Capítulo 35 – O Último Ato

Barra Mansa, estação ferroviária, 27 de outubro de 1942 – 23h52

A estação estava quase vazia. Duas senhoras idosas aguardavam em banco de madeira, conversando baixo. Um vendedor ambulante fechava sua barraca de jornais e revistas. O bilheteiro bocejava atrás do guichê.

Hans Albrecht Krueger – ainda Henrique Weissmann nos documentos que carregava – entrou pela porta principal. Mochila de lona nas costas. Boné puxado sobre os olhos. Tentativa inútil de disfarce em cidade onde todos o conheciam como herói.

Viu Isabel imediatamente.

Ela do outro lada da porta que dava para a plataforma. Vestido azul-marinho. Cabelos soltos. Mas foi o rosto que o atravessou como lâmina: lágrimas descendo silenciosas. Olhos cor de mel vermelhos de choro contido.

Isabel deu um passo em direção a ele.

Hans fez um gesto sutil com a cabeça. Não. Ainda não.

Ela parou. Entendeu. Sempre entendia.

Hans caminhou até o guichê. O bilheteiro o reconheceu imediatamente:

– Senhor Weissmann! Boa noite. Viagem ao Rio novamente?

– Sim – respondeu Hans, voz controlada. – Terceira classe. Só ida.

O bilheteiro piscou. Só ida era incomum. Mas não perguntou. Carimbou o bilhete. Entregou.

– Trem parte à meia-noite.

Hans pagou. Guardou o bilhete. Caminhou em direção à passagem à plataforma. Isabel seguiu à distância. Dez passos. Depois cinco. Ninguém prestava atenção. Era apenas casal se despedindo. Cena comum em estações ferroviárias.

A plataforma estava vazia. O trem de passageiros se aproximava. Locomotiva a vapor exalando fumaça branca. Seis vagões de terceira classe.

Hans parou perto do último vagão. Colocou a mala no chão. Virou-se.

Isabel estava a dois metros. Lágrimas ainda caindo. Mas não soluçava. Apenas chorava. Silenciosamente. Como quem chora há horas e não tem mais força para fazer barulho.

Hans abriu os braços.

Ela entrou neles como quem se afoga e encontra superfície. O rosto enterrado no peito dele. As mãos agarrando a camisa. O corpo tremendo.

Hans a abraçou. Forte. Desesperadamente. Como se pudesse fundir-se a ela. Como se pudesse carregar aquele momento para eternidade que não teria.

– Henrique – sussurrou Isabel contra o peito dele. – Por favor. Não vá.

Hans não respondeu. Apenas segurou mais forte.

– Podemos fugir – continuou ela, voz quebrando. – Os dois. Agora. Qualquer lugar. Não importa.

– Importa – disse Hans, finalmente. Voz rouca. – Você tem família aqui. Vida aqui. Não posso destruir isso.

– Você é minha vida.

As palavras perfuraram Hans como balas. Piores que balas. Porque balas matavam rápido. Aquilo matava devagar.

Ele segurou o rosto dela entre as mãos. Forçou-a a olhar para ele. Olhos azuis-acinzentados encontrando olhos cor de mel pela última vez.

– Isabel de Azevedo – disse ele, cada palavra custando-lhe algo que não tinha nome. – Eu te amo. Amei desde o primeiro dia. Amarei até o último. Mas não posso te arrastar para isso. Não posso…

Ela o beijou. Cortou as palavras. Os lábios encontrando os dele com urgência. Não foi beijo romântico. Foi beijo de afogamento. De desespero. De último suspiro.

Hans correspondeu. Por cinco segundos. Dez. Vinte. Tentando memorizar: gosto de lágrimas salgadas. Perfume de rosas. Calor. Vida.

Quando se separaram, ambos ofegantes, Hans enfiou a mão no bolso interno do casaco. Retirou dois envelopes. Um grande, grosso, lacrado com cera vermelha. Outro menor, fino, apenas nome dela escrito em letra cuidadosa: “Isabel”.

