Era meados da década de 1940 em Barra Mansa, quando a cidade oscilava entre dois mundos: o das roças cansadas e o das chaminés que começavam a cuspir fumaça no horizonte.
A Vila Nova, ainda um bairro afastado, mais ligado às fazendas do que ao centro urbano, surgia como um corpo estranho a meio caminho entre o rural e o industrial. Ali as ruas viviam cheias de meninos descalços e meninas de laços tortos; poeira vermelha para todo lado; cheiro de lenha, de carvão, de roupa secando em varal improvisado.
A nova Siderúrgica Barra Mansa, recém-inaugurada, despejava gente de todo canto. Mas nada apagava o fato de que, desde o século XIX, aquele pedaço de mundo era um ponto de passagem: fora ali que a estrada aberta pelo Visconde de Barra Mansa para escoar o café da Fazenda Santana do Turvo encontrara o Rio Paraíba do Sul. No entorno daquela estrada, a mata, domesticada à força, deixava escapar uma casa isolada aqui, outra acolá — taperas ocupadas por sobreviventes do frio, do tempo e da fome.
Mesmo assim, o bairro vibrava: havia igreja com sinos que teimavam em acordar o domingo, havia festas de santo, grupo escolar, encontros na porta de venda, crianças derrapando nas valetas como se fossem rios imaginários. A gente da Vila Nova era pobre, mas erguia o dia com a força dos braços e a fé nos bolsos vazios.
E foi justamente nessa época de vida miúda e barulhenta que começou o silêncio.
Primeiro foi um menino. Depois dois. Depois cinco. Em dois anos, oito meninos desapareceram sem deixar vestígio. As histórias eram sempre as mesmas: entravam na mata atrás de passarinhos, procuravam ninhos entre os galhos ou simplesmente se perdiam nas brincadeiras e não voltavam.
Quando a noite caía e o medo subia montanha acima, as mães saíam com lamparinas tremendo nas mãos pelas trilhas que levavam ao córrego da Água Comprida, vasculhavam pedras, barrancos, ocos de árvore. Nunca encontravam nada. Nem uma peça de roupa. Nem um fio de cabelo.
As autoridades vinham, anotavam, prometiam, ajudavam nas buscas — e nada. Depois de alguns dias, os meninos perdidos viravam nomes riscados num caderno. E quando são filhos de pobre, até o caderno esquece.
Mas o povo não esquecia. E quando o medo aperta o peito por tempo demais, qualquer sussurro vira certeza. Logo, todos voltaram seus olhos para Dona Tereza.
Era uma velha que morava num casebre perto de onde hoje chamam Morro do Sabão. Vivia sozinha, tinha gênio ruim, aparência que assustava até os adultos, e um silêncio que não convidava ninguém a prosa alguma. As crianças menores a temiam; os meninos maiores a provocavam para ouvir os palavrões que ela devolvia com fúria. Ninguém podia jurar ter visto algo errado, mas ninguém queria viver perto dela.
Quando começaram a chamá-la de Cuca, ela passou a andar pelas ruas como se carregasse a própria peste nos ombros. As mães gritavam pelos filhos para virem para dentro. As janelas se fechavam. A poeira assentava mais rápido à sua passagem.
E, curiosamente, depois de tanta histeria, os desaparecimentos cessaram. Seis meses inteiros sem sumir criança alguma. As mães respiraram um pouco. Os meninos voltaram a brincar perto da mata, mas não muito dentro dela. Como se o medo tivesse se acomodado — apenas dormindo.
Até aquela manhã.
Era sábado, dia de roupa lavada e cheiro de café forte quando o bairro acordou em sobressalto. Uma menina tinha sumido. E não uma menina qualquer: era Luíza, três anos, doce como fruta madura, cabelos louros que brilhavam quando ela corria no quintal. Tinha desaparecido do próprio quarto, no meio da noite.
Quando Bento e Maria Aparecida surgiram na porta de casa, estavam irreconhecíveis. Os olhos do casal pareciam duas brasas acesas pela beira do desespero. O quarto da menina ficara em silêncio, como se tudo ali dentro tivesse sido interrompido no ar.
A janela estava entreaberta. No chão, pequenas pegadas de terra — e nada mais.
A notícia correu em minutos. O bairro inteiro, do grupo escolar ao armazém, das lavadeiras aos trabalhadores da siderúrgica, correu para a rua. Alguns homens tentavam organizar buscas. Mulheres choravam como se cada lágrima pudesse chamar de volta a menina perdida.
E o nome que ninguém ousava dizer voltou a circular, desta vez com força de martelo:
— Foi a Cuca.
Dona Tereza, ao saber da acusação, fechou-se em seu casebre. Mas a história caminhava sozinha, como fogo em mata seca. Quem quisesse ou não, já havia um culpado. E a névoa daquela manhã parecia mais pesada que o comum, como se o mato respirasse junto com o medo do povo.
A mata da Água Comprida, tão antiga quanto as primeiras casas, ficava ali, impassível, olhando tudo. Um mundo que não respondia a perguntas humanas. Um mundo que podia engolir meninos — e agora, talvez, uma menina.
A partir deste ponto, a história da Vila Nova deixaria de ser apenas lenda de mãe protetora. Algo estava vindo da mata. Algo que ninguém queria ver. Algo que já tinha nome — mesmo que ninguém soubesse de verdade o que esse nome queria dizer.
