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A Guerra Vista Pelos Olhos de Uma Mãe

Era agosto de 1932 quando João saiu de casa, na Rua Duque de Caxias. Mirrado, ao menos aos olhos de Dona Matilde, parecia pequeno demais para aquela guerra que não escolhera. Não era uma guerra contra estrangeiros, mas contra parentes. Em Cruzeiro havia primos seus que haviam sido recrutados do outro lado, pelas lideranças paulistas.

Dona Matilde segurava o filho pelos braços, como se ainda pudesse contê-lo.

— Não vá, meu filho.

— Não posso, mamãe. Se eu ficar, serei preso como desertor.

— Por que lutar essa guerra por Getúlio, se você nem gosta dele? Vivia chamando-o de golpista.

João respirou fundo. Evitava encarar a mãe.

— Sou reservista. Fui convocado. É isso ou a prisão.

As lágrimas escorriam pelo rosto da viúva, mãe de um único filho.

— E o que faço da vida se você morrer por causa dessa guerra estúpida? Por causa de papel assinado por político que depois só serve para limpar as próprias vergonhas?

João hesitou. Não queria discutir, mas também não sabia mentir.

— Eu não vou por ele, mãe. Vou porque, se isso acabar agora, talvez o país mude. Dizem que querem pôr tudo como antes, como se o Brasil fosse só fazenda e privilégio. Não sei se é verdade… mas sei que, se eu não for, outros irão no meu lugar.

— Não vá! — ela gritou, agarrando-se ao filho. — Sou sua mãe e mando você ficar em casa. Que outros lutem essa guerra, mas meu filho não!

Dona Matilde chorava abraçada ao rapaz quando ele se desvencilhou com cuidado. João beijou-lhe a testa, pegou o chapéu e saiu. Ela permaneceu ali, no escuro da sala, ouvindo a porta se fechar.

Os dias seguintes tornaram-se iguais. Dona Matilde cuidava da casa mecanicamente, ia à Matriz de São Sebastião rezar pelo filho e esperava as cartas que chegavam quase todos os dias. À noite, sentava-se diante do rádio na sala, ouvindo as notícias com atenção febril. De madrugada, quando o trem não passava, tinha a impressão de escutar, ao longe, o eco dos bombardeios.

No fim de setembro, as cartas cessaram.

No primeiro dia, Dona Matilde apenas chorou. No segundo, abordou o mensageiro na rua, perguntando se não havia alguma carta extraviada. O rapaz balançou a cabeça, constrangido. No terceiro dia, tomou coragem e foi ao tiro de guerra.

Com o terço apertado entre os dedos e as pernas trêmulas, ouviu do oficial que o pelotão de João fora emboscado numa incursão pela serra, próximo a Resende.

Dona Matilde caiu. Amaldiçoou os paulistas, Getúlio, a República. Depois, nada mais. Desmaiou.

O oficial disse, quando ela recobrou os sentidos, que João poderia não estar morto. Talvez tivesse sido feito prisioneiro. Foi nesse fio tênue que ela se agarrou.

A partir de então, rezava dia e noite ajoelhada diante da imagem de Nossa Senhora da Conceição, no quarto. Falava com a santa como se falasse com o próprio filho, pedindo-lhe que voltasse, nem que fosse ferido, nem que fosse calado, mas vivo.

No início de outubro, suas preces pareceram enfim ouvidas.

Na estação, o trem chegou trazendo os soldados. Dona Matilde procurava rostos, mãos, passos conhecidos. E então o viu, no meio deles. João estava ali.

Uma onda de alívio a atravessou inteira. As lágrimas, que pareciam já ter secado, voltaram a correr, mas agora eram de felicidade.

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