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Capítulo 10 – O Jogo das Potências

Rio de Janeiro, Ministério das Relações Exteriores, 15 de março de 1938 – 10h00

A Alemanha era, em 1938, o mais importante parceiro comercial do Brasil na Europa. Sua participação nas importações brasileiras havia saltado de 14,02% em 1934 para 25% em 1938, enquanto os EUA representavam 24,02%.

Osvaldo Aranha, ministro das Relações Exteriores, estudava os números com satisfação calculada. O sistema de “marcos de compensação” permitia ao Brasil exportar algodão, café, cacau e minérios, enquanto a Alemanha fornecia máquinas, armamentos e produtos químicos. Era atraente para o Brasil, que enfrentava dificuldades econômicas globais.

Mas havia um problema.

Em junho de 1938, o Banco do Brasil possuía uma vultosa quantia em marcos compensados. O Brasil era credor da Alemanha. Esse excedente decorria do aumento significativo no volume de importações de matéria-prima por parte de uma Alemanha pré-beligerante.

Aranha recostou-se na cadeira, acendeu um cigarro. Do outro lado da mesa, o embaixador alemão Karl Ritter aguardava, impassível.

– Senhor Embaixador – disse Aranha, em alemão fluente. – O Brasil está em posição desconfortável. Temos créditos em marcos que não podemos usar. Precisamos converter isso em algo… tangível.

Ritter assentiu.

– O que o senhor Ministro sugere?

Aranha sorriu.

– Armamento. E tecnologia. Especificamente, tecnologia siderúrgica.

Ritter não demonstrou surpresa. Esperava aquilo.

– A Krupp – disse ele, cuidadosamente – está disposta a considerar colaboração. Fornos, equipamentos, engenheiros. Tudo que o Brasil precisa para construir uma grande usina.

– Em troca de quê?

– Minério de ferro. Exclusividade nas exportações para a Alemanha.

Aranha fez uma pausa, fumou, estudou o alemão.

– E financiamento?

– Discutível. Dependeria das… circunstâncias políticas.

Aranha entendeu perfeitamente. A Alemanha financiaria se o Brasil se alinhasse ao Eixo. Ou pelo menos, permanecesse neutro quando a guerra começasse.

– Levarei a proposta ao presidente Vargas – disse Aranha. – Mas o senhor Embaixador deve entender: o Brasil não escolhe lados. O Brasil escolhe interesses.

Ritter sorriu, um sorriso sem calor.

– Todos escolhem, ministro. A questão é quando.

Berlim, Alemanha, 20 de janeiro de 1939 – 14h00

O coronel Edmundo de Macedo Soares e Silva desembarcara em Berlim com missão clara: estudar a possibilidade de o Brasil obter colaboração de capitais estrangeiros e exportar minério de ferro para países europeus.

Mas a Europa estava à beira da guerra. E Macedo Soares sabia disso.

Ele foi recebido nas instalações da Krupp em Essen – complexo industrial gigantesco, fornos fumegando dia e noite, cheiro de aço fundido impregnando o ar. Gustav Krupp von Bohlen und Halbach, chefe da empresa e sustentáculo do nazismo, o recebeu pessoalmente.

Gustav tinha sessenta e oito anos, postura militar, olhos frios de quem vira e financiara uma guerra e estava pronto para financiar outra. Macedo Soares o cumprimentou com formalidade militar.

– Coronel – disse Gustav, em alemão pausado. – O Brasil precisa de aço. A Alemanha precisa de minério. É simples.

 

– Nada é simples, senhor Krupp – respondeu Macedo Soares. – Especialmente em véspera de guerra.

Gustav sorriu.

– Guerra… É exatamente por isso que precisamos de parceiros. O Brasil tem o que precisamos. Nós temos o que o Brasil precisa. Tecnologia. Equipamentos. Engenheiros. Tudo.

– E capital?

– Disponível. Com condições.

Macedo Soares esperou.

– Exclusividade – continuou Gustav. – Minério brasileiro para fornos alemães. Por dez anos. Preços fixos. Pagamento em equipamentos e tecnologia.

Macedo Soares fez cálculos mentais. Era proposta tentadora. Mas havia armadilha.

– E se a guerra começar? – perguntou ele. – O bloqueio naval britânico tornará o acordo inútil.

Gustav acenou com a cabeça.

– Por isso o acordo deve ser assinado antes. E implementado rapidamente. A construção da usina começa imediatamente. Em dois anos, estará produzindo. Antes que qualquer bloqueio seja efetivo.

Macedo Soares estudou o alemão. Como observou depois, a guerra estava muito próxima e os países europeus não estavam interessados em investir no Brasil – estavam interessados em garantir recursos para a guerra que se aproximava.

– Levarei a proposta ao presidente Vargas – disse ele. – Mas devo avisá-lo: o Brasil negocia com todos. Americanos, ingleses, alemães. Quem der melhores condições, vence.

