Passei por duas mortes de alunos nos quatro anos em que dirigi uma escola. Não é o tipo de coisa que se aprende a administrar. A primeira vez, fiquei parado no corredor depois que todos foram embora, olhando para a porta de uma sala que no dia seguinte estaria cheia de crianças que saberiam, de alguma forma, que havia uma cadeira vazia que não deveria estar vazia. A segunda foi diferente apenas porque eu já sabia que não haveria maneira de estar preparado.
A morte de uma criança produz uma pergunta que não nasce da filosofia. Nasce da garganta. Se Deus existe, por que ele permite o sofrimento de crianças inocentes? A formulação mais elaborada viria depois, em algum texto de teodiceia: se Deus é bom, onipotente e onisciente, como o mal é possível? Mas essa não é a pergunta que fazem os pais no corredor do hospital. Essa é a pergunta que fazem os filósofos em suas salas. A pergunta real é mais curta e mais difícil: por quê?
Existe uma diferença enorme entre as duas formulações, e essa diferença importa. A primeira busca coerência lógica. A segunda busca sentido. Um argumento pode responder à primeira. Nenhum argumento responde à segunda, pelo menos não inteiramente. O problema do mal é talvez a única objeção ao cristianismo que não nasce da lógica, mas da dor. Poucas pessoas começam a questionar Deus depois de ler um tratado de filosofia. Normalmente a pergunta surge depois de uma perda. E isso já diz algo sobre o que a pergunta realmente é.
A resposta clássica de Agostinho ainda é das mais rigorosas. Para o Bispo de Hipona, o mal não é uma coisa. Não possui existência própria. É privação: ausência de um bem que deveria estar presente. Assim como a escuridão não é uma substância mas ausência de luz, o mal seria ausência de ordem, de integridade, de ser. Isso resolve um problema lógico importante: se Deus criou tudo o que existe, e tudo o que criou é bom, então o mal não pode ser substância criada. Não pode ser obra de Deus.
Mas a resposta agostiniana, sendo correta, é incompleta. Explica a natureza do mal. Não explica por que Deus permite essa ausência. A pergunta do corredor do hospital não é respondida por ela.
O mais perturbador no problema do sofrimento não é a dor em si. É a saudade que ela provoca de um mundo onde a dor não existe. Um mundo que nunca vivemos e do qual, de algum modo, sentimos falta.
Como ter saudade de algo que não conhecemos? A pergunta não é retórica. Ela aponta para algo real na estrutura do desejo humano: uma abertura para uma plenitude que este mundo não oferece, mas que o coração pressupõe como possível. Quando alguém grita contra a injustiça de uma morte, está invocando um padrão que vai além do observável. Não está apenas descrevendo o que é. Está afirmando o que deveria ser. E essa afirmação pressupõe que existe um deveria, uma ordem que foi violada, uma promessa que não foi cumprida.
Grande parte do sofrimento humano nasce de escolhas humanas. Guerras, corrupção, violência, traições, exploração, tudo isso depende de liberdade. E uma liberdade incapaz de escolher o mal não seria liberdade. Seria programação. Deus criou seres capazes de amor real, e amor real exige a possibilidade real de recusa.
Mas isso não esgota o problema. Restam os sofrimentos que não dependem de nenhuma vontade humana: desastres naturais, doenças, a morte que chega antes do tempo. O chamado mal natural. Uma resposta emerge da própria estrutura do universo. Vivemos num cosmos governado por leis estáveis. A mesma gravidade que permite a formação de estrelas e planetas permite quedas e colisões. A mesma biologia que permite crescimento, reprodução e consciência permite o câncer, o envelhecimento e a morte. A entropia que parece destruição é também o processo pelo qual elementos pesados são forjados nos núcleos das estrelas e se tornam a matéria de que somos feitos. Um universo sem qualquer possibilidade de sofrimento seria provavelmente um universo sem regularidade. E sem regularidade, dificilmente haveria vida consciente capaz de fazer a pergunta.
Isso é argumento. É bom argumento. Mas continua sendo resposta filosófica para uma pergunta que não é filosófica em sua origem. E é aqui que o cristianismo faz algo que nenhuma teodiceia consegue fazer sozinha.
A maioria das religiões tenta explicar o sofrimento. O cristianismo faz algo diferente e mais radical. Não explica. Mostra a Cruz. Coloca Deus dentro do sofrimento. Não como espectador compassivo que observa de longe e promete compensação futura. Como participante. Como alguém que atravessou a dor de dentro, com um corpo real, numa tarde real, com sede e abandono e morte.
Isso é perturbador de um modo que as respostas filosóficas não são. Porque muda a pergunta. Não é mais apenas por que Deus permite o sofrimento, é o que Deus fez com o sofrimento. E a resposta do Evangelho é que ele o habitou. Que o Verbo que se fez carne também se fez dor. Que não há nenhum fundo de sofrimento humano aonde Deus não tenha descido antes.
São Paulo escreve algo que à primeira vista parece incompreensível: que se alegra nos sofrimentos e que completa na própria carne o que falta às tribulações de Cristo. Não é masoquismo. É a afirmação de que o sofrimento, quando unido ao de Cristo, deixa de ser apenas dano e passa a ter forma. Não que a dor se torne boa em si mesma. Mas que ela pode ser incorporada numa narrativa maior do que ela. Isso é diferente de ser consolado. É ser reposicionado.
É preciso ter cuidado com o que isso não significa. Não significa que todo sofrimento seja lição, teste ou castigo. Essa redução é violenta e falsa. Nem toda perda carrega uma explicação acessível. Nem toda lágrima esconde um propósito articulável. A Bíblia resiste a esse tipo de simplificação com uma consistência que seus intérpretes fáceis costumam ignorar. Jó não recebe explicação, recebe presença. Há uma diferença.
Penso nos pais dos meus alunos. No que disseram ou não disseram nos dias que se seguiram. Na inadequação de qualquer palavra oferecida naquele contexto. Há sofrimentos que não cabem em nenhuma frase e a tentativa de fazê-los caber é uma segunda violência, menor, mas real.
O que o cristianismo oferece nesses momentos não é uma explicação. É uma afirmação sobre o final da história. Que o mal não terá a última palavra. Que existe um mundo para o qual sentimos saudade. Um mundo sem luto, sem choro, sem dor. E que essa saudade não é ilusão. É memória de um destino.
Não significa que tudo faça sentido agora. Não significa que toda tragédia seja compreensível. Significa que a história ainda não terminou e que o capítulo que estamos vivendo, por mais pesado que seja, não é o último. A esperança cristã não nasce da negação da dor. Nasce da recusa de tratá-la como o capítulo final.
No fundo, a pergunta não é apenas por que o sofrimento existe. É outra, mais profunda e mais urgente: o sofrimento é a última verdade sobre a realidade, ou existe algo maior do que ele? A resposta que se der a essa pergunta muda tudo. Não o que se sente, mas o que se faz com o que se sente. E talvez seja isso, mais do que qualquer argumento, o que sustenta alguém num corredor de escola numa tarde que não deveria ter acontecido assim.
Só sente saudade de um lugar quem foi feito para chegar lá.