– Este – disse ele, entregando o envelope grande – entregue ao DOPS. Amanhã. Primeira hora. Delegados Venâncio Ayres e Sebastião Prado. Apenas isso importa.

Isabel pegou o envelope com mãos que tremiam.

– E este – Hans estendeu o menor – abra quando estiver em casa. Em segurança. Sozinha.

Ela pegou também. Segurou ambos contra o peito como se fossem relíquias sagradas.

– Henrique, o que está neles?

– Verdade – respondeu Hans, simplesmente. – Toda ela. Para os delegados: nomes, endereços, operações. Tudo que sei sobre rede alemã. Tudo que podem usar para destruir o que resta. E para você…

Ele não terminou. Não podia.

– Para mim? – insistiu Isabel.

– Explicação – disse Hans. – Não desculpa. Explicação. Quem sou. Quem fui. Por que fiz o que fiz. E por que te amo mais que qualquer coisa que já amei.

Isabel soluçou. Pela primeira vez, realmente soluçou. Som rasgado. Dor pura.

– Não quero explicações – disse ela, entre lágrimas. – Quero você. Aqui. Vivo. Comigo.

– Eu sei – Hans puxou-a novamente. Abraçou. Beijou o topo da cabeça. – Mas isso… isso não é possível. Não mais.

O apito do trem soou. Duas vezes. Cinco minutos para partida.

Hans soltou-a. Pegou a mala. Isabel segurou o braço dele.

– Henrique. Me promete uma coisa.

– O quê?

– Que vai tentar sobreviver. Que não vai… desistir.

Hans olhou para ela. Linda. Destruída. Amando-o apesar de tudo. E mentiu:

– Prometo.

Subiu no vagão. Virou-se na porta. Isabel na plataforma. Olhando para cima. Lágrimas intermináveis.

– Eu te amo – disse Hans. – Sempre te amei. Sempre te amarei.

Isabel acenou. Não confiava na própria voz.

E então, barulho. Do lado de fora da estação. Passos rápidos. Múltiplos. Vozes.

Hans reconheceu uma delas instantaneamente. Venâncio Ayres:

– Bloqueiem todas as saídas! Ninguém sobe nesse trem sem verificação! Weissmann está aqui!

Horror atravessou o rosto de Hans. Virou-se para Isabel:

– Corre!

– O quê?

– Corre pela plataforma! – Hans apontou para o leste, direção oposta à entrada da estação. – Até a altura da locomotiva. Pula da plataforma. Segue pela linha do trem até a travessia na entrada da Rua Eduardo Junqueira. Vai para casa. Entende?

– Mas você…

– EU CUIDO DE MIM! – Hans quase gritou. Depois, mais baixo, urgente: – Venâncio não pode te ver aqui. Não pode saber que você sabia. Vai. Agora. Por favor.

Isabel hesitou dois segundos. Preciosos. Depois correu.

Hans desceu do vagão. Correu na direção oposta. Oeste. Venâncio e Sebastião entravam na plataforma pela passagem principal. Viam Hans correndo. Gritaram:

– Pare! DOPS! Pare agora!

Hans não parou. Chegou entre dois vagões. Pulou entre eles. Atravessou para o outro lado da composição. Caiu na linha de ferro. Do lado errado da plataforma. Onde trens de carga passavam.

Levantou-se. Olhou para o leste.

Viu Isabel. Distante. Talvez oitenta metros. Correndo pela linha do trem. Ainda visível sob luz fraca dos postes.

Venâncio e Sebastião pularam entre os vagões também. Caíram na linha. Vinte metros atrás de Hans.

– Não corra, Weissmann! – gritou Sebastião. – Só piora!

Hans olhou novamente para Isabel. Mais distante agora. Mas ainda não o suficiente. Se ele se entregasse ali, se fosse pego rapidamente, os delegados poderiam olhar para o leste. Poderiam vê-la. Perguntar. Investigar. Conectar.

E então ouviu. Som que conhecia. Apito de trem de carga. Vindo do oeste. Aproximando-se.

