Faz uns dois anos que isso aconteceu. Havia acabado de colocar o pé na secretaria escolar quando uma mãe me abordou; sem cumprimento, sem hesitação. Acusava a escola e a mim, o diretor, de estarmos prejudicando sua família. O motivo? Havíamos registrado as faltas de seu filho no sistema do Programa Bolsa Família. Com isso, ela estaria impedida de receber o benefício. Segundo ela, estávamos “tirando o direito” de seu filho.
Quem trabalha em escola sabe que a coisa não é bem assim. O benefício não é cortado imediatamente nas primeiras faltas. Havia prazo para justificar, e sequer exigíamos documentos oficiais; bastava a presença da mãe. O que não podíamos fazer era mentir para o sistema. Se fingíssemos que as crianças estavam presentes quando não estavam, esvaziaríamos o próprio sentido do programa: garantir que a criança frequente a escola. A presença não é uma burocracia. É a condição para que a educação aconteça.
O que me ficou daquela tarde não foi a aspereza da acusação. Foi a percepção de algo mais fundo: aquela mãe estava convicta de que tinha um direito. E que qualquer interferência nesse direito era, por definição, uma violação. A obrigação correspondente (mandar os filhos à escola) não parecia sequer fazer parte de seu mapa moral.
Mas seria injusto (e errado) tratar isso como problema de uma classe. O fenômeno atravessa a sociedade inteira. O empresário que sonega impostos, mas exige infraestrutura do Estado. O profissional liberal que frauda o sistema de saúde, mas se indigna com o sucateamento dos hospitais. O cidadão que joga lixo na calçada e reclama da sujeira das ruas. Em todos eles, a mesma assimetria: o direito é percebido como absoluto; o dever, como opcional.
Cresci num mundo em que direitos e deveres caminhavam lado a lado. O trabalhador tem direito ao salário porque trabalhou. Óbvio que essa visão é uma simplificação; há direitos que não decorrem de deveres, mas da própria condição humana. Essa distinção é legítima e historicamente necessária. Mas ao reagir, com razão, às injustiças de um passado em que os deveres eram cobrados apenas dos fracos, fizemos algo perigoso: descartamos a linguagem dos deveres por inteiro. A palavra envelheceu mal, ficou associada a autoritarismo, a uma moral de caserna. E ao jogá-la fora, jogamos junto algo essencial: a compreensão de que uma sociedade não é apenas um conjunto de indivíduos com direitos, mas uma trama de pessoas com obrigações recíprocas.
Naquela tarde, a mãe foi embora com a mesma certeza com que havia chegado. Talvez houvesse injustiças reais em sua vida maiores do que aquela falta registrada. Mas havia algo que ela não via, e que eu não soube mostrar: seus filhos só têm escola porque há quem pague impostos. Há escola porque professores comparecem. Há benefício porque há regras que sustentam o programa. Direitos não existem no vácuo. Eles dependem de que alguém, em algum lugar, cumpra um dever. Uma sociedade que se esquece disso não está apenas sendo irresponsável; está destruindo, por dentro, a única estrutura capaz de garantir os direitos que tanto reivindica.