E, naquela manhã, como nunca antes, o bairro inteiro passou a acreditar que a Cuca não era apenas uma velha. Era uma presença. Uma sombra. Ou algo que a própria mata escondera por tempo demais. Era o ódio das pessoas contra as pessoas.
O bairro demorou dias para voltar a respirar depois daquela manhã de fúria. O cheiro de fumaça do casebre que foi queimado com Dona Tereza lá dentro impregnou o bairro inteiro, como um remorso que se recusava a dispersar.
Durante semanas ninguém passava perto do Morro do Sabão; crianças eram puxadas para dentro de casa ao menor sinal de pôr do sol. Mas o alívio que deveria vir com a morte da velha não veio. Pelo contrário.
As noites ficaram mais pesadas. Os galos passaram a cantar fora de hora. Cães latiam para o mato sem motivo aparente. As mulheres evitavam comentar, mas havia algo no ar — um sentimento de que a violência cometida não dera fim à sombra, e sim a despertara.
E o mais terrível: Luíza continuava desaparecida.
Bento e Cida se transformaram em espectros vagando pela casa. Ele mal trabalhava; ela mal comia. Os vizinhos tentavam consolar, sem muito sucesso. Ao final de dois meses, derrotados pelo luto e pelo vazio, decidiram voltar a Minas, para a cidade natal de Bento. Talvez lá, entre parentes, pudessem aprender a sobreviver à ausência.
Partiram sem festa, sem despedidas. Nem os sinos da igreja tocaram.
Na cidade mineira, a vida era mais lenta, os dias mais silenciosos. Havia um conforto cruel em estar perto da família, ainda que fosse impossível esquecer. João — primo de Bento, ferroviário, solteirão — visitava-os com frequência, tentando aliviar as dores do casal. Era um homem cordial, ajudava no que podia, e, desde antes da tragédia, nutria carinho pela pequena Luíza.
Foi ele quem arranjou um serviço leve para Bento na estação. Foi ele quem levava mantimentos. Foi ele quem insistiu para que Cida continuasse lavando suas roupas enquanto vivia sozinho, viajando de cidade em cidade pela rede ferroviária.
Um dia, João pediu à prima emprestada um favor simples:
— Cida, quando for lá em casa, pega umas roupas que eu separei pra doação. Tão no quarto de costura da mamãe.
Mas João esqueceu de separar as peças. E esqueceu de avisar.
Cida, que sempre tratou a casa dele com o respeito de quem pisa num altar alheio, procurou sem querer procurar. Abriu portas devagar, como se temesse acordar uma memória antiga. Passou pela sala, pelo quarto, pela cozinha estreita.
E então entrou no quarto de costura da falecida mãe de João.
Era um espaço parado no tempo. As linhas ainda estavam dispostas na estante, as agulhas espetadas numa almofadinha puída. O cheiro de naftalina misturava-se a algo mais frio, mais denso, difícil de nomear.
Foi nesse quarto que ela viu.
Num canto, quase escondido, um pequeno feixe de pano rosado.
Cida se aproximou com passos que não eram seus.
Pegou a peça.
O mundo parou.
Era um pijaminha cor-de-rosa. O pijaminha cor-de-rosa. A estampa de cerejinhas. A barra gasta no tornozelo. E, mais terrível que tudo, a manchinha escura de feijão, que Luíza derramara na noite do desaparecimento.
A garganta de Cida fechou. As pernas fraquejaram. Ela não gritou — não conseguia. Apenas saiu da casa como se fugisse de uma assombração real.
Bento reconheceu a roupa antes mesmo que a esposa terminasse a frase.
A polícia veio rápido desta vez.
Cercaram a casa de João. Esperaram ele voltar da viagem. O ferroviário fingiu surpresa, indignou-se, chorou — depois, silenciou.
A escavação do quintal foi lenta, meticulosa.
O cheiro foi sentido antes que a primeira pá revelasse a terra remexida.
E então vieram as descobertas, uma por uma, como facas.
Nove pequenas ossadas.
Oito meninos.
Uma menina.
O terror que assolara a Vila Nova não tinha vindo da mata.
Nem da bruxa.
Nem de nenhuma entidade sobrenatural.
Tinha vindo de um homem comum.
Polido.
Silencioso.
Prestativo.
Um monstro sem dentes pontudos, sem garras, sem feitiçaria.
Um monstro que passava despercebido na rua.
Que sorria sem levantar suspeita.
Que carregava a sombra por dentro e deixava a culpa espalhar-se sobre uma velha solitária.
A verdadeira Cuca.
Quando a notícia correu, a Vila Nova — distante dali — viveu uma comoção tardia. Pessoas choraram por Dona Tereza. Pessoas pediram perdão a um túmulo sem nome. O padre rezou uma missa pela alma da velha. Os homens que haviam participado da vingança carregaram a culpa como corrente.
A mata, calada, continuou apenas sendo mata.
E, em Barra Mansa, nas décadas seguintes, sempre que uma mãe gritava para um filho:
— Não vai sozinho! A Cuca te pega!
alguns velhos estremeciam por dentro, sabendo que, naquele bairro, Cuca nenhuma precisava de asas, garras ou feitiços. Bastava ter um rosto comum.