Hans virou a cabeça. Viu a luz da locomotiva. Trezentos metros. Talvez menos. Velocidade considerável. Carga para o Rio.

Decisão se formou em milissegundos.

Se corresse entre as linhas, atravessasse na frente do trem, os delegados seriam forçados a esperar ou voltar pela passarela. Ganharia tempo. Isabel escaparia. E ele…

Ele talvez também escapasse. Se fosse rápido. Se calculasse certo. Se tivesse sorte.

Hans correu. Entre as linhas do trem de carga que se aproximava e a linha do trem de passageiros que aguardava partir. Corredor estreito. Escuro. Perigoso.

Venâncio e Sebastião correram atrás. Sebastião gritou:

– Está louco? Vai morrer!

O trem de carga apitou. Longo. Estridente. Aviso. O maquinista vira Hans. Tenta frear. Mas trem de carga carregado não freia rapidamente. Inércia. Física implacável.

Hans correu mais rápido. Olhou para frente. Para onde ia atravessar. Dez metros. Oito. Seis.

Olhou para trás. O trem. Luz cegante. Som ensurdecedor. Metal sobre metal. Cem toneladas em movimento.

Cinco metros. Quatro.

Hans saltou.

Não foi salto calculado. Não foi movimento atlético. Foi lançamento desesperado de corpo contra destino.

Pé esquerdo escorregou no cascalho oleoso entre dormentes. Perna direita não impulsionou completamente. Corpo girou no ar. Desbalanceado.

E a locomotiva o acertou.

Não de frente. Lateral. Mas suficiente.

O impacto jogou Hans três metros para o lado. Corpo girando. Ossos quebrando com sons que ninguém deveria ouvir. Crânio batendo em dormente de madeira com força que rachava ambos.

Hans não gritou. Não teve tempo. Não teve ar.

Apenas um pensamento final, estranhamente claro:

Isabel está segura.

E então escuridão.

Barra Mansa, estação ferroviária, 28 de outubro de 1942 – 00h00

O trem de carga parou oitenta metros à frente. Freios guinchando. O maquinista desceu correndo, pálido, gritando:

– Eu vi! Ele pulou na frente! Eu tentei frear! Deus do céu, eu tentei!

Venâncio e Sebastião chegaram ao corpo. Sebastião ajoelhou-se. Verificou pulso. Nada. Colocou a mão sobre a boca e o nariz de Hans. Nenhuma respiração.

– Morto – disse ele, simplesmente.

Venâncio virou o corpo. O rosto de Hans estava intacto. Olhos abertos. Vidrados. Fixos no céu noturno onde nenhuma estrela brilhava.

– Weissmann – confirmou Venâncio. – Henrique Weissmann de Almeida. Confirmo identidade.

Sebastião fechou os olhos de Hans. Gesto automático. Respeito aos mortos mesmo quando mortos eram traidores.

– Por que correu? – murmurou Sebastião. – Tínhamos perguntas. Não ordem de execução. Por que não se entregou?

Venâncio não respondeu. Olhou ao redor. A plataforma vazia. O trem de passageiros ainda aguardando. Guardas correndo em direção ao acidente. O caos que sempre seguia morte violenta.

– Procurem a mochila – ordenou Venâncio. – Documentos. Qualquer coisa. E alguém chame médico legista. Preciso de confirmação oficial.

Sebastião levantou-se. Caminhou até onde a mochila fora lançada quando Hans foi atropelado. Abriu. Dentro: roupas. Documentos falsos de excelente qualidade. Passaporte argentino. Dinheiro. Mil dólares. Três mil cruzeiros.

– Espião – disse Sebastião, mostrando o passaporte para Venâncio. – Definitivamente espião.

A ambulância chegou vinte minutos depois. Médico confirmou: morte instantânea. Traumatismo craniano. Fraturas múltiplas. Sem chance de sobrevivência.

O corpo foi coberto com lençol branco. Carregado para caminhão. Levado para necrotério de Barra Mansa. Registrado como “Henrique Weissmann de Almeida. Engenheiro. Morte acidental. Atropelamento por trem de carga.”

