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Cada minuto é um milagre

Outro dia, durante uma reunião interminável, daquelas em que o relógio parece zombar da gente, lembrei-me da frase preferida do meu pai — repetida à exaustão na infância e, dizem, falsamente atribuída a Fernando Pessoa: “Cada minuto é um milagre que não se repete.”

A frase ecoou enquanto os slides desfilavam sem alma na tela. E pensei: ao nascer, cada um de nós ganha uma ampulheta invisível. A areia começa a cair sem aviso, sem pausa, sem negociação. Tentamos segurar alguns grãos, mas quanto mais fechamos as mãos, mais rápido eles escorrem pelos dedos.

No mundo de hoje, o tempo virou ativo precioso. Só que, paradoxalmente, ele se comporta como animal arisco: quanto mais corremos atrás, mais ele foge. Trabalhamos sem parar, como se a equação fosse simples: tempo mais habilidade igual a salário. Mas, e o tempo que sobra? Aquele que deveria ser investido em nós mesmos e nos que amamos? Esse, quase sempre, escorre pelo ralo.

Não é curioso notar o quanto se paga para comprar o nosso tempo? Plataformas de streaming, redes sociais, aplicativos infinitos — todos disputam minutos que jamais voltam. E, por conveniência ou distração, nós cedemos. Quando nos damos conta, já foram horas, dias, talvez anos.

E então, um dia, o susto: os filhos cresceram, os cabelos embranqueceram, o corpo se cansou. E a vida, silenciosamente, passou.

O tempo é areia fina. Não se guarda, não se compra, não se repete. O máximo que podemos fazer é aprender a brincar com ele, como crianças na praia, antes que a maré o leve de volta.

0 Comentários

  • Ana Cláudia Veiga Alves Monteiro
    Posted 26 de setembro de 2025 at 16:49

    Excelente! Parabéns pelo texto!

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