Serjão era conhecido em Barra Mansa como um monstro. Preto, alto, forte como uma locomotiva, caminhava como quem esmagava o chão. No centro da cidade, poucos ousavam cruzar seu caminho. Mas todo mundo sabia: ele era bicheiro, e o dinheiro do jogo corria por suas mãos como se fossem veias abertas.
Na Rua Eduardo Junqueira, ele voltava para casa todos os dias com o fruto suado do “bicho”. Ninguém o seguia, ninguém perguntava nada. Até que um dia, um ladrãozinho de meia-pataca resolveu enfrentá-lo com um punhal. Serjão não pestanejou. Desarmou o rapaz, deu-lhe uma coça tão violenta que bateu a cabeça do garoto nas cercas de trilhos que ainda hoje cercam a rua. O ladrãozinho foi levado à Santa Casa em estado grave.
Quando o policial chegou, Serjão esperava repreensão. Mas ouviu elogio.
— Fez o que tinha que fazer, rapaz. Vagabundo bom é vagabundo quebrado.
Serjão riu, voltou pra casa, e a vizinhança murmurava, admirada e temerosa. O monstro havia vencido mais uma vez.
Mas o rapaz continuava no CTI. E, com os dias, algo começou a corroer Serjão: a consciência. Ele não conseguia dormir. À noite, os trilhos pareciam martelar sua cabeça, o rosto ensanguentado do ladrão ecoava em seus olhos. Ele foi, então, visitar o rapaz na Santa Casa.
Foi ali que conheceu Marilene, esposa do ladrão. Mulata deliciosa, da cor do pecado, olhos de fogo, boca que prometia transgressão. Serjão pediu desculpas pelo que fizera. Marilene não fez pouco caso; seus olhos eram mistura de medo e desejo. Serjão voltou outras vezes. Não mais por consciência, mas pela vontade de vê-la.
Um dia, resolveu convidá-la para um café na padaria perto da Câmara. A conversa fluiu, risos contidos e olhares que pesavam como chumbo. Quando a tensão se tornou insuportável, foram parar no Motel Beira Rio. Lá, sob o brilho mortiço das luzes, Marilene gemeu e se entregou, e Serjão, o monstro, sorveu o prazer como quem bebe do próprio veneno. Enquanto isso, no CTI, o ladrão dava seus últimos suspiros.
Na cidade, comentaram a morte do rapaz com naturalidade mórbida. Alguns diziam que o bicheiro tinha sorte. Outros apenas balançavam a cabeça, resignados: na vida, uns morrem, outros gozam. Serjão voltou para a Rua Eduardo Junqueira, imóvel, observando os trilhos, rindo por dentro. A polícia continuava a respeitá-lo, os vizinhos continuavam a temê-lo. Mas Serjão sabia: o verdadeiro monstro não era ele. Era o desejo que o consumia e a culpa que nunca o deixaria em paz.
