A Velocidade Certa

Antes de ser maquinista, João Mendes foi um menino que morava numa casa pequena de fundo de quintal na Várzea da Oficina, e a Várzea da Oficina era um bairro de Barra Mansa que cresceu ao lado dos trilhos como crescem as coisas que não têm outra opção: adaptando-se à vizinhança barulhenta, aprendendo a dormir com o apito, incorporando o cheiro de óleo ao cheiro de casa até que os dois viraram a mesma coisa.

João não lembrava de um tempo em que os trens não existiam. Eles eram anteriores à sua consciência. Uma presença constante e imensa, como o rio, como o morro, como o barulho de fundo que você só percebe quando ele para.

Quando um trem passava pela rua de cima, a janela do quarto de João vibrava levemente. Ele havia aprendido a acordar com essa vibração antes de aprender a andar, e havia aprendido a desejar o que estava do outro lado da vibração, a cabine, o painel, o homem que ficava lá dentro controlando aquele monstro de metal, antes de ter palavras para o desejo.

— Você vai ser o quê quando crescer? — perguntou uma professora da escola, quando tinha oito anos.

— Maquinista — disse João, sem hesitar.

A professora havia anotado na ficha com a caneta e passado para o próximo.

João havia levado a resposta a sério. Tinha estudado quando os outros não estudavam. Tinha pedido ao pai para levá-lo às oficinas da RFFSA no fim de semana, para ver as locomotivas de perto. Tinha passado na seleção com vinte e dois anos, num processo que selecionou oito entre mais de duzentos candidatos, e havia chegado à cabine pela primeira vez com a seriedade de quem chega ao lugar onde sempre soube que chegaria.

Vinte anos depois, João Mendes sabia o nome de cada curva entre Barra Mansa e Ribeirão Vermelho. Sabia onde a linha pedia atenção e onde dava folga. Sabia o cheiro que a locomotiva tinha quando o tempo estava fechado e o cheiro diferente que tinha quando ia esquentar. Sabia coisas que não estavam em manual nenhum porque vinham de vinte anos de presença continuada, de uma intimidade com a máquina que era feita de erros corrigidos e acertos repetidos até virarem instinto.

Era o trabalho que havia construído.

Seria demitido porque era necessário cortar custos da operação.

Quando o supervisor o chamou para comunicar o desligamento, João ouviu as palavras com a parte de fora de si mesmo. A parte que processa informação, que acena com a cabeça, que diz *entendido* com a voz certa.

A parte de dentro ficou quieta de um jeito que demorou dias para ele reconhecer como choque.

O Plano de Demissão Voluntária havia sido a primeira oferta, e João havia rejeitado desde o início com uma firmeza que surpreendera até a ele mesmo. Não havia em si nenhuma negociação disponível, nenhuma parte que considerasse aceitar porque aceitar seria reconhecer que havia algo a negociar, e havia. Mas reconhecer isso requeria uma honestidade sobre o futuro que João não estava pronto para ter.

Passou a beber na semana seguinte.

Não de uma vez. Foi entrando pelo dia, primeiro só à noite, depois no fim da tarde, depois logo após o almoço, até que o dia se organizou ao redor do beber com a eficiência sombria que os hábitos destrutivos têm quando encontram uma vida com espaço suficiente para se instalarem.

Não faltou ao trabalho nenhum dia. Era o único compromisso que manteve intacto, com aquela teimosia que às vezes é a última forma que o orgulho encontra de se sustentar. Chegava na hora. Fazia o serviço. Voltava para casa. Bebia.

Cleide havia aguentado semanas.

Namorada do tempo de escola, mulher de quinze anos de casamento, mãe dos quatro filhos. Havia tentado. João via isso agora, com a clareza que o tempo depois da dor às vezes traz: ela havia tentado falar, havia tentado escutar, havia tentado ficar no meio do caminho entre o marido que sumia dentro da cachaça e os quatro filhos que precisavam de jantar e de quem fosse buscar na escola e de alguma estabilidade num momento em que a estabilidade tinha desaparecido da casa.