Gustav levantou-se, estendeu a mão.

– Que assim seja, coronel. Mas lembre-se: quando a guerra começar, as opções diminuem. E a Alemanha não esquece seus amigos.

Nem seus inimigos, pensou Macedo Soares. Mas não disse.

Washington D.C., Estados Unidos, 10 de maio de 1939 – 11h00

Em maio de 1939, durante visita aos Estados Unidos do chefe do Estado-Maior do Exército brasileiro, general Góis Monteiro, o governo norte-americano manifestou sua disposição de cooperar no reequipamento econômico e militar brasileiro em troca de colaboração nos planos de defesa continental.

Mas as negociações travavam.

Góis Monteiro estava sentado na sala de reuniões do Departamento de Estado, frustrado. À sua frente, funcionários americanos repetiam o mesmo discurso há semanas: “Estamos interessados. Mas precisamos de garantias.”

– Que garantias? – perguntou Góis, impaciente.

 

– Alinhamento político – respondeu Jefferson Caffery, embaixador americano no Brasil, que acompanhava as negociações. – Washington teme que o Brasil se alinhe ao Eixo. Vargas é… ambíguo.

– Vargas é pragmático – corrigiu Góis. – E pragmatismo exige opções. Se os americanos não financiarem, os alemães financiarão.

– Os alemães – disse Caffery, cuidadosamente – não poderão enviar nada se houver bloqueio naval britânico. E haverá.

– Então os americanos deveriam agir rápido – retrucou Góis. – Porque a paciência brasileira tem limites.

Mas os americanos não agiram. A negativa americana se deu justamente pelo receio do Brasil aderir ao Eixo, pois além de Getúlio, alguns generais de alta patente eram tidos como germanófilos.

E Getúlio Vargas, recebendo relatórios de Góis Monteiro, sorriu. Quanto mais os americanos hesitavam, mais os alemães avançavam. E quanto mais os alemães avançavam, mais os americanos se preocupavam.

Era o jogo. E Getúlio jogava bem.

Rio de Janeiro, Embaixada Alemã, 25 de agosto de 1939 – 18h00

O embaixador alemão Kurt Prüfer comunicou oficialmente ao governo brasileiro o interesse alemão em financiar integralmente a construção da usina siderúrgica.

A proposta era tentadora:

– Financiamento total pela Krupp – Fornecimento de toda tecnologia e equipamentos – Envio de engenheiros alemães para supervisionar construção – Pagamento em minério de ferro ao longo de dez anos – Início imediato das obras.

Getúlio Vargas leu a proposta três vezes. Osvaldo Aranha estava ao seu lado, fumando nervosamente.

– É boa demais – disse Aranha. – Suspeita demais.

– É desesperada demais – corrigiu Getúlio. – Os alemães sabem que a guerra começa em dias. Querem garantir minério antes que seja impossível.

– E os americanos?

– Continuam hesitando.

Aranha apagou o cigarro, acendeu outro.

– Se aceitarmos a proposta alemã, os americanos nos consideram inimigos. Se recusarmos, os alemães se afastam. E se continuarmos indefinidos…

– Continuamos com poder de barganha – completou Getúlio.

Silêncio.

– Não responderemos ainda – disse Getúlio, finalmente. – Deixaremos a proposta em aberto. Quando a guerra começar – e começará – veremos quem sobrevive ao primeiro ano. E então escolheremos.

Aranha sorriu, admirado.

– O senhor joga xadrez enquanto outros jogam damas.

– Não – disse Getúlio, calmamente. – Eu jogo pôquer. E no pôquer, quem mostra as cartas primeiro, perde.

Rio de Janeiro, Palácio do Catete, 1º de setembro de 1939 – 08h00

A notícia chegou pelo rádio, depois por telegrama, finalmente por telefonemas frenéticos de embaixadas. A Alemanha invadira a Polônia. A Segunda Guerra Mundial começara.

Getúlio Vargas reuniu o ministério de emergência. Góis Monteiro, Oswaldo Aranha, Eurico Dutra, Filinto Müller. Todos presentes. Todos esperando decisão.

– Declaramos neutralidade – disse Getúlio, simplesmente.

– Por quanto tempo? – perguntou Aranha.

– Até que alguém nos dê a siderúrgica – respondeu Getúlio.

Os ministros se entreolharam.

– Os alemães ofereceram – disse Góis Monteiro.

– Mas não podem entregar – completou Aranha. – O bloqueio naval britânico torna a proposta inútil.

– Então esperamos – disse Getúlio. – E enquanto esperamos, negociamos. Com todos. Dizemos aos alemães que consideramos a oferta. Dizemos aos americanos que temos alternativas. E quando um dos dois ceder… nós escolhemos.

Era arriscado. Era cínico. Era perfeito. E funcionaria.

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