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A Cabeça que se Abre

Vocês conhecem a história de Atena? Contam os antigos que Zeus, tomado por uma dor de cabeça tão funda que parecia vir das raízes do mundo, chamou Hefesto — aquele artesão divino que nunca recusa um pedido, mesmo quando ele beira a loucura. Pois bem, Hefesto ergueu o machado e, com um golpe seco, rasgou a testa do pai dos deuses. E então, num clarão que nenhum olho humano poderia suportar, saltou Atena: adulta, lúcida, armada, pronta para a batalha e para a sabedoria.

Sempre achei esse mito bonito, mas confesso que só compreendi seu real significado quando comecei a escrever. Não que eu me compare a Zeus — longe disso. Mas, às vezes, eu penso que só alguém que experimentou esse estalo súbito, essa dor que vira luz, poderia ter inventado uma história assim.

Há quem pense que escrever é um ato paciente, quase administrativo: sentar-se, abrir um documento, bater alguns dedos no teclado e forçar a mente a produzir frases como quem ordenha uma vaca cansada. Mas, para mim, não funciona desse jeito. Meu processo criativo tem duas naturezas, como se fosse regido por duas divindades rivais.

Às vezes, eu caço a ideia.

Passo dias, semanas, talvez meses, rondando uma sensação, perseguindo uma história que insiste em se esconder entre as frestas da rotina. Fico à espreita dela como um velho pescador num rio turvo, tentando adivinhar o movimento das águas.

Mas, na maioria das vezes, é a ideia que me caça.

Minha esposa já aprendeu a reconhecer o momento exato em que isso acontece. Estamos conversando normalmente — sobre compras do mercado, o pneu do carro, o absurdo do preço do tomate — e, de repente, eu paro. É como se desligassem o interruptor interno. Ela já não se preocupa. Só me olha e diz: “Veio outra, né?”

E veio. Está na minha cara. A cabeça se abriu.

Quando procuro uma história, entretanto, o processo é mais tortuoso.
Vejam o caso do conto de Natal que eu tanto quis escrever.
Passei semanas imaginando velhos solitários, crianças esperançosas, flocos de neve improváveis no calor de dezembro. Nada prestava. Nada nascia.

Até que um nome surgiu: Margarida. Só isso. Uma flor no vazio. E a partir desse nome, a história veio inteira, com começo, meio e ferida. Feita. Viva. Como se existisse antes de mim e apenas tivesse me escolhido para narrá-la. E eu, humilde escriba, só obedeci.

É estranho dizer isso em voz alta, eu sei. Mas meus enredos surgem assim: completos, como cidades que eu visito pela primeira vez e, ainda assim, reconheço as ruas. Como vidas que não vivi, mas que se debruçam sobre mim pedindo passagem.

Alguns dirão que é dom. Outros, que é inspiração. Eu não sei de nada disso. Talvez seja apenas a necessidade de pôr pra fora uma porção de mundo que carregamos sem perceber; memórias que não são exatamente nossas, dores herdadas, imaginações que estavam adormecidas antes de encontrarem um nome.

O fato é que sempre vem primeiro a inquietação. Uma pequena pressão no fundo da mente, algo latejando como a dor antiga de Zeus. E então, num instante de entrega, a cabeça se abre, e de lá sai a minha história. Não tão poderosa quanto Atena, claro, mas, ainda assim, pronta para sua própria batalha: a de existir.

E eu, que não sou deus, mas aprendi a conviver com essa espécie de milagre cotidiano, apenas acolho. Porque às vezes escrever é isso: permitir que algo desconhecido atravesse você, como uma flecha de luz, e aceite ser narrador de um destino que não é exatamente seu.

No fim das contas, talvez Hefesto soubesse o que fazia. Talvez ele fosse o primeiro editor da história. E talvez nós, escritores, sejamos apenas cabeças ambulantes, esperando o momento certo em que a ideia, essa pequena Atena, decide finalmente nascer.

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