Em pouco tempo a decisão estava tomada.

Arrumou emprego de faxineira na Santa Casa, pegou as crianças (os três meninos e a menina de quatro anos), e voltou para a casa da mãe na Cotiara.

João ficou sozinho numa casa que ainda cheirava ao perfume dela e ao talco das crianças.

Continuou a beber.

Na segunda-feira antes da última viagem, João acordou antes do sol e tomou a decisão sem saber bem por quê.

Jogou fora o que havia na geladeira. Lavou os copos. Abriu as janelas do apartamento pela primeira vez em semanas e ficou no meio da sala sentindo o cheiro de fora entrar. O cheiro da Várzea de manhã, fumaça de lenha de alguém, café, a umidade que subia do rio.

Não bebeu naquele dia. Não bebeu no dia seguinte, nem no dia depois. A semana inteira passou assim: João acordando cedo, fazendo o serviço, voltando para casa, ficando acordado até tarde com a cabeça barulhenta que a sobriedade devolveu e que a cachaça havia abafado.

A cabeça barulhenta pensava coisas que ele preferia não pensar. Pensava nos meninos. Na menina. No rosto de Cleide na manhã em que ela disse que ia embora. Não com raiva, que seria mais fácil de suportar, mas com o cansaço de quem chegou no limite de uma paciência que havia durado o quanto podia durar.

Pensava também em outra coisa.

Havia, formando-se nos dias de sobriedade, um plano que não era exatamente um plano. Era mais uma imagem, uma possibilidade que foi tomando consistência à medida que os dias passavam. João conhecia a ferrovia inteira. Sabia onde a linha era generosa e onde era precisa. Sabia o que aconteceria se uma locomotiva fosse rápida demais numa curva fechada entre paredões de rocha. Sabia que o trem pararia. Sabia que o prejuízo seria grande e prolongado. Já estava de aviso prévio de qualquer forma, então a demissão já estava dada, e demitido por justa causa ou demitido por corte de custos, o resultado era o mesmo no papel.

Dormiu mal na quinta-feira à noite. Na sexta-feira de manhã, vestiu o uniforme pela última vez.

A Estação de Barra Mansa às sete da manhã de um dia de semana tinha o movimento de sempre. Não muito, nunca muito, porque o trem de passageiros havia se tornado ao longo dos anos um serviço que as pessoas usavam por necessidade ou por hábito, não por preferência, e os que o usavam por necessidade eram os que não tinham outra opção.

João chegou cedo e ficou na plataforma por alguns minutos antes de subir à cabine.

Era um hábito antigo. Chegar cedo, andar ao lado da composição, verificar com os olhos e as mãos o que os instrumentos depois confirmariam. Era o ritual de alguém que respeita o que opera, e João havia mantido esse ritual por vinte anos com a constância das coisas que se fazem sem decidir fazer porque fazê-las é parte do que se é.

Na plataforma havia passageiros.

Uma senhora com sacola de feira. Dois homens com marmita. Um casal mais velho que viajava com uma mala pequena demais para ser de longa duração. E uma menina.

Tinha quatro anos, talvez cinco. Vestido xadrez azul, sandalinhas brancas, cabelo preso com um laço que estava levemente torto. Estava de mão dada com uma mulher que João assumiu ser a avó, e olhava para a locomotiva com a boca levemente aberta da admiração que as crianças têm diante das coisas grandes.

João ficou parado.

A menina não era sua filha. Era outra criança, de outra família, com outro destino e outros sábados pela frente. Mas tinha a mesma altura. Tinha o mesmo laço no cabelo, levemente torto, que Cleide colocava na cabeça da menina de manhã antes da missa.

João subiu à cabine.

Dalton era o auxiliar de João há seis anos, um homem quieto de Volta Redonda que sabia o trabalho e não fazia perguntas desnecessárias. Uma qualidade que João havia apreciado muito nos últimos meses, em que as perguntas desnecessárias seriam insustentáveis.

