis, finalmente. – Ou foi… teatro?
Getúlio sorriu.
– Teatro e realidade não são opostos, Góis. São complementares. Sim, foi encenação. Sávio manipulou o momento. Escolheu o horário perfeito, a luz perfeita, as palavras perfeitas. Mas isso não torna a visão menos real. Porque vi o que vi. E farei acontecer.
– Os americanos vão ceder?
– Vão. Porque não têm escolha. A guerra na Europa escalou. A Alemanha domina quase todo o continente. Se o Brasil se aliar ao Eixo, os americanos perdem toda a América do Sul. Eles precisam de nós tanto quanto precisamos deles.
– E depois? Depois que a usina estiver construída?
Getúlio olhou pela janela. Lá fora, o Vale do Paraíba desfilava: fazendas, pequenas cidades, a ferrovia cortando a paisagem.
– Depois – disse ele –, o Brasil será diferente. Não seremos mais exportadores de café e importadores de tudo. Seremos produtores. Industriais. Modernos. E eu…
Ele não terminou a frase. Mas Góis entendeu.
“E eu serei lembrado como o homem que transformou o Brasil.”
