João Athaíde de Castro e Melo orgulhava-se do nome que carregava. Em Porto Felicidade, ele não era apenas um sobrenome: era uma referência, quase uma unidade de medida moral. Bastava pronunciá-lo para que surgissem histórias repetidas, polidas, transmitidas como certezas, sobre o homem que dera forma à cidade quando ela ainda mal passava de um…
Na semana passada escrevi sobre os pequenos gestos — essas delicadezas quase invisíveis que, sem alarde, sustentam o edifício das relações humanas. São gestos tão cotidianos que raramente lhes damos nome, mas é justamente neles que reside a arquitetura silenciosa do amor duradouro. Quanto mais penso nisso, mais percebo que a longevidade de um vínculo…
Já contei em outras crônicas sobre minha disciplina quase militar nas manhãs. Preso às engrenagens do relógio, cada gesto meu parece cronometrado, como se a mínima alteração nesse ritual pudesse desencadear uma avalanche de pequenos desastres domésticos — e, curiosamente, ela desencadeia. Não sei explicar o motivo, mas qualquer ruptura na rotina aciona em mim…
Eu me lembro perfeitamente daquele dia. A professora Terezinha me chamou com urgência: a turma do quinto ano havia ultrapassado os limites. Havia entre os alunos um menino de saúde frágil, já bastante debilitado por uma doença cruel. Sofria em silêncio as zombarias dos colegas, que viam em sua diferença motivo de riso. Ele partiria…
“Cada povo tem o governo que merece.”
A frase do conde Joseph-Marie de Maistre soa cruel, sobretudo quando observamos o Brasil contemporâneo. No entanto, há nela uma verdade desconfortável: afinal, de onde vêm nossos governantes, senão do próprio povo?
É claro que, na prática, muitos deles não emergem das camadas mais humildes. Ainda assim, é…
