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Medo de Escrever e Verdades Provisórias

Todos os dias desperto com o mesmo temor: o de não ter nada a oferecer ao mundo. O de não encontrar, nas pequenas raspas do cotidiano, a matéria frágil de que são feitas as minhas palavras.

Minhas reflexões nascem das conversas silenciosas que travo comigo mesmo — diálogos tortos, inacabados, que às vezes levo dias para admitir ao papel. É desse vai-e-vem interno que brotam meus juízos, ainda tímidos, ainda em construção.

O mais difícil, contudo, não é observar o que vejo ou ouvir o que ouço; é tentar formular um pensamento que não venha já marcado pelo selo invisível do preconceito. Isso exige de mim um gesto quase impossível: o de manter as portas abertas para a mudança, mesmo quando tudo em mim gostaria de permanecer imóvel.

Ouvir os outros sem antecipar suas intenções, sem filtrá-los pelos meus próprios medos, é permitir que suas ideias atravessem minhas defesas e alcancem o que tenho de mais íntimo. E quando coloco as verdades alheias diante das minhas, logo descubro que as minhas, tão sólidas pela manhã, são apenas provisórias ao cair da tarde.

Escrever sobre o mundo, então, torna-se um exercício de feridas abertas. É medir a distância entre quem eu sou e quem o outro me obriga a ser. É estar, o tempo inteiro, diante de um espelho que não me poupa. Não há tarefa mais difícil.

Por isso, cada amanhecer me pede um gesto primeiro: abrir o coração antes dos ouvidos. Minha matéria-prima é delicada e arisca — são as verdades que pertencem aos outros. É no atrito entre elas e as minhas que a escritura acontece. Tento não soar dogmático, tento não erguer doutrinas, embora saiba que às vezes tropeço no próprio ímpeto de compreender.

E, ainda assim, continuo.
Se é tão doloroso, por que insisto?

Porque não sei viver de outro jeito. Porque o assombro que o mundo me causa precisa, de algum modo, ser devolvido a ele. Porque quase nunca encontro respostas definitivas — mas encontro perguntas que me movem, que me ferem, que me despertam.

Se minhas verdades são provisórias, que ao menos minhas perguntas permaneçam. Elas, sim, são tudo o que posso oferecer com alguma firmeza. Elas, sim, são o que me sustentam diante da página em branco.

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