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Entre Sonhos e Despertar

Era o barulho seco de um impacto (como metal rasgando o ar) seguido de um grito feminino que se desmanchava na escuridão. Flávio despertou sobressaltado, o peito arfando, a pele ensopada. Que pesadelo mais estranho. E tão absurdamente vívido. Piscou algumas vezes até reconhecer o contorno familiar da cabeceira. Cinco da manhã de uma segunda-feira. O mundo parecia suspenso.

Arrastou-se até o banheiro. A luz fria revelou um rosto que lhe parecia mais cansado do que o que o espelho devolvia.

Quando, afinal, chegara até ali?

Sozinho, sem filhos, sem esposa, mergulhado num trabalho que o consumia sem lhe restituir nada. Às vezes desejava simplesmente desaparecer. Outras, partir e seguir mundo afora como quem tenta localizar, em algum ponto remoto, a resposta para a inquietação do próprio coração.

Permaneceu algum tempo plantado diante de si mesmo, como se examinasse um estranho. Depois tomou banho, vestiu-se e decidiu tomar café na padaria. Talvez o burburinho matinal o distraísse.

Não distraía. A padaria ainda despertava: só ele e a balconista, que mal lhe ofereceu mais que um sorriso automático. Sentou-se num canto, café preto, pão na chapa, e rolou notícias sem realmente lê-las.

Economia, política, negócios, o mesmo inventário de desinteresse.

Voltaria para casa apenas para escovar os dentes. O relógio marcava seis e meia; cedo demais para chegar ao escritório. Cedo demais para tudo.

Resolveu mudar a rotina. Estacionaria perto do trabalho, como sempre, mas caminharia pelo parque em frente ao edifício.

O ar fresco o recebeu com uma simplicidade quase terna. Havia algo de reconfortante naquelas árvores úmidas de orvalho, mesmo caminhando de camisa social e gravata, como um intruso no território da serenidade.

Então sentiu: um olhar. Não qualquer olhar, um que o atravessava com familiaridade. Do outro lado do caminho, uma jovem observava-o sem pudor. Devia ter uns vinte e cinco anos. Magra, olhos e cabelos castanhos, postura naturalmente elegante. Vestia um vestido branco com pequenas flores pretas, leve o bastante para balançar ao vento, firme o bastante para insinuar a harmonia do corpo que ocultava.

Ela sorria. Sorria para ele.

E, de longe, seus lábios desenharam palavras inequívocas:
Tudo bem? Você ainda se lembra de mim?

Flávio estremeceu. Não se lembrava. Ou lembrava? Alguma colega da escola? Alguma antiga amiga? Quando tentou aproximar-se, um grupo de corredores passou entre eles como uma onda, e a jovem desapareceu, engolida pela multidão.

Levou aquela estranheza ao escritório, onde as reuniões, relatórios e almoços repetidos consumiram o dia como se mastigassem sua própria sombra. Mas a pergunta persistia: de onde conhecia aquela mulher?

À noite, a academia. Treino silencioso. Pessoas filmando, posando, retocando. Ele não; disciplinado, invisível. Ainda assim, o rosto dela, sempre o rosto dela, rondava suas lembranças.

Voltou para casa, comeu qualquer coisa, banhou-se e adormeceu com o telefone sobre o peito, após navegar por perfis de mulheres perfeitas e vazias. Mas nenhuma delas era a jovem do parque.

E sonhou.

Ela sorria e corria. Depois estava deitada ao seu lado, quase nua, envolta na intimidade serena de quem, após o amor, descansa na linguagem que não se fala. Aquilo não parecia sonho. Parecia memória.

Até que a jovem virou o rosto para ele e murmurou, como quem chama de volta alguém perdido:

Flávio, está na hora de acordar, meu amor.

Ele acordou. Outra vez o espelho. Outra vez o vazio. Outra vez a padaria.

Mas agora havia uma decisão: encontrá-la.

Chegou ainda mais cedo ao parque. Esperou num banco. Observou os primeiros corredores surgindo entre as árvores.

Então ela apareceu.
A mesma jovem.
O mesmo sorriso.
O mesmo vestido.

Como se nenhuma noite tivesse acontecido.

Sentou-se num banco, a alguns passos dele. Flávio aproximou-se com o coração disparado.

— Quem é você? De onde eu te conheço?
Ela o olhou com ternura. Havia amor naquele olhar.
— Você não se lembra de mim?
E, num sussurro que parecia vir de outro plano:
— Está na hora de acordar, meu amor.

Flávio abriu os olhos — desta vez num sobressalto seco. O relógio marcava sete da manhã. Segunda-feira. Estava atrasado. Tudo fora sonho. Sonhos dentro de sonhos.

Correu. Correu para tudo: banho, rua, padaria. A padaria estava cheia. Sentou-se no canto de sempre, tentando recuperar o fôlego da realidade.

A balconista se aproximou.
— Flávio…

Ele ergueu a cabeça.

Era ela.

— Está na hora de acordar, meu amor.

O mundo desabou. Flávio fugiu, da padaria, da mulher, de si mesmo. Entrou no carro, acelerou, fugiu sem saber do quê.
O sinal vermelho veio rápido demais; o caminhão, ainda mais. O impacto devolveu-o ao silêncio.

Depois, a luz branda do hospital. O médico abrindo suas pálpebras com cuidado.

— Ele está despertando — murmurou alguém. — Só avaliamos o dano quando ele acordar completamente.

Flávio lutou para abrir os olhos. O corpo era dor. A voz, um fiapo.

— Qual seu nome?
— Flávio Duarte de Gonçalves.
— Idade?
— Trinta e três. Fiz no dia quinze.

O médico fez um gesto para alguém entrar.
E então ela surgiu — não mais como miragem, mas com o rosto marcado de angústia e alívio.
Ela chorava.

— O senhor se lembra dela? — perguntou o médico.

Flávio fitou-a com suavidade, como quem reencontra o porto depois de muito mar.

— Claro que lembro. É Mariana. Minha esposa. Conheci-a no parque, em frente ao escritório. Ela usava um vestido branco com flores pretas… Somos casados há cinco anos. Temos uma filha de dois anos. Sofia.

Mariana caiu sobre ele, chorando, agora de felicidade.
E, no abraço tremido, Flávio enfim acordou.

Acordou para o que sempre fora real.

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