Hoje, o Facebook me trouxe uma lembrança antiga — uma daquelas frases que escrevemos sem pretensão, entre um café e outro, e que o tempo, caprichoso, decide devolver como quem entrega um bilhete esquecido no bolso de um casaco velho.
Lá estava ela, seca, direta, quase cômica:
“Vejo muitas postagens por aí estimulando: ‘Seja você mesmo!’
Na boa, se eu fosse eu mesmo o tempo todo, nem minha mãe iria querer falar comigo.
Prefiro me esforçar pra ser a melhor versão de mim mesmo.”
Li e sorri. Mas logo depois, fiquei em silêncio. Há, por trás da ironia, algo mais profundo — uma intuição sobre o drama de ser humano: o de nunca estar pronto, o de carregar um “eu” que precisa ser constantemente educado, limado, reconstruído.
Vivemos tempos em que “ser você mesmo” virou palavra de ordem. A autenticidade, transformada em slogan, parece bastar como virtude. Mas quem se atreve a ser totalmente si mesmo? Quem teria coragem de expor, sem filtro, a sombra que habita entre nossas boas intenções?
Ser “eu mesmo” o tempo todo seria, talvez, o mais breve caminho para a solidão.
O “eu” não é um território fixo — é uma travessia. Não nasce pronto; se inventa. Nietzsche dizia que precisamos “tornar-nos quem somos”, e essa frase carrega um paradoxo: para ser quem somos, é preciso deixar de ser o que fomos.
Cada gesto de autossuperação é também um pequeno funeral do que já não serve.
Por isso, prefiro a segunda parte da lembrança: “me esforçar pra ser a melhor versão de mim mesmo.”
Há aí algo de ético e de estético. Ético, porque implica responsabilidade — não com o mundo apenas, mas com a própria consciência. E estético, porque transforma a vida em obra, o cotidiano em escultura.
A melhor versão de mim não é a mais espontânea, mas a mais lapidada. É aquela que aprendeu a conter o impulso, a ouvir antes de julgar, a rir de si antes de se levar a sério.
A lembrança que o Facebook me devolveu é, na verdade, um espelho. E, como todo espelho, não mostra apenas o que fomos — mostra o que ainda precisamos ser.
Talvez crescer seja isso: olhar para o próprio reflexo e perceber que a autenticidade não está em permanecer igual, mas em ter coragem de continuar mudando.