— Pronto — disse João, tomando o lugar.

— Pronto — disse Dalton.

Às sete horas em ponto a locomotiva saiu da Estação de Barra Mansa.

A cidade passou devagar do lado de fora do vidro. João conhecia cada metro daquele trecho. Passou o Centro. Passou a prefeitura. Passou a Várzera da Oficina. Passou os bairros da periferia que João conhecia de cor sem ter nunca morado neles, porque vinte anos de mesma rota ensinam uma cidade de dentro para fora.

Quando a Vista Alegre ficou para trás e a cidade cedeu lugar ao campo aberto, o trem começou a pegar embalo.

Glicério. Joaquim Leite. A paisagem que muda de rio para morro e de morro para rocha à medida que a ferrovia sobe em direção à serra. João operava no automático da memória muscular. A mão no acelerador, os olhos nos instrumentos, a atenção distribuída entre o que o painel mostrava e o que a linha à frente prometia.

Quatis chegou devagar, o trem reduziu como devia. Falcão. Carlos Euler. Passa Vinte.

Depois de Passa Vinte a paisagem endurecia.

Era ali que a ferrovia entrava nas montanhas de verdade. Não os morros suaves do vale, mas a rocha antiga que os engenheiros do século dezenove haviam cortado na base para abrir caminho, criando trincheiras de pedra que espremiam os trilhos entre paredões de dez, doze, quinze metros. Era um trecho de precisão. Não havia margem para erro, não havia espaço para hesitação, e a velocidade tinha um limite que não era sugestão mas geometria.

João sabia tudo isso. Sabia o que aconteceria com alguns quilômetros a mais. Sabia o barulho que faria: primeiro o atrito das rodas perdendo aderência, depois o solavanco, depois o contato com a parede de pedra. Sabia que o trem pararia. Sabia que o prejuízo seria calculado em semanas de interrupção, em equipe de inspeção, em custo de reparo que a empresa recém-privatizada não esperaria nas primeiras semanas de operação.

Sabia que havia uma menina de vestido xadrez azul e sandalinhas brancas num dos vagões atrás.

A Estação de Santa Clara era um ponto de parada intermediário, pequeno, com uma plataforma baixa e uma construção de alvenaria que havia sido pintada de branco em alguma década anterior e que o tempo havia transformado num branco cansado.

João não precisava parar em Santa Clara.

A trincheira estava alguns quilômetros depois. Havia tempo para acelerar depois da estação, entrar no trecho de rocha com velocidade suficiente, fazer o que havia planejado na semana de sobriedade com a clareza fria de quem planeja sem sentimento.

Quando Santa Clara apareceu no horizonte e depois foi chegando e depois ficou ao lado e depois ficou para trás, João estava com a mão no acelerador.

A trincheira surgiu na frente.

Os paredões de rocha, naquele ângulo de aproximação, tinham uma qualidade específica que João havia observado centenas de vezes sem nunca encontrar a palavra certa para nomear. Não eram ameaçadores, não eram belos, eram simplesmente antigos, a rocha que estava ali antes da ferrovia e estaria depois, indiferente a tudo que passava entre seus flancos.

Um calafrio subiu. Não era medo. João havia parado de ter medo do tipo óbvio no mês em que tudo desabou, porque quando tudo desaba de uma vez o medo perde hierarquia, perde objeto, se dissolve numa espécie de anestesia geral que é pior que o medo e ao mesmo tempo menos paralisante. Era outra coisa. Era a menina de vestido xadrez azul chegando sem aviso no meio da trincheira de rocha, a menina e depois a própria filha e depois os três meninos e depois Cleide com o rosto de quando foi embora. Não com raiva, com cansaço. E depois a imagem de um vagão inclinado contra a pedra e a impossibilidade de saber exatamente como as coisas se quebram dentro de um trem que descarrila.

A mão estava no acelerador. João reduziu a velocidade.

