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A Justa Medida do Amor

Demorei um tempo para entender que a chave de um relacionamento saudável não está em mudar o outro, mas em aceitá-lo como ele é. Parece simples, mas é o ponto onde quase todos tropeçam. A gente entra num relacionamento cheio de boas intenções — e uma delas é transformar o outro numa versão ideal, mais próxima daquilo que imaginamos. Só que isso não é amor; é projeto. E ninguém gosta de ser o projeto de ninguém.

Se não somos capazes de aceitar uma pessoa como ela é, o mais honesto é admitir que não dá mais. Cruel? Talvez. Mas é uma crueldade que poupa dor, ressentimento e desgaste. Às vezes, é até uma forma de amor — porque permite ao outro refletir sobre si, amadurecer, seguir adiante sem a pressão de se encaixar num molde alheio.

Mas aceitar o outro, eis o grande enrosco, implica antes aceitar a nós mesmos. E aí mora a parte mais difícil. Porque não se trata apenas de tolerar nossos defeitos, mas de reconhecer aquilo que nos torna pessoas piores e ter coragem de mudar. Amar alguém de verdade exige um grau de autoconhecimento que poucos estão dispostos a encarar. E exige também amor-próprio — não aquele de autoajuda, mas o que nasce do reconhecimento sereno: isto em mim é bom, isto não é, e mesmo assim continuo sendo digno de amor.

Gosto de pensar que era disso também que Cristo falava quando disse: “Ama teu próximo como a ti mesmo.” Porque quem não se ama — ou se ama de menos — não tem como amar o outro de forma inteira. O amor que damos é, em grande parte, o reflexo do amor que temos por nós.

Cristo não amou o mundo mais do que a si mesmo; amou de modo que deu a própria vida, e isso é bem diferente. Há uma diferença entre entregar-se e anular-se. Uma mãe que se lança diante do perigo para salvar o filho não o faz por desprezo à própria vida, mas por uma escolha consciente: ela ama tanto que coloca o outro acima de si — não por ódio a si mesma, mas por amor que transborda.

Talvez o amor verdadeiro seja isso: saber quando entregar e quando preservar; quando calar e quando ir embora; quando cuidar e quando permitir que o outro aprenda sozinho. É uma dança sutil entre o eu e o tu, em que o excesso machuca e a falta esfria.

Aprendi, enfim, que há uma regra silenciosa para o amor:
não amar alguém que me ame mais do que a si mesmo,
nem alguém que ame a si mesmo mais do que a mim.
Amar, sempre, na justa medida — aquela que equilibra o coração e a consciência.

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