Nenhuma menção a espionagem. Nenhuma referência a fuga. Oficial, foi acidente. Trágico. Lamentável. Mas acidente.

Barra Mansa, travessia da linha férrea próxima à Rua Eduardo Junqueira, 28 de outubro de 1942 – 00h10

Isabel correra pela borda da plataforma até a altura da locomotiva. Pulara. Caíra mal, torcendo o tornozelo. Mas levantara. Continuara.

Seguira pela linha férrea. Escuridão quase total. Apenas lua crescente iluminando vagamente.

Ouvia sons atrás. Gritos. Passos. Mas distantes. Ninguém a seguia. Hans conseguira.

Chegou à travessia. Parou. Olhou. O trem de carga estava parado. Nada de anormal. Trens de carga costumavam parar por ali para manobrar. Ansiosa. Preocupada. Mas não desesperada.

Hans era inteligente. Rápido. Conseguiria fugir. Encontrar-se-iam em algum lugar. Depois. Quando fosse seguro. Tinha que ser assim.

Isabel continuou seu caminho. Entrou na Rua Eduardo Junqueira. Caminhou rapidamente. Mancando levemente. Tornozelo doendo. Mas funcionando.

Dez minutos até sua casa. Entrou pela porta dos fundos. Silenciosa. A família dormia. Subiu para o quarto. Trancou a porta.

Sentou-se na cama. Olhou para os dois envelopes nas mãos. Um grande para o DOPS. O menor para ela.

Abriu o pequeno com mãos trêmulas. Dentro, três folhas manuscritas. Letra cuidadosa:

Isabel,

Se estás lendo isto, já não estou aí. Talvez nem esteja mais em lugar algum.

Como já disse antes, meu nome não é Henrique. Nunca foi. Vivi aqui usando um nome que não me pertencia, uma vida que não era minha. Fiz disso um ofício.

Há coisas que não podem ser ditas em voz alta. Nem mesmo agora. O envelope maior fala por mim melhor do que estas linhas. Entrega-o. Amanhã. Isso importa.

Tudo o mais foi mentira, exceto uma coisa.

Eu te amei. Não como parte do papel. Não como missão. Amei quando não devia, quando já era tarde demais para escolher outro caminho.

Não peças sentido onde não há. Não procures redenção no que fiz. Não a mereço.

Guarda apenas isto: nada do que sentiste foi falso. Nada do que fomos juntos foi encenação.

Vive. Continua. Ensina. Sorri quando for possível. Esquece-me quando conseguires.

Se algum dia lembrares, lembra sem culpa. A culpa é minha. Sempre foi.

 

Adeus,

Hans

Isabel leu três vezes. Depois segurou a carta contra o peito. E chorou. Silenciosamente. Como chorara na estação. Como choraria por anos sempre que se lembrasse.

Não era perdão. Não podia ser. Mentira era grande demais. Traição profunda demais.

Mas amor existia. Impotente. Inútil. Mas existia. E existiria sempre. Como cicatriz invisível que só ela carregaria.

Guardou a carta no fundo da gaveta. Embaixo de roupas íntimas onde ninguém procuraria. O envelope para o DOPS colocou sobre a escrivaninha. Entregaria pela manhã. Como prometera. Porque Hans pedira. E ela, apesar de tudo, ainda queria honrar último pedido dele.

Deitou-se. Não dormiu. Apenas olhou para o teto. Esperando amanhecer. Esperando notícias. Imaginando Hans livre. Em algum lugar. Talvez Argentina. Talvez Uruguai. Vivo.

Não sabia que corpo dele já estava no necrotério. Coberto com lençol branco. Etiqueta no dedo do pé: “Henrique Weissmann de Almeida. Engenheiro. Morte acidental.”

Não sabia que último pensamento de Hans, antes da escuridão, fora: Isabel está segura.

Não sabia que amor deles, impossível desde início, terminara sob rodas de trem de carga em noite sem estrelas.

Sabia apenas que amara. E que amor, mesmo terminando em tragédia, valera cada lágrima que agora chorava.

E choraria por muito tempo.

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