Dalton não disse nada. Olhou para o painel, olhou para João, voltou a olhar para o painel.

A trincheira passou dos dois lados: a rocha escura e úmida, os líquens nas frestas, o céu estreito lá em cima como uma linha de luz entre as paredes. O trem passou pela trincheira na velocidade correta, saiu do outro lado, e a paisagem abriu de volta.

João ficou com os olhos na linha à frente. Não disse nada. Dalton não disse nada. O trem foi para Ribeirão Vermelho.

A Estação de Ribeirão Vermelho estava onde sempre havia estado.

João parou a locomotiva com a exatidão de vinte anos. O comprimento certo, a velocidade certa de redução, o freio aplicado no ponto exato onde a plataforma começava. Era um movimento que havia feito centenas de vezes e que fez pela última vez com a mesma atenção das primeiras, porque era o tipo de homem que não sabia fazer as coisas descuidadamente mesmo quando queria.

Os passageiros desceram. A senhora com a sacola de feira. Os dois homens com marmita. O casal mais velho com a mala pequena. E a menina de vestido xadrez azul, de mão dada com a avó, que desceu os degraus com a cautela das crianças nos degraus altos e depois olhou para trás, para a locomotiva, com aquela expressão ainda aberta que não havia fechado desde a plataforma de Barra Mansa.

João estava na janela da cabine. A menina apontou para ele. Disse alguma coisa para a avó que João não ouviu. A avó acenou para ele com o gesto breve de quem agradece algo que não sabe bem nomear. João acenou de volta.

Desceu da cabine para as últimas verificações. A locomotiva ficaria em Ribeirão Vermelho. Outra equipe a buscaria, ou não a buscaria, dependendo do que a empresa recém-privatizada decidisse fazer com o material rodante que havia herdado junto com os trilhos e os problemas. Não era mais assunto de João.

Dalton veio ao lado.

— Boa viagem — disse ele, com o tom neutro de quem diz isso e quer dizer outra coisa.

— Boa viagem — disse João.

Ficou um momento parado ao lado da locomotiva, a mão na lateral metálica, a temperatura do motor ainda alta sob a palma. Era o mesmo calor que havia sido o barulho de fundo de vinte anos. O calor da máquina trabalhada, o calor de alguma coisa que foi pedida e respondeu.

Depois tirou a mão e foi embora.

A casa na Várzea da Oficina cheirava a fechado quando João chegou no fim da tarde de sábado

Abriu as janelas. Aqueceu o que havia na geladeira. Havia pouco, um resto de arroz, um ovo, o suficiente. Comeu sem televisão, com o barulho de fora entrando pela janela: a Várzea à tarde, crianças na rua, um carro passando, e lá longe, de vez em quando, o apito de um trem. Dormiu sem beber.

Acordou no domingo com o mesmo plano que havia firmado na cabeça durante a viagem de volta, na janela do ônibus que o trouxe de Ribeirão Vermelho. Não uma resolução dramática, nada que precisasse de palavras grandes, apenas a clareza simples de quem sobreviveu a alguma coisa e sabe o que precisa fazer depois.

Na segunda-feira de manhã João Mendes saiu de casa antes das oito.

Não para a estação, para uma transportadora que ele sabia que estavam contratando motoristas de veículo pesado, porque o irmão de um colega havia comentado meses atrás e João havia guardado sem saber que estava guardando.

Depois, se houvesse tempo no fim da tarde, iria à Cotiara.

Não com promessa. Com presença, Que é diferente, porque promessa é sobre o futuro e presença é sobre agora, e o que Cleide havia precisado, que João estava começando a entender com a lentidão com que os homens entendem as coisas que demoram para chegar, era presença.

A Várzea da Oficina estava acordando ao seu redor. Ao fundo, o apito de um trem. João parou por um segundo, reconheceu o horário, reconheceu o trecho pela variação do apito, e depois continuou caminhando.

Havia coisas para fazer.

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