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Na Falta e no Abraço

Em quinze anos de casamento, só dormi longe da minha esposa algumas poucas vezes: por motivo de saúde, quando acompanhei meu pai no hospital, ou em viagens de trabalho a Brasília. Foram ausências breves, mas suficientes para revelar uma verdade que a rotina esconde: o amor também se manifesta na falta.

É curioso como o vazio de um travesseiro pode falar tanto. Quando a mão se estende na noite e encontra apenas o lençol frio, a ausência ganha corpo. De repente, até o ronco que incomodava, a mania de roubar a coberta ou o hábito de ocupar a beira da cama se tornam lembranças queridas, quase saudosas. É como se cada detalhe, mesmo os irritantes, viesse à tona para reafirmar: ela está em mim, mesmo quando não está comigo.

Lembro-me de uma vez em que, sozinho no quarto de hotel, percebi o quanto o silêncio pesa quando não é compartilhado. Foi então que compreendi melhor o que Clóvis de Barros Filho costuma dizer: amamos também à moda de Platão — porque a falta desperta o desejo, e o desejo revela a importância do outro. Amamos justamente na ausência, porque o coração sente o espaço vazio que só a presença preenche.

Mas é no reencontro que o amor se completa. Quando a ausência dá lugar à presença, Aristóteles entra em cena com sua filosofia do concreto. O sorriso dela não é apenas lembrança, é luz que me aquece. O abraço não é idealização, é porto seguro. O contato não é sonho, é carne e pele, é calor que dissolve as distâncias. É nessa materialidade simples que o amor ganha corpo, consistência e sentido.

Talvez resida aí o segredo: amar no silêncio e no riso, no vazio e na plenitude, no desejo e no abraço. Amar na falta e amar na presença. Porque um amor que resiste à ausência floresce na presença com ainda mais intensidade.

E assim, entre Platão e Aristóteles, entre noites solitárias e cafés partilhados, vou aprendendo que o amor é essa dança entre o que falta e o que se tem. Uma dança que, se conduzida com cuidado, pode nos levar àquilo que os gregos chamavam de vida plenamente boa.

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