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O Projeto Disfarçado

Costumo dizer que O Último Trem é um projeto menor. E, enquanto digo, acredito.

É verdade. E é uma meia verdade.

O romance nasceu numa pausa. Minha Leitora Crítica precisava de tempo para analisar Rios de Sangue e Ouro, um livro que ela praticamente está me fazendo reescrever do zero. Enquanto esperava, escrevi O Último Trem. Menor em escala, mais ágil em estrutura, um enredo que se move. Um livro para conquistar leitores enquanto o outro amadurecia.

Mas pausas não são vazios. Às vezes são o lugar onde o essencial acontece sem que o escritor perceba.

O romance começa com a morte de João Pessoa, em 1930. Político paraibano, candidato derrotado à vice-presidência numa chapa com Getúlio Vargas, baleado numa confeitaria do Recife numa tarde de julho.

O país recebeu uma versão: crime político. As elites aliadas a Washington Luiz. Os inimigos da renovação. O assassinato virou símbolo. O símbolo virou estopim. O estopim virou revolução. Vargas chegou ao poder em outubro.

O que aconteceu era mais simples. E mais sórdido.

João Pessoa havia se envolvido na vida pessoal do homem errado. O crime foi passional. O atirador não era agente de ninguém. Era um homem ofendido e furioso.

Mas essa versão não servia a nada. A outra, sim.

Entre o fato e o que se faz com o fato, aí está a narrativa.

Narrativa não é mentira. É escolha. É enquadramento. É decidir o que entra e o que fica de fora, quem é herói, quem é vilão, onde a história começa e onde termina. Toda narrativa é verdadeira o suficiente para ser acreditada e construída o suficiente para servir a alguém.

Em 1941, Hans Krueger infiltra-se como engenheiro na obra da Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda. É alemão, é espião, e está ali por razões que o leitor descobrirá. O que ele não sabe ainda é que as tramas ao seu redor não são apenas de guerra. São de versão. De quem contará a história depois, e como.

As intrigas políticas, as cenas de ação, o suspense, o amor, a traição, a construção da CSN: tudo isso acontece. Tudo isso é real. Mas responde, o tempo todo, a uma única pergunta:

A quem esta história serve?

Reli o manuscrito na semana passada, enquanto aguardava o retorno de mais uma editora. Percebi que o livro escrito na pausa funciona, de certo modo, como um prólogo do que venho construindo em Rios de Sangue e Ouro: uma investigação sobre civilização, custo humano e memória. Sobre o que se ganha (e o que se paga) para construir algo que permaneça. Sobre quem tem o poder de dizer o que aconteceu.

Não planejei isso. Aconteceu porque pausas não são vazios.

O Último Trem começa com uma narrativa e termina com a construção de outra. Hans Krueger, no meio disso tudo, é menos espião do que testemunha. Um homem que aprende, a um custo alto, a diferença entre o que acontece e o que se conta sobre o que acontece.

E, uma vez aprendida, essa diferença não se desaprende.

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