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O Rim e a Casa Própria

No carro, a caminho da escola, eu explicava ao meu filho o que era a faculdade trinta anos atrás. Não apenas um nível de formação. Era um rito de passagem. Os jovens da minha geração ansiavam por ela como quem anseia por uma fronteira: do outro lado estava o mundo dos adultos, com tudo que ele prometia de autonomia, responsabilidade e reconhecimento.

Disse que hoje a faculdade perdeu esse peso simbólico. Virou mais uma trilha a percorrer, não porque o jovem a deseja, mas porque a sociedade a espera. E que os jovens de hoje, diferente dos de antes, não anseiam por sair de casa, por se tornar independentes, por cruzar essa fronteira. Que a própria ideia de vida adulta parece ter perdido seu apelo.

Meu filho me interrompeu com uma precisão que me fez parar: “Lógico. Comprar uma casa hoje em dia custa um rim.”

Ri. Concordei. E fiquei pensando nisso o resto do caminho.

É fácil (e comum) acusar a geração atual de imaturidade. De não querer crescer. De fugir da responsabilidade. De preferir a proteção da casa dos pais ao risco da independência. A crítica tem algum fundamento, mas erra o alvo.

A pergunta mais honesta não é por que os jovens não querem se tornar adultos. É o que eles veem quando nos olham. E a resposta, quando feita com seriedade, é desconcertante: veem burnout. Endividamento. Ansiedade crônica. Precarização. Jornadas que não terminam. Casamentos que não se sustentam. E, com uma frequência que deveria nos envergonhar, solidão.

Se você fosse jovem e esse fosse o cartaz promocional da vida adulta, o que responderia? Provavelmente o que meu filho respondeu de forma mais direta e com menos eufemismos do que os adultos costumam usar.

Talvez a geração atual não rejeite a vida adulta por preguiça. Talvez não consiga mais enxergar vantagens reais em alcançá-la.

Durante grande parte da história humana, tornar-se adulto significava algo concreto e recompensador. Autonomia. Autoridade. Estabilidade. Patrimônio construído. Reconhecimento da comunidade. A vida adulta oferecia uma recompensa simbólica clara: você cruzava a fronteira e recebia, em troca, um lugar reconhecível no mundo.

Existiam marcos que organizavam essa passagem. A faculdade como iniciação intelectual. O primeiro emprego estável como prova de competência. O casamento como fundação de uma vida própria. A casa como território conquistado. Os filhos como continuidade. A independência financeira como liberdade real. Cada um desses marcos era, ao mesmo tempo, uma conquista pessoal e um rito coletivo. Algo que a comunidade reconhecia e celebrava.

Esse sistema de marcos ruiu. A faculdade não garante emprego. O emprego não garante independência. O casamento deixou de ser porto seguro para a maioria. Os filhos foram adiados, reduzidos ou substituídos. A casa própria depende, como meu filho sintetizou com precisão clínica, de negociações que estão fora do alcance de uma geração inteira. E o que não é alcançável não pode funcionar como rito de passagem.

Há ainda uma dimensão cultural que aprofunda o problema. A sociedade contemporânea não apenas tornou a vida adulta mais difícil de alcançar; passou a glorificar aquilo que a vida adulta exige que se abandone.

A leveza. A flexibilidade. A ausência de vínculos. A estética jovem. A abertura permanente de possibilidades. Tudo isso é celebrado como virtude. Enquanto envelhecimento, permanência, responsabilidade e compromisso definitivo são tratados quase como falha. Como sinal de que alguém não soube manter-se fluido o suficiente.

Ser adulto, nesse imaginário, é ter fechado possibilidades. É ter escolhido, e, portanto, renunciado. É ter assumido uma identidade fixa em um mundo que premia a identidade provisória. Numa cultura que trata a morte simbólica das possibilidades como a pior das perdas, tornar-se adulto é morrer um pouco. E quem quer morrer voluntariamente?

Nunca tivemos tanta liberdade individual. E nunca tanta dificuldade em assumir compromissos definitivos. Talvez não seja coincidência.

Aqui o problema deixa de ser geracional e se torna civilizacional.

Civilizações dependem de adultos. Não de adultos perfeitos ou satisfeitos, mas de pessoas dispostas a assumir responsabilidade pelo que vem depois delas. Que aceitem o peso de transmitir cultura, de exercer autoridade legítima, de construir instituições que durem mais do que uma temporada. Que estejam dispostas a renunciar a algo hoje em nome de algo que só existirá amanhã.

Uma sociedade que glorifica a juventude eterna e penaliza a permanência tende a perder exatamente isso: a transmissão cultural entre gerações, a autoridade que nasce da experiência acumulada, a estabilidade afetiva que só vínculos duradouros podem oferecer, e a continuidade histórica que faz com que uma civilização seja mais do que a soma de indivíduos vivendo simultaneamente.

A juventude eterna parece liberdade. Frequentemente é incapacidade estrutural de construir permanência. E permanência, por mais que o presente a trate com desconfiança, é o único solo sobre o qual qualquer coisa que valha a pena pode crescer.

Não culpo meu filho. Nem os jovens da geração dele. Eles herdaram um mundo que removeu sistematicamente as recompensas da vida adulta e deixou apenas os custos. Que tornou os marcos inacessíveis e, em seguida, acusou quem não os alcança de falta de ambição.

A pergunta que me faço, e que me parece mais urgente do que qualquer diagnóstico sobre os jovens, é esta: o que nós, os adultos que chegamos antes, construímos que valha a pena ser herdado? Que tipo de vida adulta estamos exibindo como possibilidade real?

Porque ritos de passagem não existem no vácuo. Eles funcionam quando o outro lado da fronteira oferece algo que justifique a travessia. Se queremos que os jovens queiram crescer, talvez precisemos primeiro reconstruir (em nós mesmos) aquilo que faz a vida adulta valer o preço que cobra.

Uma geração que não quer crescer não é preguiçosa. É uma geração que olhou para o futuro que lhe mostramos e, com razão, pediu outro.

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